TURISMO: Longe da visibilidade nacional, empreendedores investem no mercado local

Altos preços de passagens aéreas e custo do transporte terrestre aumentado pelos pedágios fazem com que turistas rondonienses busquem destinos locais, onde conhecem belas paisagens amazônicas

TURISMO: Longe da visibilidade nacional, empreendedores investem no mercado local

Foto: Maytso Tebalde

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Por Maytso Tebalde*

 

 

Com a mente de quem decidiu viver na estrada, Jefferson Araújo mudou a rota da própria vida em 2019, para investir no turismo receptivo e de aventura em Rondônia. Quando se formou guia turístico em uma das primeiras turmas do Senac – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial –, já tinha consciência que atuaria em um estado pouco explorado turisticamente. Ele precisaria romper barreiras não só geográficas, mas também estruturais, e foi justamente o desafio que o fez apostar no seu próprio negócio.

 

No início, o trabalho era local, realizando City Tours pela cidade de Porto Velho, onde mora. Apresentava aos clientes pontos históricos do município, como as Três Caixas D’água, Museu Rondon, pôr sol às margens do rio Madeira, conduzindo grupos menores e fazendo fretamentos particulares em seu carro. As ruas da capital eram seu maior investimento.

 

Então surgiu a pandemia da covid-19. O mundo parou, o turismo estagnou e, consequentemente, Jefferson precisou repensar seu caminho. Trabalhou durante dois anos como motorista de aplicativo, torcendo para que fosse temporário. Enquanto atendia uma corrida e outra, mantinha o desejo de retornar às estradas do turismo. Em 2022, quando o setor iniciou sua recuperação, finalmente conseguiu retomar seu projeto e abrir seu próprio negócio: a Extremo Norte Viagens e Turismo.

 

Turistas ajudam a trocar pneu de van, após bater em buraco na BR 364 - Crédito/foto: Maytso Tebalde

 

Jefferson passou então a fazer parte dos mais de 41 mil prestadores de serviços turísticos registrados no Cadastur – sistema de cadastro do Ministério do Turismo (MTur) de pessoas físicas e jurídicas que atuam no setor de turismo –, uma parcela grande de profissionais que representam 95% das microempresas regularizadas no setor turístico, como mostra o MTur em um levantamento junto ao Sebrae – Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas. O movimento refletia um setor comercial que ansiava por recuperar o tempo perdido com o isolamento. As pessoas precisavam sair de casa, arrancar as máscaras, viajar, enfim... viver!

 

Foi então que o empreendedor decidiu investir em seu primeiro veículo de trabalho: uma van. Tinha por objetivo atender clientes vindos de outros estados, porém, a realidade rondoniense bateu à porta.

 

             Ponto de partida

 

 A baixa procura inicial de turistas vindos de outras regiões acendeu um alerta de que o turismo local ainda não era visto nacionalmente. Esse cenário também foi evidenciado em uma pesquisa conduzida pela agência de pesquisas Nexus em parceria com o Governo Federal em 2024, que revelou que as pretensões de viagem à região Norte se restringiam a Belém (PA) e Manaus (AM). Esses dois polos turísticos já fixados no imaginário popular, fazem com que os demais estados da região sejam secundários. Foi nesse contexto que a Extremo Norte nasceu.

 

Turistas realizam travessia fluvial de seis quilômetros no rio Mamoré, entre portos de Brasil e Bolívia - Crédito/foto: Maytso Tebalde

 

O baixo destaque nacional também é reflexo de um investimento tardio em divulgação, se comparado a destinos já consolidados nacional e até internacionalmente há décadas. Esse atraso acabou impactando os empresários do ramo. Apesar disso, Rondônia está se organizando internamente para desenvolver o turismo receptivo. Um dos resultados mais recentes dessa ação foi o estado assumir a liderança das Rotas Integradas Amazônicas, grupo que reúne a região Norte para promover o turismo nacionalmente.

 

 O movimento interno é melhor detalhado pelo superintendente estadual de turismo, Gilvan Pereira: "Fizemos o plano da pesca esportiva, o plano do etnoturismo estadual com 17 comunidades. Trabalhamos o plano de sinalização turística, colocando placas e infraestrutura".

 

Turistas exploram comércio local de Guayaramerín em busca de produtos mais baratos, durante passeio à Bolívia - Créditos/foto: Maytso Tebalde

 

Apesar disso, Jefferson destaca a falta dessas aplicações na rotina de quem trabalha viajando. Durante as excursões, encontra estradas esburacadas que geram prejuízos com sua van; além dos altos custos com pedágio, chegando a R$ 500,00 por viagem, quando precisa atravessar todo o estado. Essas limitações acabam dificultando o turista chegar aos rios de pesca, nas comunidades indígenas e áreas mais afastadas no interior.

 

Depois de perceber essa realidade na prática, ele analisou que estava focando em um público errado. Precisava se reinventar, então o foco passou a ser o rondoniense.

 

Turismo também é feito de conexão

 

 O trabalho que o Jefferson desenvolve atualmente não é só logístico, mas complementar às iniciativas de fortalecimento do turismo regional. Sua empresa é uma ponte que interliga o visitante ao destino final. Desde o embarque na madrugada, organização de roteiros e lista de passageiros, seu empreendimento ajuda a moldar um novo cenário.

 

Turista brasileira escuta explicação de artesã boliviana sobre flauta de bambu (Quena), que produz mais de 20 notas musicais - Créditos/foto: Maytso Tebalde

 

Cada excursão é uma engrenagem que movimenta o barqueiro que ajuda a atravessar os clientes no imenso rio Madeira; o restaurante que complementa a experiência com a culinária local; pousadas que recebem esses turistas depois de longas horas de estrada, e até os vendedores ambulantes que vendem sua arte na feira.

 

Além das excursões presenciais, a agência assumiu a organização do Circuito Energia, voltado às visitações guiadas dentro da hidroelétrica de Santo Antônio, visando a integração da usina com a população.

 

Grupo de turistas tira fotos na Serra dos Parecis, em mirante com 310 metros de altitude, na cidade de Guajará-Mirim - Créditos/foto: Maytso Tebalde

 

 É assim que a Extremo Norte faz a economia girar nos municípios de Rondônia, se tornando participante dos 27% do Produto Interno Bruto, ou seja, a soma econômica que o país produz com os pequenos negócios.

 

 Jefferson também encontrou nas redes sociais um ambiente favorável para seu negócio. O perfil da empresa já conquistou mais de cinquenta mil seguidores. O digital tornou-se a principal porta de entrada de clientes e divulgação turística. Alguns vídeos no perfil já ultrapassam a marca de oitocentas mil visualizações.

 

Esse engajamento permitiu a criação de uma vitrine virtual que gera uma comunidade que quer fazer parte dos destinos publicados. O conteúdo apresenta lugares pouco conhecidos, como cachoeiras, cânions, parques e trilhas. Com registros da natureza quase em tempo real, provocando nos rondonienses o desejo de conhecer o “inexplorado”.

 

Essa mudança no comportamento das pessoas, tanto no digital quanto no  presencial, também aparece nos números. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) revelam que, em 2023, Rondônia registrou mais de 103 mil viagens intermunicipais, sendo quase 18% por lazer. Parte desse público precisa do suporte especializado de agências locais para explorar esses destinos.

 

O turista ideal

 

 Uma dessas viagens foi feita por Amanda Borzacov, cliente da Extremo Norte, que busca conhecer mais do estado em que vive. “Outro fator é a vontade de conhecer sim os lugares, mas conhecer o que poucos conhecem”. Para Amanda, essa é uma característica que o turismo regional possui. “Em Rondônia vou conhecer o Vale das Cachoeiras. Depois disso, espero que tenham descoberto outro local pouco explorado”, diz.

 

O turismo de fim de semana, mais rápido e prático, atrai muitos olhares. Os custos são mais baixos, dias mais flexíveis e disponibilidade maior, unindo o que o rondoniense moderno mais procura: praticidade.

 

Grupo de turistas observa encontro de floresta e cerrado, com mais de 200 espécies de árvores, na Serra dos Parecis, em Guajará-Mirim - Créditos/foto: Maytso Tebalde

 

Mas indo além do aumento na procura por turismo regional em áreas pouco conhecidas, também existem outros fatores externos que influenciam diretamente esse crescimento. Jefferson destaca um ponto importante: “Acredito que os preços de passagens mais caras para sair do estado têm feito o rondoniense procurar conhecer melhor seu estado”. Ao mesmo tempo que isso favorece o turismo interno, pode dificultar a entrada de pessoas de outras regiões e países, destaca o guia turístico.

 

Estamos chegando, turma!

 

Mesmo diante das limitações turísticas que Rondônia ainda enfrenta, Jefferson segue se reinventando. A Extremo Norte recebeu em 2024, o prêmio de destaque em promoção de turismo da Secretaria Estadual de Turismo (Setur), por contribuir com a construção de um novo olhar sobre o potencial da região.

 

À medida que a procura pelas belezas naturais aumenta progressivamente no estado, os pequenos empreendimentos se reafirmam como a base sólida dessa tendência. Uma evolução que não ficou restrita aos empreendimentos internos, pois Rondônia conquistou o prêmio Mérito e Talento em gestão pública, entregue pela Associação Brasileira de Turismólogos (ABBTUR) em 2025, mostrando que está no caminho competitivo para se colocar também como referência no imaginário popular.

 

O que começou fora da rota, agora se pode dizer que encontrou um caminho para trilhar. Jefferson reflete sobre isso: “Eu digo que uma criança, ela nasce, ela engatinha, ela anda e ela corre. Eu acredito que a fase que a gente está hoje, a gente está engatinhando”. A cada novo passo, Rondônia está mais perto de correr na cena turística nacional. Empreendedores como Jefferson, que seguem apresentando destinos até então invisíveis, tendem a crescer junto e se tornar referência naquilo que um dia já foi ignorado.

 

 

*Maytso Tebalde é acadêmico de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e produziu o conteúdo sob orientação do professor Marcus Fernando Fiori, da disciplina de Jornalismo Impresso.

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