Existe um fenômeno silencioso acontecendo ao longo dos anos: muitos homens, sem perceber, vão se afastando de seus amigos mais próximos. Não por falta de carinho, nem por ausência de história compartilhada, mas por algo mais sutil: a dificuldade de sustentar vínculos quando eles exigem emoçãoe profundidade. E entenda: estou retratando especificamente sobre o sexo masculino.
Curiosamente, figuras públicas como Keanu Reeves ilustram esse perfil de forma parcial. Reservado, ele mantém vínculos antigos, mas já declarou se considerar uma pessoa solitária, especialmente após perdas profundas, como a do amigo da juventude, River Phoenix, em 1993. Neste caso, não se trata de ausência de sentimento, mas de um sentimento mais contido.
Mesmo assim, o exemplo do galã de 'Velocidade Máxima' e 'John Wick' nos faz refletir sobre os sentimentos escondidos no universo masculino. E os dados ajudam a dimensionar esse cenário.
Segundo o Survey Center on American Life, a porcentagem de homens com pelo menos seis amigos próximos caiu drasticamente desde 1990, passando de 55% para apenas 27%. E pior: 15% dos homens afirmam não ter nenhuma amizade próxima.
O senso comum mostra que homens não sabem se conectar, que lhes falta habilidade emocional. Mas essa leitura é superficial. A própria psicologia do desenvolvimento aponta o contrário.
Como destacado pela Psychology Today, estudos da pesquisadora Niobe Way mostram que meninos de cerca de 15 anos falam abertamente sobre amor entre amigos, demonstram afeto e dizem depender emocionalmente dessas relações. Eles compartilham sentimentos, inseguranças e medos, ou seja, há conexão e intimidade.
Então o que acontece depois? Em algum ponto entre o fim da adolescência e o início da vida adulta, algo se rompe. Não de forma explícita, mas progressiva. Em muitas culturas ocidentais, demonstrações de afeto entre homens passam a ser vistas com estranhamento, ironia ou silêncio.
Como lidar com o desconforto da falta de exposição de sentimentos?
Somente a ideia de contar aos amigos o que está se sentindo pode ser visto constrangimento. Um exemplo cotidiano ajuda a entender: dois amigos conversam sobre futebol, trabalho, música, qualquer assunto leve. Porém, quando um deles termina um relacionamento, ele não conta, pois ali existe um território que ele aprendeu a não acessar.
Esse padrão não significa que homens sejam menos emocionais, apenas que foram treinados para não expressar. O resultado é um acúmulo silencioso: quando não há amigos com quem dividir, todo o peso emocional recai sobre uma única pessoa, geralmente a parceira romântica.
A questão central, então, não é falta de capacidade, é a falta de prática. E talvez exista um caminho de volta, ainda que desconfortável. Ele começa em gestos simples, como, por exemplo, mandar uma mensagem que vá além do 'e aí?'.
Porque, no fim, amizade não desaparece de repente. Ela vai sendo substituída por versões mais rasas, até que um dia já não sustenta o que antes sustentava. E recuperar isso exige algo que muitos homens foram ensinados a evitar, mas que sabem a importância de fazer.