Eu me sentia sentada na base daquela estrutura apoiada apenas sobre um ponto frágil. Bastava um pequeno movimento e tudo parecia oscilar.
Assim era o jornalismo.
A busca permanente pela verdade. Descobrir onde estava a notícia. Aprender a desconfiar da primeira versão dos fatos. Entender que o principal vinha primeiro e as explicações depois.
Foram décadas sustentando esse equilíbrio delicado.
E, como se não bastasse, havia o tempo.
O velho e implacável deadline.
A audiência não esperava. O jornal precisava amanhecer sobre a mesa. As horas tinham fome. Tudo precisava chegar antes do silêncio da próxima edição.
Sem perceber, acabei vivendo sob o domínio do relógio.
Hoje, às vezes, preciso dizer a mim mesma:
espere.
Você não precisa mais correr.
Não há mais hora para cumprir.
Não é mais necessário viver equilibrada sobre uma pirâmide de cabeça para baixo.
Mas certas coisas permanecem no sangue.
A necessidade de se expressar pelas palavras é uma delas.
Passei anos ouvindo. Ouvi o ruído das ruas, os que não tinham voz alguma e também aqueles cuja voz já ocupava espaço demais no mundo. Aprendi que toda cidade fala, até quando parece silenciosa.
Agora a pirâmide mudou de posição.
A base está firme no chão.
E eu, sentada no topo, observo.
Observo as pessoas, as fotografias antigas, as árvores, os objetos esquecidos, as pequenas cenas que quase ninguém vê. Coisas aparentemente simples, mas que insistem em permanecer vivas dentro de mim.
Dessa observação nascem palavras.
Não para chamar atenção.
Não para produzir impacto.
Muito menos para ferir a profissão que me sustentou durante toda a vida.
Talvez eu escreva apenas para compreender melhor aquilo que senti e aquilo que perdi ao longo do caminho.
Meus sentimentos não são invertidos.
Só quero contar aquilo que vive dentro de mim.
Como se escrever fosse uma forma silenciosa de impedir que certas pessoas, lugares, vozes e emoções desapareçam completamente do mundo.