OS ASSASSINATOS DE IDAHO: PESADELO UNIVERSITÁRIO - Documentário chocante e absurdo na Netflix - Por Marcos Souza

Esse documentário “true crime” em três episódios é acachapante e apresenta um dos crimes mais bárbaros já ocorridos nos EUA, que vitimou quatro jovens estudantes que moravam em uma casa que ficava numa vila universitária

OS ASSASSINATOS DE IDAHO: PESADELO UNIVERSITÁRIO - Documentário chocante e absurdo na Netflix - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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O crime ocorreu no dia 13 de novembro de 2022 e foi muito divulgado na internet, principalmente no YouTube e nas redes sociais, através de reportagens ou postagens de influenciadores digitais, enquanto as investigações estavam acontecendo. Ou seja, não tinha solução nem suspeito por um longo período, pois a polícia ainda estava no andamento de investigar detalhes do crime e caçar ao menos um suspeito. Com isso, surgiram boatos, teorias conspiratórias, falsas acusações e exposição de amigos e colegas das vítimas.
 
Um massacre midiático de grande repercussão e que pressionou muito os investigadores e, principalmente, as famílias das vítimas.
 
Eu lembro que acompanhei esse caso pela internet, pois o que chamava a atenção era o fato de quatro jovens, três mulheres e um rapaz - identificados como Madison Mogen, Kaylee Goncalves, Xana Kernodle e Ethan Chapin (esses dois, namorados) - serem assassinados a facadas enquanto dormiam em quartos separados, de forma impiedosa, às 04h da madrugada, com duas testemunhas com medo, trancadas em um dos quartos.
 
Para piorar, as testemunhas levaram oito horas para chamar a polícia. O que deixava tudo mais intrigante. Por que demoraram tanto para chamar os policiais? Um prato cheio para os especuladores das redes sociais.
 
 
O documentário já abre em plena ação no primeiro episódio, com as imagens impressionantes das câmeras corporais dos policiais que foram atender a uma ocorrência de uma estudante que avisa que as amigas estavam desmaiadas num quarto e não se mexiam. Um dos policiais entra na casa e já constata um casal num dos quartos; os dois estavam mortos e, logo depois, em outro quarto, ele encontra os corpos de duas moças, também mortas, sobre uma cama. Manchas de sangue e perfurações. Perplexo, o policial dá o alarme e chama outros policiais e a perícia. Encontra um rapaz dentro da casa, que avisa que foi chamado por uma das estudantes que estava apavorada.
 
E o primeiro episódio é um painel de toda a ação de policiais, peritos e investigadores na cena do crime, pois a casa fica numa espécie de vila universitária localizada fora do campus da Universidade de Idaho, na pequena cidade de Moscow. Quase todos que moram ali são estudantes. Através das câmeras corporais, iremos ver o estado de choque das testemunhas, colegas e amigos das vítimas, não acreditando nos crimes.
 
Com essa introdução, vamos conhecer os pais e irmãs das vítimas, as histórias delas dentro daquele cenário universitário e como era a vida de cada uma e a convivência entre eles dentro da casa. O documentário tem o cuidado de ouvir os familiares e utilizar vídeos e fotos de todos, aprofundando a personalidade de cada um e o modo de vida.
 
Enquanto as vítimas Madison e Kaylee eram as melhores amigas desde a infância, compartilhando todos os momentos juntas, com as famílias de ambas muito próximas, Xana Kernodle e Ethan eram namorados e viviam um amor, segundo a família e amigos, perfeito, cúmplices de momentos festivos e com muitos amigos em comum.
 
Os depoimentos das famílias, entrecortados por outros dos policiais envolvidos no caso e investigadores, vão traçando a dificuldade do mistério e a motivação que levou uma pessoa a matar quatro pessoas, que parece ser de forma aleatória, numa madrugada e sem pistas concretas, pela complexidade com que o crime foi executado, em que somente uma das jovens, que ficou presa no quarto, viu o assassino sair da casa pelas portas dos fundos, vestido todo de preto e com máscara - quase uma balaclava - de esqui.
 
O uso das câmeras de segurança das casas envoltas da cena do crime, assim como de outros locais - entre eles, lanchonetes e pontos da cidade, onde as vítimas passaram as últimas horas antes de serem assassinadas -, faz com que seja feito um roteiro de percurso, que vai ajudando os investigadores a traçar um mapa de acontecimentos prévios que vai reconstruindo os passos dos jovens.
 
O segundo episódio é concentrado na investigação e mostra a absoluta exposição do crime, sem que a polícia revele muita coisa, fazendo com que a imprensa, na época, montasse a sua própria teoria e desse margem para que muitas pessoas nas redes sociais especulassem motivações do crime e possíveis suspeitos. O absurdo é que chega a um ponto que afeta as famílias, quando as vítimas são apontadas como causadoras da própria morte com teorias absurdas.
 
Quando se chega a um suspeito, eu vou evitar revelar aqui, mas o caso está tão bem divulgado na imprensa e na internet que o julgamento do assassino confesso, que ocorreu no ano passado, teve um desdobramento insatisfatório para as famílias das vítimas, pois ele fez um acordo com advogados e promotoria para que não fosse condenado à pena de morte, apenas à prisão perpétua.
 
 
O terceiro episódio mostra o processo de investigação que levou ao assassino e faz uma meticulosa pesquisa e exposição da vida pregressa dele, principalmente como um brilhante estudante de Direito, mas que tem sérios problemas de convívio com colegas e, principalmente, mulheres - que destila um ódio desmedido. Algumas pessoas que estudaram ou conviveram com ele falam da sua relação na faculdade e do modo como se dedicava aos estudos de forma intensa, mas procurando vieses duvidosos.
 
Nesse episódio, mostra a prisão, o alívio dos familiares das vítimas, que exigem a pena de morte, mas também o processo do conflito da opinião pública em relação ao acusado, que se vale de uma brecha de execução jurídica, onde ele pode confessar o crime quádruplo, porém ser sentenciado à prisão perpétua. Vale destacar que quando esse documentário estava sendo finalizado, antes de estrear na Netflix, o assassino entrou com um recurso na justiça americana alegando inocência e que foi “enganado” e “confundido” por seus advogados, pedindo a anulação da sua confissão e da consequente decisão da pena de prisão perpétua que foi condenado.
 
É uma série muito bem realizada e envolvente, que provoca espanto, emociona e tem uma estrutura de cronologia dos fatos, desde os crimes até o que parece ser a conclusão, muito bem registrada. Dirigida por Skye Borgman, um especialista nesse tipo de produção, é dele o ótimo documentário “Número Desconhecido: Catfishing na Escola” (disponível na Netflix, também), e a produção executiva é de Joe Berlinger, outro especialista, que já foi indicado ao Oscar e responsável por diversas produções sobre crimes reais, sendo um dos diretores do clássico “Paraíso Perdido: Assassinato de Crianças em Robin Hood Hill” (1996) - disponível no streaming HBO Max (recomendo muito).
 
“Os assassinatos de Idaho: Pesadelo universitário” está disponível no catálogo do serviço de streaming Netflix desde o dia 29 de julho e já é um dos grandes sucessos recentes da plataforma. Assista, é muito bom.
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