COMO É JOGAR UMA COPA DO MUNDO? Ex-jogadores revelam os bastidores do maior torneio do planeta

Mas você sabe como é a rotina lá? E se, ao invés de acordar e se arrumar para assistir ao jogo, você acordasse e se arrumasse para jogar?

COMO É JOGAR UMA COPA DO MUNDO? Ex-jogadores revelam os bastidores do maior torneio do planeta

Foto: Reprodução

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No próximo dia 13 de junho, sábado, milhões de brasileiros irão cumprir uma rotina típica de Copa do Mundo: acordar cedo, trabalhar (se precisar), arrumar a casa ou já sair para assistir ao jogo do Brasil.

É assim de quatro em quatro anos, com viagens, idas a casas de amigos ou simplesmente da sala para a cozinha. Sobre isso, nós já sabemos.

Mas você sabe como é a rotina lá? E se, ao invés de acordar e se arrumar para assistir ao jogo, você acordasse e se arrumasse para jogar?

Como jornalista e torcedor, é impossível responder a essa pergunta. Por isso, a Estadio Totalfoi atrás de quem realmente sabe: os jogadores.

Entrevistamos nomes importantes para as suas seleções, que jogaram — e até ganharam — uma Copa do Mundo. São eles:

  • Carlos Germano: ex-goleiro de Vasco da Gama, Santos, Internacional e Botafogo. Jogou a Copa do Mundo de 1998 pelo Brasil;
  • Edilson Capetinha:ex-atacante e ídolo do Corinthians. Jogou a Copa de 2002, sendo campeão do mundo pela Seleção Brasileira;
  • Ricardo Rocha: ex-zagueiro com passagens por São Paulo, Real Madrid, Santos e Vasco da Gama. Jogou as Copas de 1990 e 1994, sendo campeão mundial em 1994;
  • Silas: ex-jogador de São Paulo e Vasco da Gama. Jogou as Copas de 1986 e 1990;
  • Luigi Apolloni: ex-jogador do Parma. Jogou a Copa de 1994 pela Itália.

Nós fizemos perguntas sobre como é jogar uma Copa do Mundo. Bora?

O começo de tudo: a convocação

Como vimos no anúncio dos 26 convocados da Seleção Brasileira (com muita festa), a Copa do Mundo começa bem antes da bola rolar.

O jogador já entra no clima de Copa do Mundo quando seu nome aparece na convocação. A resposta dos jogadores é quase a mesma: a realização de um sonho.

“Jogar uma Copa do Mundo é algo extraordinário e maravilhoso, porque representa, para mim, a coroação de muitos sacrifícios feitos por um garoto que começou a jogar apenas por diversão e que depois se tornou profissional. Por meio do clube, chegar a um evento único e extraordinário como a Copa do Mundo é muito especial. É uma jornada extraordinária”, citou o italiano Luigi Apolloni.

Não há um levantamento específico, mas, somando dados, podemos pensar que algo próximo de 20 mil brasileiros jogam futebol profissionalmente. O treinador da seleção escolhe 26 jogadores (a partir de 2022; antes, eram menos).

E isso acontece a cada quatro anos. Então, pense que, neste século, com sete Copas do Mundo, pouco mais de 140 profissionais de cada nacionalidade tiveram a chance de disputar o torneio.

“A minha alegria foi imensa. Qualquer jogador gostaria de jogar na seleção do seu país. Eu tive a sorte de jogar duas copas, a de 90 e a de 94”, conta o campeão do mundo, Ricardo Rocha.

É o filtro do filtro.

“É o maior sonho de um jogador de futebol. A alegria é imensa. É a realização do sonho maior. Poder representar o seu país em uma Copa do Mundo é uma emoção indescritível”, cita Carlos Germano.

Quando o torneio começa: o que acontece lá?

Quem já viajou a trabalho tem uma boa noção do que é estar fora de casa para desempenhar suas funções normais do dia a dia.

Mas será que a Copa do Mundo exige apenas as funções normais do dia a dia? Para os jogadores, sim.

Apesar de toda a magia de realizar o sonho de jogar uma Copa do Mundo, a rotina do torneio não é muito diferente daquela à qual esses profissionais já estão acostumados.

“A rotina é a mesma: treino, descanso, jogo e viagens. Porém, com uma intensidade e uma visibilidade muito maior. Seguimos horários de alimentação, descanso, palestras”, cita Germano.

“Segue tudo o que já é feito pelo clube. Os treinamentos são planejados pelo treinador para que você chegue preparado para a competição. Além disso, há toda a orientação médica e a alimentação adequada preparada o tempo todo por profissionais capacitados”, cita Apolloni.

“O dia a dia é normal, como em um time de campeonato. Alimentação, treino, descanso, mais treino… E, às vezes, vídeos sobre o adversário. Lanche à noite e mais descanso”, comenta Silas.

Segundo o campeão do mundo Edilson, o staff de profissionais da seleção costuma ser muito competente na manutenção do elenco.

“O dia a dia é maravilhoso. A gente se alimenta bem, tem acompanhamento diário, preparação física, fisiologia, psicológico. Ali dentro, você está junto com os jogadores e forma uma família. O ambiente é muito legal e temos todas as condições para entregar o melhor possível no campo”, comenta Edilson.

Mas e as críticas, os jornais e o “hate”? Silas explicou que o jogador tem tempo, sim, para ver o que se fala sobre ele, além de conversar com os próprios amigos.

 

“Na concentração se vê as notícias, há tempo para a leitura e resenha também”, cita o ex-jogador de duas Copas do Mundo.

 

Dá tempo de curtir o país? O jogador como um simples turista

 

É bem comum que o jogador esteja disputando a Copa em um país em que não mora. Porém, será que, com toda a concentração, é possível aproveitar a estadia também como um turista especial?

 

“Você tem algumas folgas que você curte com a família, faz um turismo pelo país. Mas não dá para ir muito longe, não, porque as folgas são muito curtas. Tem, sim, como conciliar as duas coisas, mas é 80% a 90% trabalhar e pensar em ser campeão. Em alguns momentos, dá para conciliar, sim”, cita o campeão de 1994, Ricardo Rocha.

 

“Lembro-me que, na Copa de 1994, o técnico nos deu algum tempo livre. Quem tinha esposa, noiva ou filhos passava esse tempo com a família. Quem não tinha podia passear pela cidade e relaxar um pouco, aliviando a pressão da competição”, cita Apolloni.

 

Portanto, a Copa do Mundo pode passar uma imagem de concentração total. Porém, é impossível para o ser humano manter isso o tempo todo. Todo mundo pode ter os seus momentos também.

 

“Nós não podemos perder o foco, mas temos um contato importante com a família. A família passa energia e força para a gente que está ali concentrado. A família é muito importante. Lógico que concentrado para o trabalho, até porque é uma oportunidade única, temos pouco tempo ali em busca de um objetivo. Nada de fora pode influenciar lá dentro”, cita Edilson.

 

Então, o que a Copa tem de diferente?

 

Todos os jogadores foram unânimes ao responder que o aspecto mais diferente da Copa é a escassez.

 

Pense em um jogador que atuou profissionalmente por 20 anos. Ele teve 20 competições nacionais, umas 20 copas nacionais, estaduais e intercontinentais. São ao menos 40 ou 50 chances de ganhar um título.

 

Já é estreito o filtro de quem vai para a Copa do Mundo. Muitos têm essa única chance.

 

“É de quatro em quatro anos. É muito difícil ganhar, já estamos há 24 anos sem o título. Não é mole, não. Eu até brinco que o mundo tem 8 bilhões de pessoas e, campeões do mundo, não tem 500. Se não me engano, o Brasil tem 62. É totalmente diferente. É o ápice do jogador de futebol”, cita Ricardo.

 

“A Copa do Mundo é a realização do sonho maior. É um campeonato muito curto. Na de 1998, que eu joguei, foram 7 jogos, incluindo a final. Então, não tem espaço para erro. Tem que estar focado e muito bem preparado, no ápice da forma física e da técnica, com concentração total”, cita Carlos Germano.

 

 

Os momentos mágicos e as tragédias

 

Como qualquer outra coisa na vida, a Copa pode trazer grandes histórias ou grandes decepções.

 

Por isso, perguntamos aos jogadores sobre momentos mágicos e trágicos, investigando o que mais os impactou durante aquele torneio.

 

“O momento mais difícil é, sem dúvida, uma derrota. E o melhor é quando você ganha”, cita Silas.

 

Todos nós conhecemos a Copa de 1994 pelo prisma de quem comemorou a bola de Baggio viajando pelo estádio. Porém, nós conversamos também com alguém que estava do outro lado.

 

Luigi Apolloni relembrou a trajetória na Copa, marcada pela alegria de jogar e pela tristeza de ver o verde e amarelo correndo pelo estádio.

 

“A melhor lembrança foi a minha estreia. Ela aconteceu de forma inesperada, por conta da lesão do Baresi. O treinador confiou em mim e me escolheu para jogar. Fiquei extremamente feliz”, lembra Apolloni, complementando:

 

“Já a lembrança mais difícil foi ver o Brasil levantar a taça. Chegar à final e depois ver o título escapar foi, sem dúvida, o momento mais amargo”, completou o defensor italiano.

 

“O mais difícil é quando você perde um jogo, né? Na Copa de 2002 eu não tive esse sabor de perder um ‘jogozinho’ (sic). Ganhamos todos”, contrapõe Edilson.

 

“O momento mais feliz é quando você ganha uma Copa do Mundo. Dever cumprido. Você saiu com aquela missão de ser campeão e trazer alegria para o brasileiro. Você sai e consegue. É a melhor alegria do mundo”, cita Edilson.

 

Germano ainda falou sobre a alegria de ouvir o hino enquanto jogador.

 

“O momento mais mágico é quando você perfila e escuta o Hino Nacional. O mais difícil é a própria competição em si. Você tem que provar para o país e para o mundo que você é o melhor”, cita o goleiro do grupo de 1998.

 

 

O legado de uma Copa do Mundo

 

Ganhando ou não a Copa, os jogadores ressaltaram como o torneio consegue mudar a vida de quem disputa a competição.

 

“Muda tudo, você passa a estar entre os poucos jogadores que serviram a seleção de seu país. 1 em 1 milhão no mundo tem a chance de jogar uma Copa do Mundo”, cita Silas.

 

“Muda muito, o reconhecimento é mundial, principalmente 94, o torcedor tem muito carinho por essa seleção. Muda tudo, a gente sabe disso, são poucos vivos que têm esse título. Tenho orgulho de ser brasileiro, somos pentacampeões”, cita Ricardo Rocha.

Quem esteve no penta também citou o orgulho.

 

“Quando você joga e principalmente quando ganha, você é lembrado para o resto da vida. Não tem dinheiro que pague isso. Não tem dificuldades no futebol para um cara que sai com esse objetivo e consegue. Acho que ele mostra que as dificuldades que teve durante a vida foram prazerosas e foram válidas, porque o título de campeão mundial valida todo o esforço que você fez durante toda a carreira. É o topo de onde a gente pode chegar”, finaliza Edilson.

 

A Copa do Mundo parece pertencer totalmente aos torcedores, que acordam cedo, pintam o rosto e vestem a camisa. Porém, do outro lado da tela, há uma rotina muito diferente daquela que imaginamos.

 

Há treinos, reuniões, alimentação controlada, pressão, cobrança e a consciência de que aquela oportunidade talvez nunca volte. Para quem está dentro do torneio, a Copa não é apenas um espetáculo: é trabalho, responsabilidade e a busca por um sonho construído durante toda uma vida.

 

E talvez seja justamente isso que torna a competição tão especial. Enquanto bilhões de pessoas assistem aos jogos, apenas algumas centenas têm a chance de entrar em campo. Mais raro do que conquistar a taça é chegar até lá.

 

No fim das contas, a Copa do Mundo é muito mais do que noventa minutos de futebol. É o ponto de encontro entre o sonho de um garoto que começou brincando com uma bola e o maior palco que o esporte pode oferecer.

 

 

 

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