Muito mais que apenas um faroeste - por Humberto Oliveira

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Há quase 15 anos não assistia a O Homem que Matou o Facínora, de John Ford. Ao revê-lo, constatei mais uma vez a genialidade de um grande diretor que se apresentava apenas como um "realizador de westerns".
 
Ford vai muito além da ação, tiroteios e duelos típicos do gênero. Neste que é seu testamento cinematográfico em se tratando de faroestes, o diretor de obras-primas como Rastros de Ódio, expõe seus personagens mais humanos.
 
Lee Marvin, James Stewart e John Wayne em cena de O homem que matou o facínora.
 
 
O longa apresenta a máxima: "Quando a lenda é maior que a verdade, imprime-se a lenda". A história, contada em flashback, começa com o retorno do agora senador à pequena cidade para o sepultamento de um velho amigo. 
 
Ford reuniu um elenco perfeito. James Stewart faz o jovem advogado idealista e ingênuo que acredita na lei e na justiça, mas acaba se tornando um político. Vera Miles é sua esposa, que no passado era uma garçonete analfabeta a quem ele ensina a ler e a escrever.
 
James Stewart, Edmund O'Obrian e John Wayne numa de O homem que matou o facínora
 
 
Edmond O'Brien é o jornalista do único jornal da cidade que, apesar de estar sempre bêbado, é um defensor da verdade. Lee Marvin é Liberty Valance, o facínora do título em português do filme.
 
Tem ainda John Wayne, fazendo aqui um personagem tão complexo quanto o Ethan Edwards de Rastros de Ódio. Ele é o oposto do personagem de Stewart: acredita apenas na violência para lidar com a violência.
 
O facínora do título Liberty Valance vivido por Lee Marvin. Atrás,  Lee Van Cliff, outro ator famoso por interpretar vilões em faroestes como O homem que matou o facínora e Matar ou morrer, de Fred Zinnerman
 
O Homem que Matou o Facínora é mais que um faroeste. É um drama que se passa no Velho Oeste,  um estudo sobre perda, equívocos, culpa e redenção. Não trata apenas da violência, mas de impunidade, cidadania, política, amizade, amor, justiça, liberdade de expressão e reconhecimento. É um filme também sobre sacrifício. Doniphon abre mão do amor e do reconhecimento para Stewart virar o herói que o Oeste precisava
 
Mesmo girando em torno de uma mentira, o longa não esconde os fatos e revela a verdade sobre o que realmente aconteceu. Uma obra-prima do Homero do Cinema.
 
John Wayne e Vera Miles, cujo coração é disputado por ele e o personagem de James Stewart em O homem que matou o facínora
 
 
Realizado em 1962, com roteiro de James Warner Bellah e Willis Goldbeck, baseado em conto de Dorothy M. Johnson. Ford escolheu preto e branco em 1962, quando cor já dominava. Reforça o tom de elegia e mito
 
John Wayne como Tom Doniphon,  único papel em que ele mata o vilão pelas costas. Subversão do herói clássico. Lee Marvin roubou a cena como Valance. Ganhou fama de vilão depois disso. Woody Strode como Pompey, um dos poucos atores negros com papel digno em westerns da época. A cena do caixão é marcante.
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