A política de Porto Velho parece ter perdido espaço para um espetáculo permanente de confrontos, escândalos e ataques pessoais em meio à aproximação das eleições gerais de 2026. Enquanto o país se prepara para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, o debate público na capital rondoniense vem sendo reduzido ao barulho provocado pelo vereador Marcos Figueiredo, que usa o pseudônimo de Combate.
O parlamentar, cuja trajetória é marcada por uma extensa lista de processos judiciais, ocorrências policiais e acusações públicas envolvendo agressões, conflitos pessoais, dívidas, assédios e disputas contratuais, transformou a política local em um ambiente de tensão contínua. Em vez de consolidar uma atuação parlamentar baseada em propostas consistentes ou articulação política sólida, optou por uma estratégia centrada na verbalização agressiva, no enfrentamento permanente e na exploração pública de bastidores políticos.
Sem compromisso evidente com a moderação ou com o rigor dos fatos, Marcos Figueiredo passou a utilizar denúncias, insinuações e ataques pessoais como ferramenta de crescimento político. O método produz visibilidade imediata, mas também amplia a deterioração do debate público e alimenta uma cultura política baseada no medo, na intimidação e na radicalização.
Precedente na Câmara de Vereadores
Porto Velho já testemunhou fenômenos semelhantes. Na década de 1980, a então vereadora Raquel Cândido construiu notoriedade política por meio de ataques sucessivos a adversários e aliados. Após sucessivas trocas partidárias e desgaste institucional, alcançou a Câmara Federal, mas acabou cassada em 1994 sob acusação de envolvimento na chamada Máfia do Orçamento. O que os pares da Câmara de Vereadores de Porto Velho não tiveram coragem de fazer, foi feito pelos deputados federais em Brasília. Sua ascensão foi acompanhada pela destruição política de aliados que, acuados pela agressividade verbal e pelo temor de exposição pública, preferiram o silêncio e a omissão.
O Rondoniaovivo, alvo frequente de ataques do vereador após reportagens envolvendo sua trajetória pública, ouviu especialistas para compreender os aspectos socioemocionais e sociopolíticos que ajudam a explicar esse modelo de atuação. As análises foram colhidas com liberdade acadêmica e preservadas em sua essência técnica.
Perfil sociopolítico hostil
Um cientista político ouvido pelo jornal destacou que a oposição exerce papel indispensável em qualquer democracia séria. Segundo ele, não existe regime democrático saudável sem fiscalização do poder e acesso à informação de qualidade. Nesse contexto, a atuação oposicionista de Marcos Figueiredo ao prefeito Léo Moraes possui legitimidade institucional e, em determinadas situações, pode até contribuir para evitar erros do Executivo.
O problema, segundo o especialista, surge quando a oposição abandona o campo da fiscalização e passa a operar pela lógica da perseguição pessoal, da desinformação e da destruição moral. “Sob o argumento de fiscalizar, o vereador frequentemente ultrapassa limites éticos, promove ataques à honra de adversários e alimenta um ambiente de hostilidade que corrói a confiança pública nas instituições”, avaliou. Para ele, esse tipo de conduta fortalece a radicalização política e aprofunda um ambiente de violência verbal incompatível com os princípios democráticos.
Conduta religiosa divergente com o cristianismo
Outro aspecto observado pelos especialistas envolve o uso recorrente da identidade religiosa como instrumento político. Assim como parte significativa da classe política brasileira, Marcos Figueiredo recorre frequentemente ao discurso cristão como elemento de proteção moral e aproximação eleitoral.
Um teólogo consultado pelo jornal afirmou que a fé cristã não se sustenta em marketing religioso nem em performances públicas de religiosidade, mas em transformação de vida, coerência moral e compromisso com valores como integridade, domínio próprio, fidelidade, amor ao próximo e verdade. Segundo ele, práticas como chantagem, deslealdade, agressividade constante e ataques pessoais entram em choque com os princípios centrais do cristianismo bíblico. “O cristianismo exige mudança concreta de comportamento. Frequentar igreja ou professar fé publicamente não garante conversão genuína”, concluiu.
Conflitos judicias evidentes
Advogado da área criminal consultado pelo Rondoniaovivo avalia que o padrão recorrente de exposições públicas, ataques pessoais e conflitos judiciais envolvendo manifestações em redes sociais pode, em tese, ultrapassar os limites da crítica política e da liberdade de expressão.
Segundo o profissional ouvido, quando a atuação pública passa a envolver acusações reiteradas, constrangimentos direcionados, perseguições virtuais e exposição constante de pessoas específicas sem conclusão judicial definitiva, podem surgir reflexos também na esfera criminal.
Na avaliação técnica, parte das condutas descritas em ações judiciais e boletins de ocorrência já existentes poderia, em tese, ser analisada sob a ótica de crimes contra a honra, perseguição reiterada (‘stalking’) e violência psicológica, dependendo da apuração individual de cada caso concreto.
O jurista ressaltou ainda que a imunidade parlamentar e o direito de fiscalização não afastam a necessidade de responsabilidade no uso da comunicação pública, especialmente quando a exposição contínua de terceiros passa a gerar alegações de intimidação, abalo reputacional e constrangimento social.
Para o especialista, caberá ao Poder Judiciário definir, diante do volume crescente de processos e denúncias, até que ponto determinadas manifestações permanecem protegidas pela atividade política legítima e em que momento podem eventualmente configurar abuso ou excesso.
O perfil sociopsicológico e emocional agressivo
A reportagem também ouviu um psicólogo que analisou todas as redes sociais do vereador Marcos Figueiredo. Conforme considerou, o comportamento público do vereador evidencia características compatíveis com um perfil sociopsicológico marcado por impulsividade, dificuldade de autocontrole emocional e baixa tolerância à frustração. Em situações de pressão ou contestação, prevalece a adoção de discursos agressivos, ataques pessoais e postura de confronto contínuo, utilizando a hostilidade como mecanismo de defesa e projeção de responsabilidades. O padrão recorrente também sugere limitação no exercício da empatia e do equilíbrio institucional. Em contextos políticos, pessoas com esse perfil tendem a ampliar conflitos, estimular ambientes de tensão e agir de forma imprevisível diante de contrariedades.

Diante de todas as análises técnicas consultadas, resta saber até onde a política de confronto permanente continuará produzindo dividendos eleitorais em Porto Velho. A história demonstra que figuras públicas construídas exclusivamente sobre escândalo, intimidação e radicalização costumam crescer rapidamente, mas também aceleram o desgaste das instituições, empobrecem o debate democrático e deixam um rastro de destruição política ao redor. A oposição é necessária; o espetáculo da agressão permanente, não. Quando a política abandona propostas, responsabilidade e compromisso com a verdade para se transformar em instrumento de medo, exposição e ataque pessoal, o prejuízo deixa de ser apenas individual e passa a atingir toda a sociedade.