Passar horas acompanhando notícias políticas, imaginando cenários negativos ou permanecendo em estado de alerta pode provocar efeitos físicos e emocionais.
Quando uma pessoa percebe que seus direitos, sua segurança ou seu sentimento de pertencimento estão ameaçados, o organismo pode reagir à ameaça percebida com insônia, tensão, irritação, enjoo, choro e dificuldade de concentração.
Isso não significa que exista um diagnóstico coletivo ou que todas as pessoas reajam da mesma maneira.
Também não significa que os temores individuais correspondam necessariamente ao que está acontecendo na realidade.
A resposta é, antes, uma reação do organismo diante da percepção de ameaça.
Um estudo publicado em 2026 analisou a relação entre sofrimento psicológico e chamado “luto político” durante a reforma judicial de 2023 em Israel.
A pesquisa ouviu 453 adultos israelenses contrários à reforma e identificou associação entre a percepção de perda política, luto político e sintomas de sofrimento psicológico.
Os autores, porém, ressaltam um contexto específico, e os resultados não podem ser automaticamente generalizados para a população brasileira.
Corpo em estado de alerta
Em períodos de intensa polarização ou incerteza política, o acompanhamento contínuo de notícias e redes sociais pode manter a pessoa exposta repetidamente a informações percebidas como ameaçadoras.
O problema não é acompanhar acontecimentos políticos, mas permitir que a exposição ocupe continuamente o espaço de descanso, alimentação, sono e convivência.
Uma medida prática é estabelecer períodos de afastamento das atualizações, cuidar das necessidades básicas, conversar com pessoas de confiança e separar aquilo que efetivamente está sob controle individual daquilo que depende de decisões coletivas.
Descansar, nesse contexto, não significa abandonar a participação política ou a defesa da democracia.
Significa preservar as condições físicas e mentais necessárias para continuar acompanhando os acontecimentos com maior capacidade de análise.
Quando procurar ajuda
O sofrimento psicológico pode exigir atenção profissional quando se torna intenso, persistente ou interfere significativamente na rotina.
A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde oferece atendimento contínuo em diferentes níveis, incluindo Unidades Básicas de Saúde e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação do Ministério da Saúde é procurar uma UPA, pronto-socorro ou hospital.
O SAMU pode ser acionado gratuitamente pelo telefone 192, inclusive em situações de tentativa de suicídio.
O Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia.
O serviço não substitui atendimento médico ou de emergência.
A principal recomendação, portanto, é não transformar a exposição permanente às notícias em uma condição permanente de alerta.
Informação é necessária para a vida democrática, mas o organismo também precisa de períodos de descanso para processá-la.