O crescimento das plataformas de apostas esportivas, as chamadas bets, já provoca impactos econômicos e sociais em Rondônia. O dinheiro que antes circulava no comércio local começa a migrar para os jogos digitais, aumentando o risco de endividamento e preocupação com a saúde mental dos apostadores.
Diversas pessoas estão tomando dinheiro emprestado com agiotas para manter o vício em apostas. Um dos casos de repercussão nacional no momento, a enfermeira Raquel Maria publicou um vídeo nas redes sociais, na quarta-feira (24), para alertar sobre os riscos das apostas on-line. Viúva do tenente da Polícia Militar de Goiás Danilo Lopes Negrão, ela afirmou que o marido começou a apostar durante a Copa do Mundo de 2022, desenvolveu um vício e acumulou uma dívida de quase R$ 1 milhão.
Impacto econômico: menos consumo e perda de arrecadação
Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado pela Fecomércio Rondônia, aponta que o estado pode perder cerca de R$ 183,1 milhões em faturamento no varejo devido ao desvio de renda para plataformas de apostas. Dinheiro que deveria circular no comércio gerando emprego e renda na região e que é levado para setor de aposta que em nada contribui para o ciclo da economia.
Recursos que poderiam movimentar supermercados, lojas, serviços e transporte passam a ser direcionados para jogos online. O impacto também chega aos cofres públicos: a estimativa é de perda de aproximadamente R$ 10 milhões em ICMS e outros tributos devido à redução da circulação econômica.
O problema atinge principalmente famílias de menor renda. Beneficiários de programas sociais, como Bolsa Família e BPC, estão entre os grupos mais vulneráveis ao ciclo de apostas, dívidas e tentativa de recuperar prejuízos.
Em alguns casos, a situação ultrapassa o comprometimento do orçamento familiar. Há relatos de pessoas que recorrem a empréstimos com agiotas para conseguir continuar apostando, aumentando ainda mais o risco financeiro e social.
Saúde mental: vício provoca crises e afastamentos
O impacto das apostas também começa a aparecer na saúde mental. Embora Rondônia ainda não tenha um levantamento estadual específico, o estado acompanha uma tendência nacional de crescimento de problemas relacionados ao comportamento compulsivo.
Especialistas alertam que o apostador pode entrar em um ciclo de perda de controle: começa com valores pequenos, passa a tentar recuperar o dinheiro perdido e acaba comprometendo salários, bens e relações familiares.
O endividamento causado pelas apostas pode desencadear ansiedade, depressão, crises de pânico e dificuldades no ambiente de trabalho. Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) também passam a lidar com casos relacionados a pessoas que perderam o controle financeiro e emocional.
Esporte e publicidade: atletas questionam influência das bets
A expansão das apostas também mudou a relação com o esporte. Clubes, campeonatos e transmissões passaram a exibir marcas de plataformas de apostas, transformando estádios e uniformes em grandes vitrines comerciais.
Mas atletas e dirigentes esportivos demonstram preocupação com os efeitos desse modelo. Alguns jogadores passaram a recusar patrocínios de empresas de apostas por entenderem que a exposição constante pode estimular o comportamento compulsivo entre torcedores, principalmente jovens.
No futebol, existe ainda o receio de que o crescimento descontrolado das apostas comprometa a credibilidade das competições e aumente riscos relacionados a manipulações de resultados.
MPF é principal órgão de fiscalização em Rondônia
Enquanto os impactos econômicos e sociais avançam, a principal atuação institucional em Rondônia tem partido do Ministério Público Federal (MPF).
O órgão instaurou inquérito civil para investigar possíveis práticas abusivas de sites de apostas esportivas. A apuração busca analisar denúncias sobre restrições de valores máximos de apostas e encerramento unilateral de contas de usuários que registraram ganhos frequentes.
Segundo o MPF, a investigação também considera a proteção dos consumidores e os impactos coletivos da atividade. A regulamentação das apostas de quota fixa envolve a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
Como o vício funciona
Especialistas explicam que plataformas de jogos, especialmente os chamados slots virtuais, utilizam sistemas de recompensa variável, que estimulam o cérebro com ganhos imprevisíveis.
A primeira vitória pode criar a sensação de que o jogador possui controle sobre o resultado. Com as perdas, muitos entram no chamado ciclo de “perseguição do prejuízo”, aumentando apostas para tentar recuperar o dinheiro perdido.
O avanço das bets coloca Rondônia diante de um desafio que envolve economia, saúde pública e proteção ao consumidor: impedir que uma atividade apresentada como entretenimento se transforme em uma fonte de endividamento e vulnerabilidade social.