Há algum tempo eu estava de olho nesta biografia de João Saldanha. Finalmente a adquiri e comecei a ler o livro do jornalista André Iki Siqueira, que realizou uma profunda pesquisa e nos brinda com histórias deliciosas sobre o comunista convicto, jogador de futebol, treinador e torcedor doente do Botafogo, jornalista e comentarista esportivo, apelidado por Nelson Rodrigues como "João Sem Medo".
O livro João Saldanha, uma vida em jogo conta as peripécias de Saldanha cumprindo fervorosamente as missões dadas pelo Partido, as inúmeras confusões – inclusive chegou a ser baleado durante uma reunião interrompida pela polícia –, sua dedicação como pai e seu amor incondicional ao time da Estrela Solitária, que ele treinou, a princípio como amador e sem receber. O time tinha feras como Garrincha, Didi e Nilton Santos e acabou campeão carioca de 1957, depois de uma vitória esmagadora sobre o Fluminense. 23a4
A obra conta em detalhes a breve, mas decisiva trajetória à frente da inesquecível seleção brasileira da Copa de 1970. Por questões políticas e desavenças, João Sem Medo foi substituído por Zagallo, que acabou sendo campeão mundial naquele ano, como técnico.
Além de jornalista, técnico, Saldanha também era escritor. Os principais livros que ele escreveu e publicou são: Subterrâneos do Futebol, 1963. É o mais famoso. Crônicas e bastidores do futebol brasileiro, com o estilo polêmico dele. Subterrâneos do Futebol é o essencial, pois o livro é uma denúncia contra cartolas e esquemas do futebol da época. Foi best-seller nos anos 60.
Vida que Segue, 1967, uma coletânea de crônicas sobre futebol e política e ainda Futebol e outras histórias, que saiu em 1974.
As 100 melhores crônicas comentadas de João Saldanha, coletânea póstuma. Sobre nuvens de fantasia, biografia de Saldanha escrita por João Máximo e ainda Quem derrubou João Saldanha, que trata da saída dele da Seleção em 1970.
A vida de João Saldanha daria uma minissérie de dez episódios. E falando nisso: parte de sua história vai ganhar as telinhas no final de maio. Estreia dia 29, na Netflix, a minissérie Brasil 70: A Saga do Tri, criada por Naná Xavier e Rafael Dornellas, com Rodrigo Santoro vivendo Saldanha. A produção recria os bastidores da seleção de 70 em plena ditadura militar, mostrando o trabalho de João para montar o time antes de sair e dar lugar a Zagallo, vivido por Bruno Mazzeo.
Mas enquanto a série não chega, vamos nos contentando com essa sensacional e bem escrita biografia. Aliás, faço aqui apenas uma ressalva: o livro fica muito mais interessante a partir do quarto capítulo, quando o autor deixa o militante comunista um pouco de lado e detalha mais a fundo a carreira do biografado como técnico e jornalista.
Inimigos e desafetos são muitos, mas a quantidade de amigos e admiradores supera a de detratores. Fica a certeza de que João Saldanha nunca foi santo e passou longe de querer ser perfeito, nada disso, mas fica no leitor a comprovação de sua coerência e lealdade, duas de suas tantas qualidades.
E por falar em seleção brasileira: já que estamos relembrando o gênio que montou a base do tri de 70, vale lembrar que em breve teremos mais uma Copa do Mundo. O Mundial de 2026 começa em 11 de junho nos EUA, México e Canadá, e o Brasil estreia no dia 13 de junho contra o Marrocos. Quem sabe o hexa não vem embalado pela memória do João Sem Medo?