Política em Três Tempos - Por Paulo Queiroz

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1 – MINUTO BARULHENTO Nunca, antes, neste país – com a permissão do companheiro presidente Lula da Silva pelo uso não autorizado da bengala -, mas, como a gente ia dizendo, nunca, antes, neste país um minuto de silêncio deu panos para as mangas para tanto sarrabulho. Melhor dizendo, o simples projeto de convocação para um minuto de silêncio. Conquanto algumas vozes entre suas lideranças tenham, por equívoco ou dissimulação, insistido em assim propalar, apolítico é que ele não é. Podia até ser apartidário, pelo menos enquanto proposta ou concepção formais. Mas pelo trivial fato de interpelar as autoridades do governo federal responsabilizando-as por todas as mazelas – a corrupção e a impunidade à frente - que se propões denunciar e combater, já deixa o apartidarismo a ver navios, posto que a administração do país é resultado de uma escolha que envolve, naturalmente, partidos políticos. Portando, esse tal Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, cognominado “Cansei” e liderado pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo (OAB-SP), além de apoiado por diversas entidades e lideranças da sociedade civil, não bastasse político até a medula, é também um movimento partidário, porquanto inevitavelmente hostilizará o principal partido do governo (o PT) – sendo por ele execrado – e, obviamente, recepcionará de bom grado clamores de agremiações oposicionistas. Na aparência, a proposta até leva jeito de inocente, na medida em que, conforme os organizadores, objetiva apenas sensibilizar os brasileiros a pararem durante um minuto, às 13 horas do dia 17 de agosto, quando o acidente com o avião da TAM completará 30 dias. “Não se trata de um ato político, mas de uma manifestação cívica de cidadania e de amor ao Brasil”, afirma Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da OAB-SP. “Com o silêncio, a sociedade poderá expressar sua solidariedade e indignação de forma pacífica, equilibrada e organizada”, completa. A OAB-SP acredita que o gesto será replicado em outras cidades do País. 2 – POMO DA DISCÓRDIA Possivelmente, mas não tanto quanto a princípio se imaginou. Basta dizer que, no âmbito da OAB propriamente dita, as seccionais de Rondônia e do Paraná foram as primeiras a manifestar suas adesões à seccional carioca da entidade, cujo presidente, Wadih Damous, antecipou-se a todos e acusou a OAB-SP de ser golpista. A instituição chegou a divulgar uma nota em que classificou o movimento como “golpista, estreito e que só conta com a participação de setores e personalidades das classes mais abastadas do Estado de São Paulo”. Para completar, nesta segunda-feira (06), após discussão de toda sorte e votação tumultuada, o Conselho Federal da Ordem decidiu não participar do movimento. O “Cansei”, no entanto, já foi alvo de outras críticas, como a de parlamentares paulistas, que acusam os organizadores de fazerem política em cima da tragédia que foi o acidente com o avião da TAM, quando morreram 199 pessoas. No último sábado (04), a cerimônia de abertura do 3º Congresso Estadual do PT paulista se transformou em palco da reação do partido aos movimentos críticos ao governo do presidente Lula da Silva, à imprensa e à oposição. Ao mesmo tempo em que se formava uma manifestação na Avenida Paulista, algumas das principais lideranças do PT discursavam no centro da cidade atacando duramente o movimento "Cansei", a oposição e a imprensa. Ocorre que, talqualmente a OAB, a oposição e a imprensa também estão divididos em relação à iniciativa. O ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, por exemplo, que é do DEM, disse que termo “cansei”, que dá nome ao movimento "é uma palavra muito usada por dondocas enfadadas em algum momento das vidas enfadonhas que vivem.” E por entenderem que o "Cansei" tem slogans que podem levar a uma leitura política e partidária, as redes de TV “Globo” e “Bandeirantes” não cederão espaço publicitário gratuito ao movimento. Por enquanto, a revista “Istoé” cedeu. Mas é tanta divisão que o “Cansei” também já está sendo chamado de pomo da discórdia. 3 – PERDENDO FÔLEGO Até o momento em que estas estão sendo digitadas, o ataque mais corrosivo ao “Cansei” partiu do diretor de redação da revista “Carta Capital”, o jornalista Mino Carta, que em seu Blog desancou o movimento comparando-o àquele organizado em abril de 1964 para apoiar o golpe militar que depôs o presidente João Goulart. De acordo com Mino Carta, estamos às vésperas do retorno da Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade. Agora passa a se chamar Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros. Trata-se de uma fórmula mais elaborada, mais complexa, mas os objetivos são os mesmos. Os principais trechos do que o jornalista escreveu no Blog são os que se seguem: “A idéia inicial faísca no escritório de João Dória Jr., o iconoclasta mor, aquele que destruiu a pauladas o monumento dedicado a Cláudio Abramo, o grande jornalista, em uma pracinha do Jardim Europa. Ali desceu o Espírito Santo, e iluminou os primeiros carbonários da grana, unidos em torno do slogan: Cansei. Uma campanha publicitária, oferecida de graça por Nizan Guanaes, insistirá em peças destinadas a expor o pensamento dos graúdos envolvidos: ‘cansei do caos aéreo’, ‘cansei de bala perdida’, ‘cansei de pagar tantos impostos’”. “É do conhecimento até do mundo mineral a quem esses valentes senhores atribuem a culpa pelos males que denunciam: nem é ao governo como um todo, e sim ao Lula, invasor bárbaro de uma área reservada aos doutores. Mas o presidente da OAB paulista, certo D’Urso, diz que o movimento não tem conotação política. Enquanto isso, às sorrelfas, o pessoal pede instruções aos mestres. Alguns ligam para FHC, outros para José Serra. São os derradeiros retoques da tucanização da elite brasileira, a mesma que sentou-se em cima de um tesouro chamado Brasil e só cuidou de depredá-lo, com os resultados conhecidos.” Enfim, com prós e contras, o certo é que o tal movimento “Cansei” está em andamento. Pelo fôlego que perdeu desde que foi lançado, há quem aposte que não chegará ao dia 17. Chegará?
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