O DRAMA: A distopia de um relacionamento da paixão ao caos - Por Marcos Souza

O filme está disponível no catálogo do serviço de streaming do Prime Video e garanto: é um grande filme. Vale a pena

O DRAMA: A distopia de um relacionamento da paixão ao caos - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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O filme “O Drama” (The Drama/2026), escrito e dirigido pelo talentoso cineasta norueguês Kristoffer Borgli, foi uma grata surpresa para mim este ano. Estrelado pela atriz do momento, Zendaya, e Robert Pattinson (que está excepcionalmente muito bem aqui), é uma mistura de gêneros sui generis dentro da proposta da sua história: começa como uma comédia romântica e, depois, lá quase pela metade, tem uma reviravolta numa espécie de “jogo da verdade”, que é sobre algo que você fez no passado, tão terrível que se arrependeu, e envereda por um drama (de fato) que provoca suspense e risos — desse jeito mesmo, pelo menos comigo foi assim.
 
Com produção do ótimo Ari Aster (diretor responsável por dois clássicos absolutos do terror moderno: “Hereditário”/2018 e “Midsommar”/2019), junto com Lars Knudsen e Tyler Campellone, para a pro-dutora independente A24, “O Drama” faz uma abordagem sobre relacionamento, neura, erros e con-sequências a partir de um casal durante os preparativos para o casamento, em que um deles simples-mente entra em parafuso emocional após um segredo vir à tona.
 
O modo como o diretor Kristoffer trabalha esse conceito dentro da trama que ele esmiúça no filme é uma referência — inicial — principalmente na troca de diálogos ágeis do casal, que nos remetem aos filmes do diretor Woody Allen — como no clássico “Annie Hall” (que no Brasil recebeu o ridículo título de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”/1977). Impossível não ver como Zendaya e Pattinson mantêm uma interação orgânica e bem natural de duas pessoas que se conhecem intimamente, com-preendem os defeitos de cada um, sabem lidar com as diferenças, mas estão, em algum momento, dis-cutindo ou achando soluções práticas para a convivência do dia a dia, e é um trabalho muito bem feito e tratado com cuidado pelo roteiro.
 
 
Emma Harwood (Zendaya) e Charlie Thompson (Robert Pattinson) se conhecem numa cafeteria, se interessam um pelo outro e logo começam a namorar. Um tempo depois, passam a morar juntos e cri-am uma rotina de autoconhecimento em que prevalece o respeito mútuo e simboliza uma paixão co-metida que cria pequenos conflitos. Até que resolvem marcar a data do casamento e fazer os prepara-tivos.
 
Um casal de amigos pessoais, Rachel (vivida pela sempre ótima atriz Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie), se encontra com Emma e Charlie num jantar íntimo, onde bebem e falam sobre os preparativos do casamento, pois Rachel foi convidada para ser a madrinha, até que, num determinado momento, eles brincam de contar algum segredo do passado que tenha sido radical e de que se arrependeram. Cada um revela o seu segredo absoluto.
 
Até chegar em Emma, que conta algo do seu passado na escola que simplesmente silencia a mesa, deixando Charlie sem palavras e Rachel com uma certa indignação, sendo que ela mesma cometeu algo tão grave — não vou dar spoiler, assistam.
 
A partir dessa noite, a vida desses quatro se transforma com a revelação de Emma, principalmente a de Charlie e a de Emma, que entra num surto de rememorar o tempo em que passou esse drama (justo do título do filme), quando era criança, e as transformações que foram provocadas com algumas decisões suas que poderiam resultar em uma ação inesperada.
 
Dessa revelação, Charlie é o que mais fica afetado, pois ele vai casar com ela e entra num processo de resignação sobre o seu futuro e ainda de compreender, ou tentar, o que esse segredo pode ainda causar depois de oficializar sua relação em definitivo com Emma.
 
Aí entra a chave de giro e que remete ao brilhantismo do diretor em construir situações inesperadas de Charlie e a sua recente paranoia com o comportamento passado da futura esposa. Mesmo que ele tente compreender, o processo de aceitação lhe provoca confusão justamente por amar Emma.
 
Quando, junto com ela, é obrigado a acompanhar todo o processo pré-festa de casamento, ele e Emma percebem que se amam e vão se casar, mas a motivação do enlace tem um ingrediente falho. Acompa-nhamos, em flashback, parte da adolescência dela para compreender os ditos atos do seu segredo e a sua transformação diante das consequências que poderiam resultar.
 
 
E também vamos ver, chocados, o trauma momentâneo de Charlie, que o leva a entrar numa espiral emocional próxima ao desespero. Como isso é mostrado nos leva a rir de algumas situações inespera-das.
 
O grande clímax é a festa do casamento no salão, com os familiares e amigos do casal. Quando Mike começa a puxar os brindes, vamos acompanhar um início e todo o processo do caos. Esse processo e a engenharia de encontros e desencontros no ambiente do que deveria ser um momento sagrado e feliz se transforma numa explosão de dramas que vão se desconstruindo com uma solidez absurda. Tem que assistir para compreender. É uma série de erros e confrontos inesperados que descambam para uma comédia dramática que é impossível adivinhar o final - momento em que o Robert Pattinson rou-ba a cena.
 
“O Drama” já está na minha lista, direto, dos melhores filmes de 2026 e é uma grata surpresa assistir a uma narrativa que quebra nossas expectativas e apresenta algo consistente e muito bem desenvolvido em sua linha temporal — quebrada por flashbacks inteligentes e totalmente condizentes com a coerên-cia da história.
 
O filme está disponível no catálogo do serviço de streaming do Prime Video e garanto: é um grande filme. Vale a pena.
 
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