O uso prolongado do mercúrio na exploração de ouro gerou graves consequências para a saúde pública em Rondônia. De acordo com uma série de estudos e pesquisas da Universidade Federal de Rondônia (Unir), a principal forma de contaminação humana ocorre por meio da ingestão contínua de peixes contaminados.
Como ocorre a contaminação
Estudos conduzidos por pesquisadores como Wanderley Rodrigues Bastos (2015) e Azevedo e colaboradores (2019) comprovam que o mercúrio metálico se transforma em metilmercúrio nos rios, uma forma orgânica e muito mais tóxica. Essa substância não é eliminada e se acumula no corpo dos organismos aquáticos, fazendo com que peixes carnívoros apresentem as maiores concentrações do metal e prejudiquem a população que se alimenta deles.
Danos ao sistema nervoso
Um estudo realizado pelas pesquisadoras Elaine de Jesus Barbosa dos Santos e Elieth Afonso de Mesquita (2023) explica o motivo da gravidade: o metilmercúrio circula facilmente pelo organismo e consegue atravessar a barreira de proteção do cérebro. Essa invasão causa perda de coordenação motora, tremores e problemas neurológicos e psicológicos severos, como déficits de memória, depressão, ansiedade e irritabilidade.
Riscos para gestantes e crianças
O grupo de maior risco é formado por mulheres grávidas e crianças. Uma pesquisa de Vieira e sua equipe (2013) constatou concentrações perigosas de mercúrio no cabelo e no leite materno de mães de comunidades ribeirinhas do rio Madeira. O metal é transferido da mãe para o bebê durante a gestação e a amamentação, o que interfere na formação do sistema nervoso da criança e causa atrasos motores e mentais.
Relação com tumores cerebrais
A ciência também investiga a relação do metal com o câncer. Em sua tese de doutorado pela UNIR, o pesquisador Johnathan de Sousa Parreira (2021) avaliou pacientes do Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, em Porto Velho, que passaram por cirurgia para a retirada de tumores no sistema nervoso central. Ele descobriu que a quantidade de mercúrio dentro do tumor retirado é diretamente proporcional à quantidade de mercúrio presente no cabelo e no sangue da mesma pessoa. O estudo atesta que o mercúrio absorvido ao longo da vida e presente no corpo dos pacientes está se acumulando diretamente nos tumores cerebrais.
Fontes
Mercury in fish of the Madeira river (temporal and spatial assessment), Brazilian Amazon (Bastos et al., 2015);
Influence of the flood pulse on mercury accumulation in detritivorous, herbivorous and omnivorous fish in Brazilian Amazonia (Azevedo et al., 2019);
Neurotoxidade na região de Rondônia e sua correlação com a contaminação mercurial de seus afluentes: uma revisão (Santos & Mesquita, 2023);
Total and methyl-mercury in hair and milk of mothers living in the city of Porto Velho and in villages along the Rio Madeira, Amazon, Brazil (Vieira et al., 2013);
A contaminação por mercúrio e os tumores do sistema nervoso central em Rondônia, na Amazônia Ocidental Brasileira (Parreira, 2021).