ARTESANATO & EMPREENDEDORISMO: Empreendedorismo ancestral fortalece renda de famílias indígenas em Porto Velho

Entre sementes, grafismos ancestrais e peças produzidas manualmente, povos indígenas de Rondônia transformam tradição em sustento, autonomia e permanência cultural

ARTESANATO & EMPREENDEDORISMO: Empreendedorismo ancestral fortalece renda de famílias indígenas em Porto Velho

Foto: Ana Laura Barros

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Por Ana Laura Barros e Tais Oliveira*

 

O som das conversas se mistura ao movimento dos turistas no complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em Porto Velho. Sobre a banca, sementes, fibras naturais, penas e colares coloridos chamam atenção de quem passa. Enquanto organiza as peças produzidas manualmente na aldeia, a artesã indígena Márcia Karitiana observa os visitantes se aproximarem. Cada adorno exposto ali carrega ancestralidade, identidade cultural e, ao mesmo tempo, representa sustento para famílias indígenas. “Eu sempre trabalhei com artesanato indígena. É assim que faço o sustento da minha família”, conta Márcia, que aprendeu a produzir as peças ainda na infância, dentro da aldeia.

 

Em espaços turísticos da capital rondoniense, povos indígenas têm encontrado no artesanato uma forma de transformar conhecimentos tradicionais em pequenos negócios ligados à economia criativa. Colares, biojoias, cocares, pulseiras e peças produzidas manualmente ajudam famílias a manter a própria cultura viva enquanto garantem geração de renda.

 

Produção artesanal indígena é aprendida de geração em geração e mantém viva a memória cultural dos povos originários - Foto: Ana Laura Barros

 

Segundo o Sebrae – Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas –, as atividades ligadas à economia criativa representam cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O setor reúne áreas como artesanato, cultura e produção autoral, sendo apontado como importante ferramenta de empreendedorismo e desenvolvimento sustentável.

 

A força econômica do artesanato também aparece em Rondônia. Durante a Rondônia Rural Show Internacional de 2026, o pavilhão do artesanato movimentou mais de R$ 257 mil em vendas e comercializou cerca de quatro mil peças produzidas por artesãos rondonienses em apenas seis dias de evento. Os números reforçam o crescimento da economia criativa como alternativa de geração de renda no estado.

 

Colares confeccionados com sementes e fibras naturais são produzidos manualmente e transmitidos entre gerações como forma de preservar a ancestralidade indígena - Foto: Ana Laura Barros

 

Em Rondônia, o artesanato indígena possui forte presença feminina. Dados do Governo do Estado apontam que mais de 280 artesãos indígenas já foram cadastrados no Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), sendo mais de 90% mulheres. O programa busca incentivar a geração de renda, profissionalização e fortalecimento do empreendedorismo artesanal.

 

Para o indígena Luan Migueleno, do povo Migueleno, o artesanato ultrapassa a questão financeira e se transforma em resistência cultural. “A importância é que nós não estamos deixando a cultura morrer”, afirma. Há cinco anos trabalhando com produção e venda de adornos artesanais, Luan atua de forma informal e afirma que o artesanato é atualmente a principal fonte de sustento da família. Segundo ele, a procura pelos produtos aumentou nos últimos anos e as redes sociais passaram a ampliar o alcance das vendas. “O Instagram ajudou a alcançar clientes fora de Porto Velho e de Rondônia”, relata.

 

Feira do Sol, em Porto Velho, reúne artesãos indígenas que utilizam o artesanato como forma de resistência cultural e valorização da identidade ancestral - Foto: Ana Laura Barros

 

As encomendas já chegam de outros estados, mostrando como os povos indígenas vêm utilizando ferramentas digitais para fortalecer os próprios negócios sem abandonar os conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.

 

A relação entre empreendedorismo e autonomia feminina também aparece no relato de Márcia Karitiana. Além de garantir renda para a família, ela afirma que o trabalho artesanal serve de incentivo para outras mulheres indígenas. “Dou exemplo para as meninas que estão na aldeia”, diz a artesã, acrescentando que a produção continua sendo feita dentro da aldeia, onde sementes, fibras naturais e outros materiais são coletados e transformados manualmente em peças levadas posteriormente para venda nos espaços urbanos.

 

O crescimento da procura por artesanato indígena também é percebido por Márcia Karitiana. “O aumento sobre as vendas foi substancial nos últimos anos”, declarou. Em períodos turísticos e durante eventos culturais realizados na capital, a movimentação de visitantes contribui diretamente para o aumento das vendas. O complexo Madeira-Mamoré, considerado um dos principais pontos turísticos e culturais de Porto Velho, reúne feiras, apresentações culturais e circulação constante de turistas.

 

O coordenador da Feira do Sol, realizada no espaço da Estrada de Ferro MadeiraMamoré, Francisco Leilson, explica que o local se tornou referência para artesãos da cidade desde a criação da feira, em 2011. “A gente se nivela aqui pela economia solidária. É assim que a gente sobrevive”, afirma.

 

Segundo Leilson, muitos artesãos utilizam as redes sociais como ferramenta de divulgação e vendas, fortalecendo o empreendedorismo local e criando novas possibilidadesde comercialização para além da capital rondoniense. Atualmente, a feira mantém um perfil coletivo no Instagram para divulgar o trabalho dos participantes.

 

Mesmo com o crescimento da valorização do artesanato indígena, muitos profissionais ainda enfrentam dificuldades para transformar a atividade em um negócio estruturado. Grande parte atua de forma informal e sem acesso contínuo à capacitações sobre gestão financeira, precificação e comercialização.

 

Tanto Luan Migueleno quanto Márcia Karitiana afirmaram nunca ter participado de cursos voltados ao empreendedorismo nem recebido apoio institucional direto para desenvolver os próprios negócios.

 

Brincos e colares de miçangas coloridas expressam grafismos, referências à fauna amazônica e características culturais dos povos originários - Foto: Ana Laura Barros

 

A realidade enfrentada pelos artesãos indígenas acompanha um cenário nacional. Em 2026, o Governo Federal anunciou um pacote de R$ 28 milhões para fortalecer o setor artesanal brasileiro, reconhecendo desafios históricos como informalidade, dificuldade de acesso ao mercado, logística e ausência de políticas públicas contínuas para trabalhadores da economia criativa.

 

Dados do Ministério da Cultura e do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – apontam que o setor cultural brasileiro reúne cerca de 5,9 milhões de trabalhadores e movimenta aproximadamente R$ 387,9 bilhões na economia nacional. Dentro desse cenário, o artesanato ocupa papel importante na geração de renda e fortalecimento de pequenos negócios.

 

Pesquisas desenvolvidas pela Unir – Universidade Federal de Rondônia – apontam que o artesanato indígena deixou de ser apenas uma prática cultural restrita às aldeias e passou a ocupar papel importante na inserção econômica e social de mulheres indígenas. Os estudos também destacam a necessidade de maior acesso a políticas públicas, incentivo à comercialização e capacitações voltadas aos artesãos indígenas.

 

A ausência de suporte contínuo evidencia os desafios enfrentados por comunidades indígenas que buscam empreender mantendo viva a própria cultura. Ainda assim, muitos seguem encontrando no artesanato uma forma de fortalecer a identidade cultural, ampliar a renda familiar e ocupar novos espaços econômicos. “Se eu quiser abrir uma loja própria para mim, também posso”, afirma Márcia ao falar sobre os planos para o futuro.

 

Entre sementes, grafismos ancestrais e peças produzidas manualmente, povos indígenas de Rondônia transformam tradição em sustento, autonomia e permanência cultural. Em meio aos desafios da informalidade e da busca por reconhecimento, o artesanato segue atravessando gerações. Agora não apenas como símbolo de identidade, mas também como caminho para ocupar espaços econômicos historicamente negados aos povos originários da Amazônia.

 

 

* Ana Laura Barros e Tais Oliveira são acadêmicas de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia e produziram esta matéria como requisito para aprovação na disciplina de Jornalismo Impresso, sob responsabilidade do professor Marcus Fernando Fiori

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