No centro de Anadia, há um espaço de suspiros e memórias. Não podemos tratar apenas como mais um espaço de convivência comum, porque vai além da liga do cimento com areia, pilares torneados, de tijolos assentados e pedras apiladas na praça Doutor Campelo de Almeida. Na verdade, talvez só quem viveu ali saiba: há um pequeno coreto no coração da cidade abraçado pelo tempo. Ele já viu de tudo: festas e desavenças, encontros e desencontros, orações e despedidas – e, sobretudo, risos.
Veroneide — ou simplesmente Vera, como deve ter sido chamada incontáveis vezes naquele pedaço de chão — sentava ali com as irmãs Neide e Ana Paula, as amigas, Eliane, Rosirene e Marise, garantia de muitas risadas e um futuro por inventar. Lembrou que era janeiro, o ano não sabe precisar, mas poderia ser ontem na lembrança. Quem tirou a foto foi Osvaldo, amigo de infância e, segundo ela, cheio de gracinhas. Devia ter contado alguma piada no momento exato do clique, e registrou a imagem congelada de risos sinceros, desses que nascem de bons momentos e se eternizam para sempre.
Quando perguntei novamente sobre o ano, Vera hesitou. Disse, com um riso tímido, que é ruim para guardar datas, “coisas da idade”, brincou. Mas logo se lembrou de Eliane: “Ela deve saber, é melhor com datas.” Se apressou em mandar a foto para a amiga, perguntando o ano, e não deu outra — era janeiro de 1990, em pleno festejo de Nossa Senhora da Piedade, padroeira da cidade, a recordação veio pelo corte de cabelo, marcou a ida à praia. De 24 de janeiro a 2 de fevereiro, Anadia se transformava.
As novenas reuniam os devotos e, depois da missa, a praça virava outro santuário — desta vez da amizade, da música e dos reencontros. Era ali que o amor acontecia em olhares e recadinhos trocados, onde as amizades matavam a saudade em conversas demoradas, onde a alegria parecia grande demais para caber num só coração. Aquele chão era sagrado porque guardava a juventude de cada um.
Vera morava perto da praça, e o coreto era mais que um ponto de encontro. Era uma extensão da casa. Os amigos se reuniam ali antes de ir à escola e voltavam depois da aula para repetir a dose de riso, de uma liberdade sem pressão e da adolescência leve. Nos fins de semana, o ritual era o mesmo: sentar no coreto ou nos bancos, tomar sorvete, bater papo, paquerar. Era uma rotina feliz, “A cidade era mais cheia”, ela diz com a voz carregada de saudade. Não apenas da idade ou da despreocupação, mas das amizades que o tempo espalhou pelo mundo. E talvez estivesse falando também de si mesma.
Vera é professora, ensina crianças pequenas. Talvez nunca tenha contado a elas sobre essa foto, esse coreto, esse tempo encantado, de tantas amigas, de suas irmãs, ou até se inspire e conte em alguma manhã de aula. E de uma cidade que, por alguns anos, foi cheia de tudo: de gente, de risos, de futuro.
E quem ouvir essa história, saberá que não é só uma fotografia, um sorriso paralisado num clique. É um pedaço de vida que se recusa a passar, pois o coreto ainda está no mesmo lugar.
* Crônica escrita a partir de relatos de registros fotográficos de Veroneide Alves da Silva, 57 anos, professora, em entrevista concedida no dia 26 de maio de 2025.
** Aluna do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
As fotografias fazem parte do acervo pessoal da entrevistada.