Em uma cena inesquecível e catártica, um personagem em absoluta loucura sussurra “full metal jacket”. Exatamente o título original em inglês do filme — que é um termo militar para um tipo de bala (projétil), com um interior de chumbo envolto por uma capa de metal duro — cobre ou latão —, o tipo de munição comum e utilizada pelos soldados norte-americanos no confronto bélico nas selvas vietnamitas.
A cena em particular encerra o primeiro terço do filme “Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket/1987). Esse é o filme que o diretor Stanley Kubrick — genial cineasta de obras-primas como “Glória Feita de Sangue”, “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “Laranja Mecânica” e “O Iluminado” — quis fazer, retomando o tema de retratar uma guerra. Produção inglesa, que teve o roteiro assinado por ele, Michael Herr e Gustav Hasford, baseado no livro de Hasford, “The Short-Timers”, de 1979, mas que na adaptação acabou recebendo o título retirado de uma frase de diálogo citada no início do texto. Kubrick achou que o público se identificaria mais.
Essa seria a ótica visionária do diretor sobre a loucura que foi a guerra do Vietnã dentro do cerne da batalha e como isso afetou os soldados. É uma perspectiva diferente do que foi mostrado, por exemplo, no grande filme de Oliver Stone, “Platoon” (1986), mais realista e crítico. Porém, Kubrick não ameniza nem pinta de forma colorida o massacre étnico e descabido das ações dos soldados no front, ao lidar com a adversidade de enfrentar um inimigo simplório, porém não menos letal e resistente. É esse o retrato quase alegórico, principalmente nos 30 minutos iniciais do filme.
Um grupo de novos recrutas chega ao campo de treinamento da Marinha da Carolina do Sul, onde vão ser treinados de forma dura pelo especialista instrutor escroto Hartman (com o ator Lee Ermey perfeito, até porque ele foi militar e instrutor na vida real), com dois personagens se destacando nesse pelotão: Joker (Matthew Modine, muito bem) e o gordo e desajeitado Pyle (Vincent D’Onofrio, impressionante).
Nesse terço inicial, vamos acompanhar de forma até leve como o treinamento dos soldados é duro, com momentos bem-humorados e outros tensos, principalmente quando envolvem Pyle, que vive desafiando o bom senso de Hartman, que não gosta dele e o pune a todo momento, até que Joker é colocado para ser seu parceiro e tentar melhorar o seu desempenho entre os comandados. Mas isso tem um preço alto, quando Pyle, em determinado momento, absorve os maus-tratos e logo sua psique o transforma em um soldado melhor — mas a que preço?
No segundo momento, logo após o treinamento, vamos acompanhar Joker, que, além de ser um soldado no front, é também jornalista e correspondente de guerra na cidade vietnamita de Da Nang, no Vietnã do Sul, publicando matérias no jornal “Stars and Stripes”, com o auxílio de um recruta de primeira classe, identificado como “Rafterman”.
Nessa sua jornada na frente de batalha, Joker vai vendo o horror que essa guerra causa entre as pessoas de sua convivência, colegas de baixa patente e outros superiores, principalmente na brutalidade das decisões no confronto ou na relação com as pessoas nativas da região.
Quando ele resolve acompanhar uma patrulha para resgatar alguns soldados em um local com edificações destruídas por bombardeios, um misterioso sniper ataca. Essa é uma das sequências mais espetaculares do filme. Kubrick cria uma tensão em câmera lenta, com tomadas milimetricamente pontuais em meio a um tiroteio impactante.
Uma pena que, quando o filme foi lançado, na época, não tenha recebido boas críticas. Alguns críticos acharam o filme alegórico, por ter sido 100% filmado na Inglaterra — o diretor rodou em locações de Cambridgeshire, Norfolk Broads e no antigo Millennium Mills, em Newham (leste de Londres) —, sem ser um ambiente similar ao do Vietnã, como se isso o afastasse da realidade da guerra e dos percalços do combate entre militares e vietnamitas.
Porém, é justamente o tratamento visual exigente do diretor, com sua fotografia detalhista na composição e marcação de cenas, que cria sequências sufocantes e inesperadas, como a revelação do atirador (sniper) misterioso ou quando o filme caminha para o terço final e constrói uma inusitada sequência de encerramento absolutamente brilhante, com todos cantando a música-tema do programa “Clube do Mickey”, como referência clara à busca da inocência infantil diante de uma tragédia vívida e iminente.
“Nascido Para Matar” está disponível no catálogo do serviço de streaming da HBO Max e também da Prime Video. Considero um dos melhores filmes de guerra sobre o Vietnã, ao lado de “Platoon” e do poderoso “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Coppola. Filmaço!!!