Vivian Alecrim tem apenas 14 anos. Na noite do dia 16 de agosto deste ano, ela deu entrada no Hospital das Clínicas. Após examiná-la, o clínico geral a encaminhou para um nefrologista (especialista que se ocupa de diagnosticar e tratar das doenças do sistema urinário).
No momento de retirar a guia de consulta, no Ipam, o pai da garota foi informado de que o instituto não tem convênio com essa especialidade. A saída foi recorrer ao esquálido Sistema Único de Saúde (SUS).
Os exames revelaram que Vivian tem síndrome nefrótica (doença que afeta os rins, cujos sintomas mais freqüentes são: inapetência, mal-estar, retenção líquida, inchaço nas pálpebras e nos tornozelos e pressão arterial geralmente baixa).
Para estabelecer um diagnóstico definitivo da doença, o médico solicitou uma biópsia renal. Novamente, o pai de Vivian procurou o Ipam. Mas o instituto também não cobre esse tipo de exame. Só a coleta do material.
O jeito foi fazer o exame fora do estado. Antes, porém, o pai da menina teve que depositar quatrocentos reais na conta do laboratório e mandar uma cópia do recibo com o material coletado.
Ontem, à noite, o presidente do Ipam, João Herberty Peixoto, compareceu ao plenário da Câmara Municipal de Porto Velho, acompanhado de um séquito, convidado que foi pela vereadora Ellis Regina (PC do B), para tentar esclarecer coisas estranhas que estariam acontecendo na instituição.
Entretanto, horas antes de começar a reunião, o prefeito Roberto Sobrinho teria ligado para o presidente da Câmara, vereador José Hermínio Coelho, para tentar evitar a sabatina, provavelmente temendo que o cunhado não resistisse à pressão e caísse em desgraça. Mas Hermínio mostrou que tem pulso forte e não arredou o pé. Ou ele vem como convidado, ou, então, teremos de convocá-lo, teria dito o presidente ao companheiro de partido.
Verdade ou não, o fato é que “Beto” compareceu: com o cabelo em desalinho e o semblante de alguém que estava sendo conduzido para o matadouro. Não permaneceu um minuto quieto na cadeira e só voltou a respirar mais tranqüilo quando soube que o interrogatório teria sido adiado. Com a pauta cheia e devido ao adiantar da hora, a opção foi transferir a argüição para a próxima segunda-feira.
Até lá, porém, “Beto” terá mais tempo para decorar o texto com o qual tentará convencer os vereadores, com cifras que ninguém sabe de onde saíram, de que o Ipam atravessa um de seus melhores momentos: ganhou pintura nova, ampliou o número de atendimentos e que o caixa da assistência está abarrotado de reais, dentre outras baboseiras.
Entretanto, o que certamente “Beto” não conseguirá esclarecer, ainda que busque explicação no lugar mais recôndito de sua consciência, é como o Ipam tem dinheiro para pagar conta de celular de mil reais, mas não pode contratar um nefrologista para aliviar o drama de pessoas como Vivian, Rudimar, João, Pedro, Francisco, Tadeu e tantos outros segurados do Ipam que tem síndrome nefrótica.