O filme “O Bar Luva Dourada” (Der goldene Handschuh/2019) não é um filme de terror, mas um drama biográfico de um recorte da história real do assassino em série Fritz Honka, que, entre os anos de 1970 e 1975, matou quatro mulheres, num dos casos de registro de crimes hediondos mais marcantes que ocorreram na Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial.
Eu assisti a esse filme sem muita expectativa, porém é uma obra-prima visualmente. Tecnicamente, é irrepreensível em reproduzir uma localidade da Alemanha nos anos 70 e recriar os prédios e o apartamento em que morava Fritz, vivido de forma brilhante pelo ator Jonas Dassler — que fez um trabalho físico impressionante, com o corpo curvado e uma maquiagem pesada no rosto, que acentua os traços disformes de detalhes como nariz e olhos.
O diretor e roteirista Fatih Akin, de ascendência turca, tem uma vasta experiência em realizar filmes com temáticas fortes e se consagrou com a trilogia “Amor, Morte e Diabo” — realizando os filmes “Contra a Parede” (Gegen die Wand/2004), premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, “Do Outro Lado” (Auf der anderen Seite/2007), que rendeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes, e “O Corte” (The Cut/2014).
Akin teve como base para fazer “O Bar Luva Dourada” o livro homônimo de Heinz Strunk, que retrata com detalhes a vida miserável de Fritz, que divide o seu tempo entre o trabalho manual em uma espécie de serralheria e a frequência a um bar de prostitutas e velhos alcoólatras, considerado um refúgio decadente e que nunca fecha, com notória presença de pessoas consideradas marginalizadas pela comunidade nesse período.
O filme não poupa sujeira, sequências cruas e decadentes envolvendo o personagem de Honka com mulheres mais velhas, feias e gordas, meretrizes que fazem programas em troca de bebidas ou de um troco que lhes pague ao menos um sanduíche. A direção de arte dessa produção é um achado ao compor cenários com detalhes de móveis velhos, decoração vintage e um aparato de objetos de cena datados — como um velho toca-discos, por exemplo, ou um fogão numa cozinha superapertada.
Boa parte do filme se passa no apartamento do assassino, e as imagens, como planos-sequência, takes e tomadas, utilizam planos extensos ou curtos, que expõem uma perspectiva de agonia e incômodo permanente, ao mostrar as relações que ocorrem naquele espaço. O diretor intensifica a ação dos crimes com brutalidade e violência no envolvimento e na misoginia latente de Fritz, sem poupar detalhes gráficos e uma sincronia bruta entre os atores em cena.
Além de cometer os assassinatos, Fritz tinha o seu método pouco ortodoxo de se livrar dos corpos, a ponto de transformar o seu espaço de moradia num abatedouro involuntário, quando ele se dispõe a utilizar um compartimento escondido na sala como esconderijo. Justamente esse refúgio vai denunciá-lo posteriormente.
É uma história de choque e impacto que, não digo um estudo de caso, mas, ao somar as graves deformidades físicas de Fritz Honka com seus problemas de fala e o alcoolismo, usando o bar como ponto de referência para sua busca de diversão ou desestresse da vida canhestra que leva, permite verificar que ele sente total desprezo pelas mulheres — mesmo se sentindo atraído por adolescentes — e culmina numa apatia pela vida, sem sentido algum.
O filme tem uma sequência final de gelar a espinha, quando ele percebe uma adolescente por quem criou interesse e começa a segui-la pelas ruas e becos.
Não vou dar spoilers, mas assista. “O Bar Luva Dourada” é uma produção esmerada em retratar fielmente a força negativa desse homem violento, por isso mesmo é um filme para poucos, mas, para cinéfilos ou para quem gosta de um bom cinema e de uma grande referência de pré-produção, indico muito.
O filme está disponível no catálogo do serviço de streaming Prime Video.