FOUND FOOTAGE: Os filmes verdades que são mentirosos e alguns ruins - Por Marcos Souza

FOUND FOOTAGE: Os filmes verdades que são mentirosos e alguns ruins - Por Marcos Souza

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Sim, o found footage (em tradução literal: "filmagem encontrada") é um subgênero dos filmes de terror onde a narrativa é apresentada como se fosse um material real, amador ou de segurança, descoberto após os personagens desaparecerem ou morrerem. Caracteriza-se pela câmera na mão, baixa qualidade de imagem e alto realismo. 
 
Escrito isso é o chamado, dentro da proposta ficcional, um filme “verdade” mas que é “mentiroso” - feito para enganar o espectador - consciente óbvio que é ficção - como é mostrado na tela. 
 
Exemplos clássicos são: “A Bruxa de Blair” (1999) e “Atividade Paranormal” (2007) que deram sustentação para esse subgênero, que cresceu muito no quantitativo de filmes com essa proposta. Ainda no ano de lançamento de “Atividade Paranormal”, um outro filme nesse estilo, pra mim, talvez o melhor foi o espanhol “REC”, dos diretores Paco Plaza e Jaume Balagueró.
 
Mas, porém, esse subgênero tem se caracterizado nos últimos tempos com muitos filmes de qualidade duvidosa, muitas vezes de forma amadora e sem sentido na história. Tem diretores que acham que colocar alguns personagens correndo numa casa assombrada com câmeras nas mãos e a edição com cortes secos são ingredientes suficientes para fazer o dever de casa. Não são.
 
Esse é um tema que rende muitas outras análises críticas, mas vou me ater as dicas do final de semana com três recomendações, duas negativas e uma positiva.
 
Siga o fio e aproveite. Recomendação, assista na sala escura, o efeito é bem melhor.
 
Para efeito imediato, nos filmes que considerei ruins, os dois primeiros abaixo - dei alguns spoilers. O terceiro filme comentado, não, é o melhor.
 
***
 
A GRANDE CAÇADA - Acredite fizeram um filme de terror estilo documental em found footage - quando os protagonistas se filmam ou são filmados de forma amadora - sobre o famoso monstro "Pé Grande".
 
"A Grande Caçada" (Hunting the legend/2014).
 
O filme veio na rasteira do clássico "A Bruxa de Blair" (1999) e é dirigido por Justin Steeley - por sinal, um dos jovens protagonistas. Todo o elenco usa os verdadeiros nomes - ou conceberam dessa forma para divulgar o filme como sendo real.
 
Há cinco anos um experiente caçador desapareceu nas florestas do Alabama, deixando para trás apenas um rifle, manchas de sangue e uma enorme pegada do que seria uma criatura muito grande e sem registro pela ciência. O seu único filho, Chris, obcecado por essa tragédia quer provar a existência do "Pé Grande" e se vingar. Para isso ele quer fazer um documentário mostrando a sua busca e registrar pela primeira vez uma criatura considerada lenda,
 
Ele então convence a namorada e seu melhor amigo a irem a caçada da criatura na floresta onde seu pai desapareceu e contrata uma equipe de documentaristas - dois jovens, entre eles o que é creditado como diretor do filme - para acompanhar a aventura e se preparam para descobrir a verdade.
 
Ele compra duas armas, aluga uma cadela de caça, e próximo a floresta entrevista moradores no entorno para saber mais a respeito da existência do "Pé Grande". Depois sem querer conhece um estranho homem que mora na floresta e conta da existência real da criatura e mostra duas fotos.
 
A equipe então vai para o meio da floresta montar acampamento e iniciar a caça.
 
Bom, aí esqueceram que tinham que contar uma história. Mas são cenas entrecortadas por correria dentro da mata, discussões, conflitos dispensáveis e a namorada do Cris em alguns momentos tem ataque de histerismo... Chata demais.
 
O filme tem furos bestas. Por exemplo: na escuridão do acampamento, só com uma fogueira, com todos os barulhos estranhos em volta da mata, o Cris diz para a namorada em um momento: "é só um castor". Sendo que um dia antes os dois estavam assustados com um barulho idêntico, não enxergando um palmo diante do nariz com o breu.
 
Em alguns momentos eles encontram coelhos escalpelados pendurados em árvores, como iscas. Ou desconfiam que não estão só na mata, mas nunca acham nada, só indícios.
 
Por fim, faltando 15 minutos para acabar o filme acabam encontrando uma mulher seminua (de calcinha e sutiã) pendurada de cabeça para baixo numa árvore - igual as iscas de coelho - e tem início a uma correria, pois o grupo apavorado se separa correndo cada um para um lado.
 
Barulhos estranhos, grunhidos, e até o depoimento do diretor do filme, em pânico debaixo de uma árvore e segurando uma câmera tenta mostrar que de fato o Pé Grande existe.
 
O final do filme é o óbvio.
 
A única cena do monstro é uma sombra metrequefe passando por trás de uma árvore capturada com câmera com visão noturna. Praticamente todos desaparecem e não se explica como acharam as imagens e câmeras e muito menos o que foi que eu assisti.
 
Monga, a mulher macaco, me assustou muito mais.
 
O filme está disponível no catálogo da Prime Vídeo.
 
 
 
THE TUNNEL - Em 2011 fizeram um versão de "A Bruxa de Blair" nos subterrâneos do metrô em Sidney, na Austrália, o filme se chama "The Tunnel" e está disponível legendado no YouTube.
 
É um mockumentary (falso documentário) em que a polícia australiana libera os vídeos feitos por uma equipe de TV nos subterrâneos de uma estação de metrô para fazer um reportagem numa obra paralisada pelo governo em que se gastou uma fortuna, porém eles não sabem que no local tem uma criatura estranha e carnívora.
 
A equipe é formada por uma famosa repórter, um cinegrafista, um operador de áudio e um produtor.
Eles são atacados, descobrem que no lugar que estão é formado por extensos e estreitos corredores e compartimentos que não levam a lugar algum. Entram em pânico enquanto são caçados.
 
Feito no estilo found footage - eles mesmos filmam todo o drama que passam.
 
Resumo: em "A Bruxa de Blair" somos enganados com um horror sugerido e alimentado pela crise dos protagonistas e no fim não aparece bruxa nenhuma. Aqui em "The Tunnel" quase segue a risca o clássico de 1999, com uma diferença, a criatura aparece em alguns momentos, mas não se define do que se trata. Como tudo é feito no escuro, ficam borrões e manchas com olhos registrados em frames.
 
É ruim? Não, mas não é bom também. Pelo menos tem aquela aflição de perseguição e terror. Mas a criatura... Tenha dó. 
 
O povo quer fazer filme barato dá nisso.
 
 
 
HOST - Em 2020, no auge da pandemia, um filme feito de forma caseira e com bons atores, que mitura found footage e screenlife (ou desktop movie - pois utiliza recurso de tela de monitores de PC, notebook ou celulares na história e interação dos personagens) se tornou um clássico instântaneo e é assustador.
 
O filme feito por uma equipe britânica, dirigido, escrito e produzido por Rob Savage é um achado e reassistindo, continua perturbador.
 
A produção britânica foi filmada 100% durante a quarentena e foi feita inteiramente em videochamadas pelo Zoom. Lançado pelo serviço de streaming Shudder, também já é possível encontrar no Youtube e está disponível no catálogo da Netflix.
 
É um filme curto, com 57 minutos e é apavorante para quem curte o gênero.
 
A ideia, segundo o produtor Rob Savage, surgiu de uma brincadeira com um grupo de amigos que estava em videoconferência, ele disse que ouviu um barulho no sótão da sua casa e pediu para os amigos acompanharem enquanto ele investigava e fez um "jumpscares" que acabou assustando a todos. Ele compartilhou no Twitter e viralizou.
 
"Jumpscares" é o susto surpresa que faz você dar um pulo.
 
A ideia foi tão bem aceita que um estúdio pediu para ele bolar um filme. Em 12 semanas, Savage escreveu um roteiro simples e reuniu atores, ensaiou um por um e preparou o apartamento de cada um para as cenas tensas que havia bolado. E, incrível, ele ensaiou e dirigiu a todos sem sair de casa, só por vídeoconferência.
 
O filme depois passou por uma pós-produção, para editar, colocar efeito especiais e renderizar.
Dentro dos protocolos de segurança e prevenção da pandemia ele conseguiu fazer o filme, o primeiro a ser feito e lançado dessa forma.
 
O filme mostra um grupo de seis amigos - cinco mulheres e um homem - que estão com tédio nesse período de reclusão social e uma das garotas combina com todos - através de videoconferência - uma sessão virtual com uma sensitiva que vai convocar espíritos, com uma advertência, todos tem que levar a sério.
 
Algumas das meninas tem medo, uma ou outra não consegue levar a sério e tira onda, o homem diz então que se fosse para convocar alguém seria o seu falecido irmão, que vivia sacaneando, mas ele acaba saindo logo no início por causa da esposa e volta depois.
 
Então a sensitiva entra na conversa e relata para as que ficaram como vai funcionar e pede que todas acendam uma vela na hora da convocação.
 
Porém uma delas que disse que convocaria um tal de Jack, acaba ficando em transe até revelar que era uma brincadeira. A sensitiva perde o sinal da internet e as garotas ficam na expectativa de algo acontecer. Quando a sensitiva volta ela alerta que não se pode convocar alguém inventado em uma brincadeira, como o tal Jack, pois você pode trazer um falso espírito - um demônio.
 
Então a sensitiva perde o sinal da internet de vez e as moças começam a perceber que coisas estranhas passam a acontecer com cada uma delas em sua casa, em volta delas. Objetos que são arremessados, barulhos, vultos que surgem como paredolia ao fundo.
 
Elas resolvem permanecer conectadas para tentar uma ajudar a outra, mas a situação vai piorando e o que era estranho e oculto tem proporções assustadoras, sendo que cada uma delas sofre consequências apavorantes.
 
O filme lembra muito o bom "Amizade desfeita", filme todo mostrado em vídeoconferência, mas aqui o impacto é maior, pois o elenco é incrível, a sintonia dos atores é perfeita como de fato todos fossem amigos de longa data, a interação, caras e bocas, tudo bem ensaiado e redondinho, por isso é fácil se afeiçoar.
 
Filme rápido, inteligente, muito bem feito e perfeito para se assistir no escuro do quarto. Para fãs do gênero é um achado. Se permita a essa experiência e tanto.
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