EU, CHRISTIANE F.: Filme completa 45 anos e livro permanece intacto - Por Marcos Souza

Filme agora em 2026 faz 45 anos de lançamento e continua atual

EU, CHRISTIANE F.: Filme completa 45 anos e livro permanece intacto - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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É sempre recorrente nas minhas histórias de vida como cinéfilo - apaixonado por cinema - citar o Cine Lacerda, em Porto Velho, que foi a minha escola de vida de entretenimento quando era adolescente na década de 80. Um dos casos mais legais de euforia foi quando eu tive que comprovar numa adaptação de um livro que me deixou estarrecido e pelo impacto que me provocou: “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída”, o filme foi exibido no Lacerda como algo restritivo para menores por causa do alto teor de consumo de drogas ilícitas.
 
O filme agora em 2026 faz 45 anos de lançamento e continua atual. O revi essa semana. Está disponível no catálogo da plataforma de streaming da Mubi (que é uma excelente curadoria de filmes). 
 
Produção alemã, baseada no livro de mesmo nome, que teve como base uma série de entrevistas e depoimentos da verdadeira Christiane Felscherinow, quando tinha 15 anos, aos jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck, que tem uma história curiosa a respeito, pois eles acreditavam que seria algo que fosse durar apenas algumas horas, porém foram dois meses de conversas com a adolescente, que contou todos os detalhes do seu envolvimento com a heroína e como isso motivou a se prostituir com 13 anos para alimentar o vício.
 
A história da adolescente marca a chamada “geração perdida” de jovens da Alemanha Ocidental, em Berlim, quando ainda tinha o muro de Berlim que separava da Alemanha Oriental, e estava vivendo o período sublimar do vício por heróina, haxixe e outras drogas potentes que estavam na moda nos anos 70.
 
 
Esse material se transformou num livro que foi publicado na Alemanha em 1978 e se transformou num fenômeno de vendas, se tornando um best-seller em mais de 30 países e traduzido para 15 idiomas.
 
Eu vim conhecer a história de Christiane por causa de uma reportagem publicada na extintta revista Manchete, da Editora Bloch, no ano de 1984, quando tinha 15 anos. Na matéria citava a história da adolescente que ficou famosa por causa do livro e que naqueles dias, após um tempo ela foi reencontrada por uma equipe de jornalistas, onde dizia estar “limpa” das drogas, porém ela acabou sendo presa após ter sido flagrada no apartamento de um traficante em Berlim. Por conta disso a jovem deu uma entrevista a revista alemã Stern, confessando que nunca havia deixado a heroína. 
 
Essa reportagem me fez ir em busca do livro publicado no Brasil, e acabei achando na biblioteca da escola onde estudava, indicado somente para maiores de 16 anos. Achei estranho, mas o diretor técnico responsável pelo espaço acabou liberando o livro para eu ler. Essa é a famosa publicação da Editora Difel, de 1982, com tradução de Maria Celeste Marcondes. 
 
Na contra-capa do livro, a editora fez questão de deixar um aviso de advertência sobre o teor da obra:
 
“Ao incluirmos na capa desse livro a chamada DESACONSELHÁVEL PARA MENORES é nosso propósito ajudar que venha a pertencer só aos Pais - pelo real conhecimento dos seus filhos e pelo que entendam melhor servir  a sua formação - o de decidirem se a leitura de EU, CHRISTIANE F., 13 ANOS, DROGADA E PROSTITUÍDA..  deve ou não ser facultada aos menores cuja guarda lhes pertence - por direito e por dever”.
 
 
Como não querer ler, depois desse aviso?
 
Eu o li em dois dias, quase sem intervalo, na verdade é uma reportagem romanceada, com narração baseada na vida da Christiane, uma menina de 12 anos, entrando na puberdade, com pais separados, um gato de estimação e uma irmã, que morava em um prédio periférico caindo aos pedaços, onde ela vivia seu pior momento. Sem perspectiva de vida para o futuro, se deixava levar pela convivência no Centro de Jovens, onde conheceu outros adolescentes com problemas familiares e pessoais, e onde, de fato iniciou o seu envolvimento com drogas. Desse inicio, a jovem passou a frequentar a estação de trem Bahnhof Zoo, outro point de consumo de entorpecentes e culminou com a sua ida frequente à discoteca Sound, o local onde ocorria tráfico, consumo pesado de heroína e até mesmo contatos para se prostituir.
 
Com a enorme repercussão da publicação na Alemanha e depois em outros países era inevitável não ter uma adaptação para o cinema,. Em 1981 o diretor alemão Uli Edel fez o filme homônimo, com a ótima atriz Natja Brunckhorst, que fez o papel título e tinha nas filmagens 12 anos. 
 
 
Sobre o filme, eu o assisti no Lacerda em 1986, tinha 17 anos, numa sessão a noite bem concorrida, o título além de chamativo, tinha um apelo popular. Mas na sessão que eu fui eram poucos jovens como eu. Talvez o que me deixou surpreendido era ver cenas de consumo de drogas como nunca tinha visto antes em um filme. Ver a atriz, ainda pré-adolescente simular tomando pico de injeção no braço, ou ver a sua decadência física - muito magra, pálida - era um reflexo do que foi narrado no livro. 
 
No entanto tinha uma grande diferença, que constatei revendo o filme. O livro tem muito mais impacto pela forma crua que é contada a história, os detalhes e não ter cuidado em poupar elementos, crises e conflitos que a Christiane passou para sua viagem ao fundo do poço. 
 
A descrição dos locais onde se passa os momentos de maior intensidade da adolescente, no filme foram filmados em algumas locações reais - para dar mais autenticidade. E o diretor Uli tem uma mão muito boa ao destacar tomadas da cidade Berlim, com seus prédios, metrôs e trens, o movimento jovem nas ruas e shoppings. Como um retrato bem feito da juventude dos anos 70.
 
No livro tem um capítulo dedicado a uma apresentação do músico e cantor David Bowie, quando realizou um show em Berlim. O astro é o ídolo musical de Christiane. No filme a produção se esmerou em permeiar a trilha sonora com músicas de Bowie e o que inclui uma participação muito especial dele num show, com a personagem. 
 
 
Eu digo que o filme tem uma representação histórica bem descritiva de um período insano na vida da juventude alemá na era pré-queda do muro de Berlim e ter uma personagem tão conflitante e miserável na figura de uma adolescente viciada, Christiane, deixa livre o pensamento para algumas metáforas invisíveis, mas bem claras, ainda que baseado em fatos reais, foi uma geração vivendo o seu momento, sem, de fato, ter esperança de um futuro promissor. 
 
É depressivo em alguns momentos o filme, por trazer um submundo nem tão submundo, pois a olhos vistos, aqueles jovens são visíveis à sociedade e esquecidos pelos pais.
 
Se eu for recomendar de fato, leia o livro - tem edições atualizadas da Editora Record, com nova tradução. Eu, no entanto, ainda me lembro e sinto arrepios quando vejo em sites de sebos de livros a capa original da primeira publicação no Brasil, pela editora Difel. 
 
O filme, muito bom, mas não tem o mesmo potencial da leitura pesada que Christiane F. me proporcionou. 
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