O ASSASSINATO DE RACHEL NICKELL: O chocante crime com criança de 2 anos como testemunha - Por Marcos Souza

Recomendo muito que se assista a esse documentário, um dos melhores da atual temporada da Netflix

O ASSASSINATO DE RACHEL NICKELL: O chocante crime com criança de 2 anos como testemunha - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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A minissérie documental, baseada em um true crime, de maior sucesso no mês de junho na plataforma Netflix é “A Testemunha”, que relata e acompanha a polícia britânica em uma investigação que ocorreu em 1992, quando uma mulher, Rachel Nickell, acompanhada do filho de dois anos de idade, passeava em um parque e foi perseguida, estu-prada e esfaqueada até a morte por um maníaco. Porém, a criança não foi atacada e testemunhou tudo, inclusive a fuga do criminoso. Essa minissérie mostra, por meio de vídeos e depoimentos, como os agentes, detetives e psicólogos tiveram que tratar e abordar o menino de dois anos para relatar com detalhes — o que ele viu a mãe sofrer e mor-rer. Chocante pela abordagem utilizada para lidar com o depoimento, com o pai o acolhendo, na tentativa de identi-ficar o assassino.
 
Essa minissérie é espetacular e tem um impacto emocional que realmente choca quem a assiste, pois vamos acompa-nhar algo terrível. É muito triste fazer uma criança de dois anos ficar rememorando o assassinato da mãe a cada tentativa de depoimento com os policiais que, mesmo contando com a ajuda de uma psicóloga infantil e do pai do menino, acabam causando um trauma. Mais absurdo ainda quando levam pai e filho ao parque, ao ponto exato onde a mulher foi morta, para tentar fazer com que a criança tenha lembranças mais vivas do que viu. Chocante.
 
 
Mas vou me ater a outro documentário, agora em longa-metragem, produzido na Inglaterra, com o mesmo tema: “O Assassinato de Rachel Nickell”, produzido e dirigido por Lucy Bowden, que também está disponível no catálogo da Netflix, até mesmo porque ele esmiúça com detalhes toda a investigação em torno desse terrível crime, ocorrido no dia 15 de julho de 1992, no parque florestal localizado a sudoeste do perímetro urbano de Londres, chamado Wimbledon Common. Rachel, que era modelo, tinha 23 anos quando foi atacada em plena luz do dia nesse local. Ela estava com o filho, Alex, que tinha apenas dois anos, e com o cachorro da família, em um passeio que deveria ter sido tranquilo.
 
Dois fatos chamaram a atenção da polícia britânica em torno desse crime: o fato de o assassino ter deixado a criança viva e Rachel ter sido morta com 49 facadas. Quando encontraram os dois, Alex estava sentado ao lado do corpo da mãe.
 
Vamos acompanhar, por meio de depoimentos emocionados do então marido de Rachel e pai de Alex, o momento em que ele recebe a notícia da morte da esposa e descobre que o filho foi mantido vivo, além de todo o processo traumá-tico pelo qual os dois passaram ao longo dos anos, enquanto agentes da Scotland Yard, com apoio da polícia, que-bravam a cabeça tentando encontrar o responsável pelo crime bárbaro. São nesses depoimentos, profundos pela coesão narrativa dos fatos, que vamos perceber a dor e as sequelas que se perpetuaram tanto no pai quanto no filho. 
 
 
A abertura do documentário já é uma amostra bastante forte, com um vídeo caseiro gravado por ele, tentando desco-brir com o filho como agiu o assassino contra a mãe enquanto ele assistia à cena.
 
E, assim como na minissérie, porém sem ser tão expositiva, vamos ver aqui os trechos gravados pela polícia em que se tenta colher vários depoimentos do menino Alex, para obter detalhes de como foi o crime, da figura do assassino e do que ele conseguiu ver. É perturbador para quem assiste ver a agonia do pai ao acolher o filho enquanto ele é interroga-do na sala de casa por dois policiais, acompanhados de uma psicóloga que parece perdida, pois é algo inédito lidar com sentimentos de perda, luto e lembranças tristes em uma criança tão pequena. Choca a forma como fazem isso. E, claro, como eu já havia citado, culmina com a polícia levando pai e filho ao local exato do crime para tentar avivar ainda mais as lembranças.
 
Com os pequenos fachos de lembranças que Alex apresentou, a polícia tentou criar pistas para encontrar o maníaco. Vale ressaltar que a polícia conseguiu fragmentos de fluidos do assassino na cena do crime e outros detalhes, mas, em 1992, os peritos ainda não tinham tecnologia para identificação de DNA a partir desses fragmentos, e algumas pistas tiveram que ser preservadas.
 
Mas conseguiram criar um retrato falado e, com base nas poucas informações que tinham em mãos, a polícia chegou a interrogar 32 homens antes de apontar um suspeito direto, o que ocorreu mais de um ano depois, em agosto de 1993, quando identificaram Colin Stagg, um homem desempregado que tinha o hábito de passear pelo mesmo parque. Com base em um método não muito usual, os agentes utilizaram a técnica de sedução psicológica chamada “honey trap tactics” — quando uma policial, de forma disfarçada, se apresenta como uma mulher de fácil acesso e permite que o suspeito se aproxime. Colin caiu na armadilha e foi indiciado pelo assassinato de Rachel Nickell, sem nenhuma evi-dência forense que o ligasse ao local do crime.
 
 
No entanto, essa pista e essa resolução não foram suficientes para se chegar, de fato, ao criminoso e eu não vou dar spoiler. Assista e perceba as reviravoltas que o caso apresenta. Para se ter uma ideia, a solução só veio a ocorrer dez anos depois do crime, quando finalmente foi possível realizar novas análises, agora detalhadas, das provas e pistas que haviam sido colhidas no local.
 
Os depoimentos de Alex, já adulto, lembrando de como todo o processo de investigação do caso, assim como o desgas-te  emocional afetou a sua relação com o pai na fase de pré-adolescente e depois adolescente, se tornando um problema, é emocionante. E ver os dois, pai e filho, ainda juntos lembrando de toda a história, permite a nós, espectadores, refletir sobre como um crime terrível destrói tantas coisas e a reconstrução familiar só ocorre se um ceder. O pai de Alex cedeu tudo o que pode. Comovente. 
 
Recomendo muito que se assista a esse documentário, um dos melhores da atual temporada da Netflix.
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