Alguns episódios tem reviravoltas previsíveis, mas são executadas de uma forma tão surpreendente que te deixam vidrados
Foto: Divulgação
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Nos tempos em que vivemos atualmente com um grau alto de violência contra a mulher; solteiras ou casadas, que vivem ou tiveram um relacionamento tóxico com homens que ultrapassam o limite do bom senso e querem exercer o domínio absoluto sobre suas companheiras, a série “Você” (You) que está disponível na Netflix, explicita muito bem as variáveis de um stalker, uma espécie de vigilante das redes sociais, que comete as maiores loucuras por uma paixão não correspondida ou pelo simples interesse de querer fazer parte da vida de uma mulher que o ignora.
“Você” é a série total antítese do romantismo por trazer algo novo e feito de forma excepcional na sua primeira temporada - mostrando a psicopatia de um homem incomum diante de um objeto desejo que parece intocável.
Foi um estrondoso sucesso quando foi lançada em dezembro de 2018 pela Netflix e teve cinco temporadas e, infelizmente, não soube terminar bem em sua última temporada, encerrada em abril de 2025.
Foi muito bem na segunda temporada, com boas reviravoltas e um final inesperado. Depois, a partir da terceira temporada, entrou no mesmo processo de repetição da premissa que foi deixando a série mais cansativa e errática.
No entanto a primeira temporada é ótima e deixo como dica. Se fechar só com ela, já é um prato cheio de diversão e entretenimento.
Baseada no livro de mesmo nome da escritora Caroline Kepnes (2014), a série é dramática e de cunho psicológico por excelência e consegue prender do início ao fim - são dez episódios - na história de um atendente de livraria, Joe Goldberg (o ótimo Penn Badgley, muito lembrado pela série "The Gossip Girl") , que conhece uma aspirante a escritora, Guinevere Beck (Elizabeth Lail), e acaba se apaixonando por ela e a transforma numa obsessão fora do comum.
A série dá asas de forma contundente sobre o "stalker", pessoas possessivas e que utilizam todos os meios para saber ou estar presente na vida de uma pessoa que ela ama de uma forma nada ortodoxa. No caso de Joe ele utiliza as redes sociais, amizades, vigia a casa de Beck, tudo para ele traçar um perfil psicológico da mulher que ele acredita ser o grande amor de sua vida.
Daí vem a quebra de narrativa e que te pega pelo pescoço, a forma como Joe invade a privacidade de Beck sem ela perceber e a forma como manipula sua ações tentando trazer sua atenção para ele. Ao mesmo tempo Joe ajuda um garoto chamado Paco, que mora no mesmo prédio que ele e é seu vizinho. A mãe de Paco, que é enfermeira e viciada em drogas, sofre abusos de um agente penal machista e escroto. Joe empresta livros clássicos da livraria para que ele tenha um alento quando é obrigado a se isolar devido as constantes brigas de sua mãe com o namorado.

Nos dez episódios da primeira temporada Joe lida com essas duas situações e que a cada episódio ganha dimensões de dramaticidade onde ele protagoniza as ações com a obsessão que mostra a figura extremamente manipuladora e inteligente que é. Quando ele assume o celular de Beck e tem acesso as suas conversas íntimas, inclusive on line, Joe trilha um caminho sem volta ao querer tirar da vida dela as pessoas tóxicas que acredita ser empecilhos para que possa viver a sua história de amor.
Alguns episódios tem reviravoltas previsíveis, mas são executadas de uma forma tão surpreendente que te deixam vidrados.
Essa fixação doentia de Joe acaba levando nós, espectadores, a acompanhar sua obsessiva guerra particular na busca da felicidade sem poupar elementos de perversão - quando ele mantém um dos peguetes de Beck, o empresário fitness Benji, preso e confuso no porão da livraria até um final macabro.
O interessante é que os pensamentos e ideias de Joe são narrados em off e então nos identificamos com as suas emoções, medo e premissa, até mesmo quando ele age de forma espontânea.

O roteiro integra a personagem de Beck de forma suave, porém muito humana, com as suas falhas evidentes, sua luta e o fato de ser tão dada a uma de suas amigas ricas e que odeia Joe quando ele entra na sua vida.
A série cria núcleos que dão o suporte a toda a trama, como o ajudante de Joe na livraria, as amigas fúteis de Beck, um terapeuta oportuno, a tia de Paco - que vai entrar na vida de Joe de forma inesperada -, a ex-namorada de Joe, Candece, que sumiu na Europa, e até um detetive.
Agora imagine tudo isso sendo conduzido da forma como se fosse um filme de suspense, onde a cada episódio deixa ganchos a serem fechados nos próximos ou vai criando uma expectativa para o final, com um crescendo de tirar o fôlego até desembocar nos dois últimos episódios que são incríveis.
Se recomendo? Sim, muito. Se você gosta de uma ótima história, com diálogos muito bem escritos - algumas frases da justificativa do amor obsessivo de Joe são inesquecíveis -, elenco incrível e muito, muito suspense "Você" é uma ótima opção.
Uma curiosidade ainda sobre o sucesso estrondoso da primeira temporada de “Você” é que a sua repercussão midiática se deve principalmente ao poder da Netflix. A série é uma produção da divisão Warner Television, que tem suas produções lançadas no canal da TV paga Lifetime onde estreou no dia 9 de setembro de 2018, e foi reexibida depois no streaming, justo pela Netflix em dezembro do mesmo ano. Para ter uma ideia, a empresa conseguiu bater um recorde na sua transmissão atingindo na primeira semana 43 milhões de pessoas. Ancorada pelo sucesso de crítica e devida a grande repercussão positiva, a Lifetime anunciou que “Você” havia sido renovada para uma segunda temporada, seguindo a adaptação do livro continuação da escritora Caroline Kepnes, “Hidden Bodies”. No finalzinho de 2018 foi anunciado que a série mudaria para o catálogo do serviço de streaming em definitivo como um produto de título Original Netflix e assim permaneceu até a quinta e última temporada.
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