Marcos Grutzmacher, 37, entende a voz como um músculo. Ele é professor do
Instituto Federal de Rondônia (IFRO), doutor em linguística, técnico em canto erudito e coralista em Porto Velho (RO). Ele teve paresia vocal (enfraquecimento das cordas vocais) quando era criança. O episódio exigiu que ele aprendesse técnicas de reabilitação e motivou formação acadêmica em Fonoaudiologia.
Marcos visitou a redação do
Rondoniaovivo nesta segunda-feira (21) para contar que organiza a 4ª edição do
‘Encontro da Voz’ no Teatro Estadual Palácio das Artes. O evento ocorre amanhã (23), às 19h. O espetáculo reúne 11 grupos corais e cerca de 120 estudantes da rede pública estadual. Na plataforma Sympla, já esgotaram os ingressos gratuitos. A organização abrirá as portas do teatro às 18h30 e liberará os lugares vagos após as 19h para o público que quiser assistir as apresentações.
FOTO: "O objetivo principal é de que isso aconteça de forma aberta e gratuita para todo mundo e que as pessoas se envolvam mais com coral e queiram cantar", diz o professor e regente de coral Marcos Grutzmacher — Solano Ferreira/Rondoniaovivo
O projeto obteve financiamento público por meio do Edital de Chamamento Público nº 008/2025 da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). Questionado sobre o estado da cultura em Rondônia, o professor critica a gestão pública e defende o respeito à bagagem da população:
"Poderia estar muito melhor. A gente tem visto ao longo dos anos uma certa dificuldade do poder público em colocar para a frente as políticas públicas que existem. Teve verba que retornou por falta de uso". Ele ressalta que as pessoas já tem cultura própria - a idéia de ‘levar cultura’ é falaciosa; o coral é apenas uma opção de repertório cutural.
Além dos gargalos nos editais, Marcos aponta a ausência de corpos artísticos estáveis mantidos pelo poder público estadual. Atrás de estados como Alagoas e Pará, Rondônia não mantém em seus teatros públicos um corpo de baile ou um coral contratado. Apesar disso, o professor ressalta que
a criação cultural segue ativa na região por obstinação dos próprios artistas e criativos.
"Os artistas têm feito, apesar de, como sempre fazem. Eles não precisam de motivo para fazer, mas sempre fizeram, fazem e farão, porque a vida do artista é fazer arte". Para Marcos, a implantação de estruturas permanentes nos teatros públicos não serve para gerar a arte local, que já existe de forma autônoma, mas para oferecer o suporte técnico e a infraestrutura contínua que os profissionais necessitam.
Nesta edição, o
‘Encontro da Voz’ visitou seis escolas estaduais nas zonas Leste e Sul da capital, incluindo as escolas Jorge Teixeira e Marcos Freire. O grupo vocal ‘
Canóro’, do qual Marcos faz parte, realizou oficinas de técnica vocal e apresentações didáticas nas escolas. As aulas preparam os estudantes para a apresentação no Palácio das Artes. A ação integra os jovens ao circuito cultural da capital por meio da prática coletiva.
Esse acompanhamento reflete a forma como Marcos enxerga a própria carreira: ele se considera mais um professor que canta do que um cantor que ensina. Para ele, a maior satisfação da atividade pedagógica está em acompanhar o progresso dos alunos, desde o primeiro contato sem afinação ou prática até a conquista da segurança vocal diante do público.
Os grupos interpretam um repertório variado com canções eruditas, pop e
composições regionais rondonienses. Marcos defende o canto coral como um instrumento de conexão emocional e convivência comunitária. Para ele, a essência do trabalho vocal vai além da precisão técnica:
"Não é só acertar a letra e a melodia. É se conectar com o público e falar 'eu amo você' de um jeito que faça a pessoa se arrepiar. É uma visão sobre conexão. Cantar não é [só]
sobre voz, é sobre conexão", finalizou.