THE WALL: O musical do Pink Floyd e o alvoroço na sala de cinema - Por Marcos Souza

Filme é baseado no álbum duplo homônimo da banda Pink Floyd

THE WALL: O musical do Pink Floyd e o alvoroço na sala de cinema - Por Marcos Souza

Foto: Reprodução

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Sempre vou recorrer a algumas análises críticas que faço ao Cine Lacerda, praticamente a minha segunda casa nos anos 80 em Porto Velho (RO), onde foi a minha catequese cinéfila e de amante de bons e ótimos filmes.
 
Até mesmo porque passei por muitas situações inusitadas dentro da sala de cinema que ficava no centro da Capital.
 
Uma situação muito legal do cinema era que ele tinha sessões variadas e com filmes aleatórios que viviam sendo reprisados para cumprir a agenda da programação, pois, nos anos 80, os lançamentos não eram como hoje: havia uma diferença de até um ano para alguns filmes estrearem em nossas telas.
 
E, nesse período, algumas cópias chegavam em estado lastimável, com fitas cheias de desgastes.
 
Um filme específico proporcionou uma das sessões mais divertidas que eu tive, quando “Pink Floyd - The Wall” (1982) foi exibido numa tarde quente em uma das reprises.
 
 
A sala não estava tão cheia, mas tinha um público específico, como estudantes, uma galera mais velha e uns hippies muito, muito cabeça.
 
Difícil não saber do que trata o filme, que se tornou lendário, mas é um musical espetacular dirigido pelo britânico e extraordinário Alan Parker (o mesmo de “Expresso da Meia-Noite”, “Fama”, “Mississippi em Chamas” e “Coração Satânico”), baseado no álbum duplo da banda Pink Floyd, de título homônimo, “The Wall”, lançado em 1979, sendo o terceiro trabalho de estúdio da banda inglesa pela gravadora CBS/Sony.
 
O disco — o décimo primeiro de estúdio da banda — era uma inspiração egotrip do baixista Roger Waters, que quis fazer um libelo contra as guerras, os poderes ditatoriais e a esquizofrenia de um personagem fictício reprimido, um astro do rock chamado Pink, desde a educação básica, com a mãe superprotetora, até a sua vida adulta, com traumas que salientam a perda do pai na Segunda Guerra Mundial, numa alegoria metafórica entre a realidade e o delírio de intenções.
 
Ou seja, o álbum “The Wall” é uma ópera-rock e tinha uma temática difícil, visionária e, musicalmente, uma trip que mistura baladas e músicas épicas em arranjos inspiradores, com a banda em seu ápice — todos excepcionais, sem exceção.
 
Os solos de guitarra de David Gilmour fizeram história, e algumas músicas se tornaram clássicos instantâneos, como “Another Brick in the Wall” (Part I) e “Mother”.
 
 
O conceito que utiliza no título “A Parede” (The Wall) é uma situação metafórica presente nas letras, em constantes citações do personagem Pink em seu mundo de isolamento, criado em um lar superprotetor, mas fragmentado, e que vai causando traumas irreversíveis por toda a vida.
 
Para cada trauma, Pink cria a chamada “parede”, como uma autodefesa para que a sua loucura não o leve às vias de entrar numa espiral suicida sem volta. Essas “paredes” simbólicas vão ser seus suportes de sanidade.
 
Com essa temática, o diretor Alan Parker queria adaptar para o cinema a proposta intensa do personagem e suas neuras, com um potencial crítico para discorrer sobre a guerra, o fascismo e a mente quase insana de um personagem vivendo a sua própria loucura para sobreviver.
 
O filme teve o roteiro escrito pelo baixista Roger Waters, mentor criativo do álbum que se tornou um dos maiores sucessos de vendas da história da banda — 40 milhões de cópias vendidas e, por se tratar de um álbum duplo, com dois discos de vinil, a unidade de venda pode ser ainda maior.
 
Essa marca só é superada por outro disco da banda, também clássico e considerado a sua obra-prima, “The Dark Side of the Moon”, de 1973, que vendeu mais de 50 milhões de cópias.
 
No filme, a adaptação segue a ordem das músicas conforme a sua progressão e divisão, contando uma história não linear, mas trazendo sequências fechadas do personagem Pink, vivido pelo cantor e músico Bob Geldof (vocalista da extinta banda The Boomtown Rats e o cara que idealizou e produziu um dos maiores concertos beneficentes da história, o “Live Aid”).
 
Assim como nos discos, Pink é levado a uma crise psicológica, uma neurose causada pelas pressões do estrelato e pelas lembranças traumáticas da sua vida, que eclodem nas “paredes” imaginárias que criou como mecanismo de enfrentamento, causando efeitos colaterais de visões e sonhos surreais.
 
Para dar vida a essas sequências musicais — com poucos diálogos — e, em alguns momentos-chave, o diretor Parker utilizou como recurso a animação adulta (criada pelo ilustrador e cartunista britânico Gerald Scarfe), com profundo teor erótico e surrealista, adaptada de acordo com as passagens musicais do disco, dando uma coesão fora do comum aos delírios insanos do protagonista.
 
Tem que assistir para sentir o impacto visual proposto pelo diretor, sob a supervisão de Waters, que estava inspiradíssimo ao conceber uma história fragmentada e tão bem articulada em sua proposta.
 
É um filme muito ousado para a época em que foi lançado.
 
 
Voltando à sessão de cinema no Lacerda.
 
Foi a primeira vez que assisti ao filme, que já havia sido exibido anteriormente em outras ocasiões, mas eu não tinha idade suficiente para ter permissão para assistir. Enfim, com 17 anos é mais fácil.
 
Nessa sessão específica, numa tarde calorosa e pouco movimentada dentro da sala, fui com um grupo de colegas de escola, já no ensino médio.
 
E foi uma sucessão de imagens impactantes. Nunca tinha visto no cinema um filme musical tão “viajante” e cheio de conotações sexuais e sensoriais, o que levava alguns espectadores, principalmente os do fundão, pessoas mais velhas, a gritar palavrões em forma de elogio ou simplesmente a gritar.
 
O interessante foi quando apareceu um fumacê em um desses grupos e o cheiro de mato queimado com erva.
 
Sim, isso mesmo que você está pensando. Acenderam um “baseado” lá no fundão enquanto o filme era exibido no telão, com as caixas em estéreo em alto e bom som, praticamente um concerto explodindo em áudio nas nossas ventas, verberando nos tímpanos.
 
Em determinado momento, quando entrou o trecho do filme em que a música “Comfortably Numb” é tocada e veio o solo de guitarra delirante de David Gilmour, alto e potente, todos entraram em um transe absurdo, e um dos caras do grupo do fundão ficou fazendo uma dança imaginária na cadeira com o baseado nos dedos de uma das mãos.
 
Loucão!
 
Foi o suficiente para o lanterninha entrar em cena, ir até o grupo e, com vigor, mandar todo mundo apagar o baseado e sair da sala, senão iria chamar a polícia. Não deu dois minutos, o grupo saiu, e eu e meus colegas ficamos rindo e perplexos com a situação.
 
E o filme rolando na tela.
 
 
Depois dessa sessão marcante, tempos depois, em algumas rodas de conversa com amigos roqueiros, comentaram comigo que, em algumas cidades, o povo ia assistir ao filme “The Wall” para curtir as imagens e o som, sem prestar atenção na história de fundo, acendendo um baseado de maconha, pois o filme era perfeito para quem queria fazer a cabeça e relaxar.
 
Era muita informação, mas compreendi.
 
Quanto ao filme, recomendo que assista, caso ainda não o tenha visto, pois é um dos melhores trabalhos do diretor Alan Parker e, visualmente, como já havia escrito antes, impactante e espetacular. Pink Floyd é Pink Floyd; em seu auge, então, um primor de trilha sonora.
 
O filme está disponível na íntegra no YouTube (com legendas e dublado) e também no catálogo do serviço de streaming do Prime Video.
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