O cruzamento de indicadores criminais de Rondônia com o estudo nacional "Futebol e Violência Contra a Mulher" aponta que o calendário de competições esportivas funciona como um fator de risco temporário para a integridade física das mulheres no estado. A aplicação dos parâmetros estatísticos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) sobre a realidade policial rondoniense projeta um acréscimo médio de 28,8% nas ocorrências de lesão corporal de gênero durante os dias de rodadas do futebol profissional.
De acordo com os dados oficiais do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o estado de Rondônia registrou 4.094 ocorrências de lesão corporal dolosa decorrentes de violência doméstica contra mulheres no ano de 2025.
Esse volume representa um aumento de 6,6% em relação aos 3.826 casos contabilizados em 2024 e equivale a uma média de 11,2 agressões físicas notificadas por dia no estado. A taxa estadual de lesões corporais dolosas é de 46,97 registros para cada grupo de 100 mil mulheres, patamar significativamente superior à média de referência do Brasil, que é de 261,7.
Impacto estimado do calendário esportivo
Ao projetar o multiplicador de risco nacional de 28,8% de aumento de agressões em dias de jogos sobre a média histórica diária de Rondônia, a estimativa aponta que o número de agressões físicas tende a subir de 11,2 para 14,4 casos nas datas de partidas.
A variação estatística indica a ocorrência de pelo menos três lesões adicionais por dia de jogo no estado. Nacionalmente, o estudo do FBSP revela que o domicílio é o local de maior vulnerabilidade, concentrando 62,8% das agressões físicas e 47,3% das ameaças registradas.
O risco temporário é ampliado quando analisado sob o recorte de idade. Entre a população de jovens do sexo feminino (15 a 29 anos), o estudo nacional mapeou um crescimento ainda mais expressivo nas ocorrências de ameaças e lesões corporais dolosas, que registram alta de 44,4% em dias de futebol.
Em Rondônia, a violência no ambiente doméstico contra crianças e adolescentes do sexo feminino (0 a 17 anos) também apresenta taxas elevadas, servindo como sinalizador de vulnerabilidade intrafamiliar.
Indicadores de segurança em Rondônia
A elevação temporária gerada por fatores externos como o calendário esportivo insere-se em um contexto em que as taxas de crimes graves de gênero em Rondônia já superam a maioria dos estados do país.
Os homicídios qualificados de mulheres por razões de gênero cresceram 66% em Rondônia, passando de 15 casos em 2024 para 25 mortes em 2025.
A taxa estadual de 2,9 feminicídios por 100 mil mulheres é a segunda maior do Brasil, ficando atrás apenas do Acre (3,2). Além disso, 54,3% de todas as mortes violentas de mulheres em Rondônia foram tipificadas como feminicídios em 2025.
O estado registrou 1.443 vítimas de estupro e estupro de vulnerável do sexo feminino em 2025. A taxa de 165,6 ocorrências por 100 mil mulheres é a terceira maior do país.
Os registros policiais de desobediência a Medidas Protetivas de Urgência (MPU) cresceram 38,2% em Rondônia, saltando de 1.373 ocorrências em 2024 para 1.904 casos em 2025. A taxa rondoniense atingiu 108,7 descumprimentos por 100 mil habitantes.
Apostas eletrônicas e inconsistências de registro
O relatório de 2026 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta de forma inédita para a influência do mercado de apostas eletrônicas (bets) no agravamento da violência familiar. O endividamento rápido de parceiros devido a perdas em plataformas digitais de apostas, associado à frustração de resultados desportivos imediatos, atua como um fator de estresse financeiro que potencializa episódios agressivos contra as mulheres no ambiente doméstico.
Paralelamente, a prevenção enfrenta entraves na qualidade dos registros policiais locais. A tabela do Anuário referente à Violência Psicológica contra mulheres aponta zero ocorrências registradas em Rondônia em 2025.
De acordo com a nota explicativa do fórum, essa ausência absoluta decorre de inconsistências técnicas geradas no processo de transição para um novo sistema operacional da polícia rondoniense, que impediu o cômputo dessa infração penal específica.
A subnotificação da violência psicológica mascara comportamentos de controle e ameaças que habitualmente antecedem a agressão física, dificultando a intervenção preventiva do Estado antes que os casos escalem para violência física ou feminicídios.