Estudantes de Engenharia e Arquitetura cobraram informações sobre custos, fluxo de veículos e viabilidade das propostas apresentadas para o trecho urbano da rodovia
A audiência pública realizada na noite desta quarta-feira (19), na Câmara de Vereadores de Vilhena, para discutir alternativas de intervenção no trecho urbano da BR-364, acabou revelando um problema que vai além da escolha entre os projetos apresentados: a dificuldade de promover um debate técnico sem que informações técnicas essenciais estejam disponíveis de forma clara durante a discussão.
O encontro reuniu um auditório lotado, com a presença de acadêmicos dos cursos de Engenharia e Arquitetura, além de representantes da sociedade civil, autoridades e outros interessados. A expectativa era de que a audiência apresentasse elementos suficientes para que a população pudesse compreender as alternativas propostas e participar da discussão sobre o futuro da principal rodovia que corta o município.
Entretanto, os questionamentos feitos durante o evento mostraram uma distância entre o objetivo anunciado para a audiência e o nível de informação efetivamente apresentado ao público.
Questionamentos partiram dos estudantes
Os acadêmicos presentes fizeram perguntas relacionadas ao dimensionamento das vias, à capacidade das alternativas apresentadas e aos critérios técnicos que orientaram a elaboração das propostas.
As dúvidas, no entanto, esbarraram na ausência de informações mais detalhadas durante a apresentação. Os representantes da empresa responsável pelos projetos exibiram imagens e animações dos modelos estudados, mas dados como volume de tráfego, estimativas de custo e parâmetros utilizados para avaliar a capacidade de cada solução não foram apresentados de forma detalhada ao público.
Esse foi o principal ponto de desconforto da audiência.
A discussão sobre mobilidade urbana, especialmente em um trecho da BR-364 que concentra grande fluxo de veículos e interfere diretamente na rotina de Vilhena, envolve questões que não se resumem ao aspecto visual de viadutos, passarelas, retornos ou outras estruturas.
Para que a população consiga formar uma opinião sobre as alternativas, informações como custo estimado, impacto no trânsito, prazo de execução, capacidade futura e possibilidade de obtenção de recursos são elementos importantes no processo de comparação entre os projetos.
Imagens sem números
Dos quatro modelos apresentados, apenas um teria sido mostrado com uma representação específica para a realidade de Vilhena. Os demais utilizaram referências visuais de obras e estruturas existentes em outras cidades.
A utilização de referências pode ajudar o público a visualizar determinado conceito, mas não substitui a apresentação de dados relacionados à realidade local.
Foi justamente nesse ponto que os estudantes e outros participantes concentraram parte dos questionamentos: como avaliar tecnicamente uma proposta sem conhecer os números que sustentam sua concepção?
Durante a audiência, também foram feitas cobranças sobre os valores estimados para cada alternativa. A questão ganhou ainda mais relevância diante da informação de que cerca de R$ 1 milhão teria sido destinado à elaboração dos estudos e projetos.
Sem uma estimativa, mesmo que preliminar, dos custos das intervenções, fica difícil estabelecer uma discussão pública sobre a relação entre investimento, benefício esperado e viabilidade de execução.
Debate técnico precisa de informação acessível
A situação registrada na Câmara levanta uma questão importante sobre a própria realização de audiências públicas.
A audiência é um espaço para ouvir a população, mas também precisa oferecer condições para que essa participação seja qualificada. Quando estudantes de Engenharia e Arquitetura comparecem ao encontro e levantam dúvidas sobre capacidade, dimensionamento e funcionamento das intervenções, os questionamentos deixam de ser apenas manifestações de opinião e passam a demonstrar a necessidade de aprofundamento técnico da discussão.
Se os dados existem e estão disponíveis nos estudos elaborados pela empresa contratada, o desafio passa a ser torná-los acessíveis e compreensíveis durante o processo de debate público.
A promessa de disponibilizar as informações posteriormente no Portal da Prefeitura não elimina a importância de que os principais elementos sejam apresentados e explicados justamente no momento em que a população é chamada a discutir o projeto.
Presença política também gerou incômodo
Outro aspecto que chamou a atenção foi a presença de elementos políticos durante um evento que havia sido apresentado como essencialmente técnico.
Segundo relatos sobre a audiência, o nome de um candidato apoiado pelo prefeito foi citado durante o encontro, e o próprio candidato estava presente utilizando uma camiseta com seu nome.
Embora a presença de agentes políticos e candidatos em eventos públicos não seja, por si só, suficiente para caracterizar irregularidade, o contexto acabou gerando comentários entre participantes, especialmente porque o cerimonial havia orientado que os questionamentos permanecessem no campo técnico.
A situação reforçou a percepção de parte do público de que seria importante preservar uma separação mais clara entre o debate sobre uma obra de interesse coletivo e o ambiente eleitoral.
O desafio agora é transformar apresentação em debate
A audiência não encerra a discussão sobre a BR-364. Pelo contrário, os questionamentos feitos pelos estudantes e demais participantes indicam que ainda existe espaço para uma apresentação mais completa dos projetos.
A população precisa saber, por exemplo, quais critérios foram utilizados para definir as alternativas, qual o fluxo de veículos considerado nos estudos, quanto pode custar cada intervenção, quais são os impactos previstos e quais soluções apresentam condições reais de sair do papel.
Mais do que escolher qual imagem ou modelo parece mais adequado, a discussão sobre o trecho urbano da BR-364 exige acesso às informações que sustentam cada proposta.
A participação dos estudantes durante a audiência mostrou justamente isso: o debate sobre o futuro da rodovia precisa avançar das imagens para os números.
Só com dados técnicos, estimativas de custos e informações claras será possível ampliar a participação da sociedade e permitir uma discussão mais transparente sobre uma obra que poderá definir, por muitos anos, a mobilidade urbana de Vilhena.
Com informações e imagem da Folha do Sul on Line