Era uma tarde comum, dessas que não prometem nada. O trânsito seguia seu ritmo habitual, as pessoas iam e vinham, e eu observava a cidade através do para-brisa, como quem assiste a um filme sem roteiro.
Foi então que vi um homem tentando retirar um banner de uma parede.
A comemoração anunciada no cartaz já havia passado há alguns dias. O vento e a chuva começavam a fazer seu trabalho silencioso, desgastando o material. Alguém precisava removê-lo.
O homem apareceu carregando uma escada.
Encostou-a na parede e tentou subir. A escada, porém, parecia não concordar com o plano. Escorregava para um lado, ameaçava deslizar para o outro. Ele subia um ou dois degraus e descia rapidamente. Tentava novamente. Recuava.
Confesso que fiquei apreensiva.
Por diversas vezes pensei em abrir a janela e alertá-lo sobre o perigo. Em outras, pensei que talvez estivesse sendo apenas intrometida. Permaneci observando, mas sem conseguir desviar os olhos da cena.
À medida que ele insistia, aumentava em mim a sensação de que algo poderia dar errado.
Foi então que um homem que passava pela rua percebeu a dificuldade.
Não perguntou nada.
Não fez comentários.
Não ofereceu conselhos.
Apenas aproximou-se e segurou a escada.
Só isso.
O trabalhador então subiu com tranquilidade, retirou o banner, desceu em segurança, recolheu seus materiais e foi embora.
A cena durou poucos minutos.
Nem me lembro se houve agradecimento. Talvez tenha havido. Talvez não.
O que ficou na memória foi outra coisa.
Durante alguns instantes, dois desconhecidos compartilharam uma tarefa simples. Um precisava retirar o banner. O outro percebeu que a escada balançava.
Sem combinar nada, resolveram o problema.
O trânsito continuou passando.
As pessoas seguiram seus caminhos.
E eu fiquei ali, olhando para uma escada encostada numa parede, pensando como certas cenas pequenas acabam permanecendo por muito mais tempo do que imaginamos.
Sara Xavier Duque Estrada de Oliveira