Goiás lidera o ranking nacional de estados com maior número de laboratórios de processamento de cocaína identificados no Brasil, segundo levantamento que mapeou 550 estruturas clandestinas encontradas desde 2019. Os dados revelam uma mudança na dinâmica do narcotráfico: o país deixou de atuar apenas como corredor de passagem da droga produzida nos países andinos e passou a ocupar posição estratégica no refino e preparação do entorpecente para distribuição interna e exportação.
O estudo “Floresta em Pó”, realizado por organizações que analisam a política de drogas, com participação do Instituto Fogo Cruzado, aponta que Goiás concentra o maior número de unidades identificadas, com 81 laboratórios registrados, seguido pelo Amazonas, com 39. Os locais mapeados incluem estruturas de refino, onde a pasta-base de cocaína é transformada em pó, além de espaços usados para adulteração e aumento do volume da droga antes da venda.
A expansão dessas estruturas indica que facções criminosas passaram a controlar uma etapa mais lucrativa da cadeia do tráfico dentro do território brasileiro. Antes, grande parte da cocaína que atravessava o país vinha pronta dos produtores sul-americanos, principalmente Colômbia, Peru e Bolívia, com destino a grandes mercados consumidores, incluindo a Europa.
Goiás se torna ponto estratégico do refino
A posição de Goiás está relacionada à localização geográfica do estado e à proximidade com corredores utilizados para entrada da pasta-base de cocaína, principalmente pelas fronteiras de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
A região funciona como ponto estratégico para armazenamento, processamento e redistribuição da droga, conectando áreas produtoras, rotas terrestres e grandes centros consumidores.
Operações policiais já identificaram estruturas de refino no estado. Em 2023, uma ação conjunta da Polícia Federal e forças estaduais desmontou um laboratório de cocaína em Goiânia, com apreensão de drogas, insumos e materiais utilizados no processamento.
Rondônia aparece como rota de entrada, mas com baixo número de refinarias
Apesar de não figurar entre os estados com maior concentração de laboratórios, Rondônia tem papel estratégico nas rotas do narcotráfico por sua localização na Amazônia e pela fronteira com a Bolívia.
O estado aparece entre os pontos identificados por organismos internacionais como corredor de entrada de drogas produzidas em países vizinhos. A cocaína que chega da Bolívia pode ingressar no território brasileiro por áreas de fronteira envolvendo Rondônia, Acre e Mato Grosso, seguindo depois para outras regiões.
Diferentemente de Goiás, onde o estudo aponta maior concentração de estruturas de processamento, Rondônia tem sido caracterizada principalmente como área de passagem e circulação da droga.
Brasil vira centro de processamento da cocaína
O levantamento aponta que a transformação do Brasil em polo de refino está ligada ao fortalecimento das facções criminosas e à busca por maior lucro e controle da cadeia ilegal.
Ao trazer a pasta-base e realizar o processamento em território nacional, grupos criminosos reduzem custos, aumentam a margem de lucro e conseguem distribuir a droga para diferentes mercados.
Segundo o estudo “Floresta em Pó”, o mercado de cocaína movimentou cerca de US$ 65,7 bilhões no Brasil em 2024. A estimativa é que o refino realizado dentro do país possa representar dezenas de bilhões de reais em ganhos adicionais para organizações criminosas.
Fronteiras amazônicas continuam vulneráveis
O avanço das estruturas internas de refino não diminui a importância das fronteiras brasileiras. O país possui milhares de quilômetros de áreas de difícil fiscalização, especialmente na Amazônia, utilizadas por redes criminosas.
Mapeamentos internacionais indicam que estados como Amazonas, Acre, Rondônia, Pará, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul fazem parte das principais rotas de entrada de drogas vindas de países produtores.
Na Amazônia, rios e pistas clandestinas são utilizados para movimentação de cargas, principalmente de cocaína e outros entorpecentes produzidos na Colômbia, Peru e Bolívia.
Novo desafio para segurança pública
A expansão dos laboratórios muda o foco do combate ao tráfico. As autoridades passam a enfrentar não apenas grandes apreensões em fronteiras, mas uma rede descentralizada de depósitos, laboratórios, transportadores e organizações responsáveis por diferentes etapas do processo.
O cenário revela uma transformação do narcotráfico brasileiro: o país passou de corredor internacional da cocaína para uma das bases de processamento da droga, aumentando a complexidade do enfrentamento ao crime organizado.