Uma tecnologia capaz de atravessar virtualmente a copa das árvores está permitindo aos pesquisadores enxergar uma Amazônia que permaneceu escondida por séculos. Um levantamento realizado com LiDAR — sistema de sensoriamento remoto baseado em pulsos de laser — identificou 396 novos geoglifos no sudoeste da Amazônia, ampliando significativamente o conhecimento sobre as sociedades que ocuparam a região antes da chegada dos europeus. O estudo foi publicado na revista científica Nature em 29 de julho de 2026.
Os pesquisadores brasileiros e finlandeses mapearam cerca de 4.500 quilômetros quadrados de floresta na região do Acre e áreas próximas à fronteira com a Bolívia. O laser emitido a partir de aeronaves consegue registrar o relevo do solo mesmo quando a vegetação impede a observação direta, produzindo modelos tridimensionais capazes de revelar valas, aterros, caminhos e outras alterações antigas da paisagem.
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Uma Amazônia muito diferente da imagem tradicional
Os geoglifos são grandes estruturas de terra construídas em formatos geométricos, como círculos, quadrados, elipses e octógonos. Algumas possuem dimensões monumentais e são formadas por valas profundas acompanhadas de aterros.
A descoberta reforça uma mudança importante na arqueologia amazônica: a floresta não pode mais ser tratada simplesmente como um ambiente intocado onde pequenas populações viveram de maneira dispersa. A existência de milhares de estruturas monumentais indica ocupação organizada, capacidade de mobilização de mão de obra e transformação deliberada da paisagem.
A chamada sociedade Aquiry, termo adotado pelos pesquisadores para esse conjunto cultural do sudoeste amazônico, teria construído os geoglifos entre aproximadamente 600 a.C. e 850 d.C. Estudos indicam que essas estruturas poderiam funcionar como espaços de reunião, cerimônias, decisões políticas e atividades comunitárias.
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O que o laser está revelando
A importância do LiDAR não está apenas em encontrar estruturas. A tecnologia permite aos arqueólogos enxergar a organização espacial de uma paisagem antiga.
Ao identificar a posição dos geoglifos, suas dimensões, formatos e possíveis conexões por caminhos antigos, os pesquisadores conseguem formular hipóteses sobre como as comunidades se deslocavam, onde se reuniam e como modificavam o território.
O levantamento mais recente encontrou 432 estruturas na área estudada, das quais 396 eram anteriormente desconhecidas. Os pesquisadores, porém, acreditam que esse número seja apenas uma pequena amostra do patrimônio arqueológico ainda escondido pela floresta. Estimativas apontam para a possibilidade de existirem mais de 20 mil estruturas na região que ainda não foram identificadas.
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Uma civilização sem escrita deixou a paisagem como documento
Para os pesquisadores, os geoglifos são especialmente importantes porque as sociedades responsáveis por essas construções não deixaram registros escritos conhecidos. A própria paisagem modificada funciona, portanto, como uma espécie de arquivo arqueológico.
Escavações, análises de solo, datações e o mapeamento aéreo permitem reconstruir parcialmente aspectos da vida dessas populações. Há evidências de ocupação por comunidades que viviam em grandes habitações coletivas e cultivavam plantas como milho e abóbora.
O desaparecimento dessas sociedades, contudo, continua sem explicação definitiva. Os pesquisadores apontam que os geoglifos foram abandonados aproximadamente entre 850 e 950 d.C., período que também coincide com transformações e declínios de outras sociedades pré-colombianas importantes das Américas.
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Tecnologia muda o que sabemos sobre a Amazônia
O avanço do LiDAR representa uma mudança de método. Durante décadas, muitas estruturas arqueológicas amazônicas só foram encontradas em áreas desmatadas ou onde o relevo estava exposto. Agora, grandes extensões de floresta podem ser investigadas sem a necessidade de derrubar árvores.
Isso abre uma possibilidade científica maior: mapear a Amazônia preservada para descobrir cidades, caminhos, áreas agrícolas e estruturas que continuam invisíveis ao olhar humano e às imagens convencionais de satélite.
Os geoglifos do Acre, inclusive, já integram a lista indicativa brasileira para eventual reconhecimento como Patrimônio Mundial pela UNESCO.
A tecnologia, nesse caso, não está apenas encontrando vestígios antigos. Ela está obrigando a arqueologia a rever uma ideia fundamental sobre a história da Amazônia: a floresta que hoje parece intocada pode esconder os sinais de sociedades que, há milhares de anos, construíram, organizaram e transformaram profundamente esse território.