TECNOLOGIA: IA amplia disputa pela atenção e pela percepção da realidade

A exposição repetida a uma afirmação pode aumentar sua percepção de veracidade

TECNOLOGIA: IA amplia disputa pela atenção e pela percepção da realidade

Foto: Educa Mais

Receba todas as notícias gratuitamente no WhatsApp do Rondoniaovivo.com.​

  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
0 pessoas reagiram a isso.

A corrida global pela Inteligência Artificial (IA) não envolve apenas chips, modelos, data centers, energia e investimentos. Uma disputa igualmente estratégica ocorre no ambiente informacional: a capacidade de influenciar o que bilhões de pessoas veem, consideram importante e entendem como realidade.

 

Em uma sociedade hiperconectada, controlar a informação não significa necessariamente inventar fatos. A influência pode ocorrer pela seleção do conteúdo, pela repetição, pelo destaque de determinados assuntos e pela criação da percepção de que uma opinião representa a maioria.

 

Durante décadas, jornais, rádios e televisões exerceram papel central na seleção das informações que chegavam ao público. Hoje, os sistemas de recomendação das plataformas digitais assumiram parte dessa função. Em vez de visualizar tudo o que é publicado, cada usuário recebe um recorte determinado por sistemas automatizados que consideram diferentes sinais e objetivos.

 

O resultado é que duas pessoas podem receber conteúdos completamente diferentes sobre o mesmo acontecimento. Uma pode encontrar predominantemente informações sobre benefícios de determinada tecnologia, enquanto outra é exposta a riscos, fraudes e consequências negativas. Ambas podem estar consumindo fatos verdadeiros, mas a seleção diferente produz percepções distintas.

 

É nesse ponto que a discussão sobre desinformação ganha complexidade. Não basta perguntar se determinado conteúdo é verdadeiro. Também é necessário questionar por que ele apareceu, qual é sua fonte, que contexto ficou de fora e quem pode se beneficiar daquela interpretação.

 

A Inteligência Artificial aumenta a escala desse processo. Ferramentas generativas permitem produzir textos, imagens, áudios e vídeos em volumes e velocidades muito superiores aos modelos tradicionais de comunicação. A tecnologia também facilita a segmentação de públicos, a criação de diferentes mensagens e a personalização da comunicação.

 

A consequência é uma mudança importante na economia da influência. O desafio não está apenas em produzir milhões de conteúdos, mas em criar diferentes versões de uma mensagem para públicos distintos, explorando interesses, emoções e comportamentos.

 

A repetição também exerce influência. Pesquisas sobre o chamado efeito de verdade ilusória indicam que a exposição repetida a uma afirmação pode aumentar sua percepção de veracidade. Nas redes, uma mesma narrativa pode reaparecer em vídeos, comentários, memes e publicações diferentes, criando a impressão de que sua frequência equivale à sua credibilidade.

 

Outro risco é confundir popularidade com consenso. Curtidas, compartilhamentos, visualizações e tendências mostram aquilo que ganhou visibilidade, mas não necessariamente representam o pensamento da maioria da sociedade.

 

Com a expansão da IA generativa, surge ainda o problema da autenticidade. Imagens, vozes e vídeos sintéticos podem ser usados para fabricar acontecimentos. O risco, porém, não é apenas acreditar em uma falsificação. Existe também o chamado “dividendo do mentiroso”: diante da possibilidade de manipulação, pessoas podem passar a rejeitar como falso até mesmo um conteúdo verdadeiro.

 

Esse cenário já produz consequências econômicas e políticas. Uma declaração falsa atribuída a um executivo, um vídeo manipulado ou uma campanha coordenada contra uma empresa pode provocar danos antes que a correção alcance o mesmo público.

 

Por isso, cresce a importância de tecnologias de autenticação e procedência digital. Padrões como os desenvolvidos pela Coalition for Content Provenance and Authenticity (C2PA) buscam permitir que informações sobre a origem e o histórico de conteúdos sejam verificadas.

 

O desafio, entretanto, não será resolvido apenas pela tecnologia. A sociedade precisará desenvolver uma nova alfabetização informacional, baseada em perguntas simples: qual é a fonte original? Existem evidências independentes? O conteúdo está fora de contexto? Por que estou vendo isso? Essa opinião é realmente majoritária ou apenas muito visível?

 

A resposta também exige cautela. Combater a desinformação não pode significar entregar a governos, empresas ou qualquer instituição o poder absoluto de definir aquilo que todos devem considerar verdadeiro. Transparência, pluralidade de fontes, liberdade de expressão, educação e instituições independentes continuam sendo elementos essenciais.

 

A grande disputa da era da IA, portanto, não será apenas pelo domínio dos chips, dos dados ou da infraestrutura computacional. Será também pela atenção, pela narrativa e pela confiança.

 

No limite, estará em jogo a capacidade de influenciar aquilo que sociedades inteiras consideram verdadeiro, urgente, importante ou irrelevante. A pergunta estratégica passa a ser menos “quem terá a tecnologia mais poderosa?” e também “quem terá maior capacidade de moldar a percepção da realidade?”.

 

Em um mundo no qual cada pessoa recebe um recorte diferente dos acontecimentos, distinguir realidade de representação poderá se tornar uma das competências mais importantes do século XXI.

 

Produzido a partir do artigo do especialista de Renan Assunção Chaves

Direito ao esquecimento

MAIS NOTÍCIAS

Por Editoria

CLASSIFICADOS veja mais

EMPREGOS

PUBLICAÇÕES LEGAIS

DESTAQUES EMPRESARIAIS

EVENTOS

Instale o app do Rondoniaovivo.com Acesse mais rápido o site