Uma plataforma desenvolvida pela Universidade Federal de Rondônia (Unir) está usando a tecnologia para ajudar povos indígenas da Amazônia a documentar, fortalecer e transmitir suas línguas.
Lançado em junho de 2026, o DicWeb Indígena permite a elaboração e publicação de dicionários digitais construídos com a participação direta de comunidades, professores e pesquisadores indígenas.
A ferramenta foi desenvolvida no âmbito do Laboratório de Línguas e Culturas Indígenas (LALIC), do Departamento de Educação Intercultural (DEINTER), do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) e da Ação Saberes Indígenas na Escola (ASIE), todos vinculados à Unir.
O projeto foi idealizado pelo professor Quesler Fagundes Camargos e começou a tomar forma em 2022, a partir de pesquisas relacionadas à Licenciatura Intercultural Indígena.
Atualmente, a plataforma disponibiliza dicionários digitais de 14 línguas indígenas, entre elas Aruá, Cinta Larga, Djeoromitxi, Ikólééhj-Gavião, Karitiana, Karo-Arara, Kawahiwa-Amondawa, Kaxarari, Makurap, Paiter, Tupari, Wajuru, Wari’ e Zoró.
Os conteúdos podem incluir entradas lexicais, exemplos de uso e informações gramaticais.
Conhecimento produzido pelas próprias comunidades
Um dos principais diferenciais do DicWeb é o protagonismo indígena.
Em vez de tratar as comunidades apenas como fontes de informação para pesquisadores externos, o projeto busca colocá-las como participantes e autoras do processo de documentação.
Professores indígenas, pesquisadores e membros das comunidades podem colaborar na construção e atualização dos dicionários.
A proposta é permitir que o vocabulário seja registrado de maneira contínua, acompanhando as necessidades das próprias comunidades.
A plataforma foi pensada especialmente para o contexto amazônico e considera, além dos aspectos linguísticos, dimensões culturais e pedagógicas.
Com isso, o dicionário deixa de ser apenas uma relação de palavras traduzidas para o português e passa a funcionar também como instrumento de registro e transmissão de conhecimentos.
Tecnologia como ferramenta de preservação
O uso de recursos digitais amplia as possibilidades de preservação de línguas que, em muitos casos, possuem número reduzido de falantes ou enfrentam pressão crescente do português.
A experiência de outros projetos de documentação linguística na Amazônia mostra a importância desse tipo de registro. Pesquisa publicada pela FAPESP destaca iniciativas que vêm produzindo dicionários multimídia de línguas indígenas em Rondônia, com recursos como áudio e imagens.
Entre as línguas já documentadas estão Kanoé, Oro Win, Puruborá, Sakurabiat, Salamãi e Wanyam.
Nesse contexto, o desafio não é apenas guardar palavras.
Documentar uma língua significa registrar formas de falar, significados, estruturas gramaticais, exemplos de uso e conhecimentos associados ao cotidiano e à cultura de cada povo.
Formação de novos pesquisadores indígenas
O DicWeb também está relacionado à formação de indígenas como pesquisadores e produtores de conhecimento.
A Unir informa que ações desenvolvidas pela Ação Saberes Indígenas na Escola vêm promovendo atividades de formação linguística junto a comunidades de Rondônia.
Uma dessas ações ocorreu em junho de 2026 na comunidade Amondawa, na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, envolvendo estudantes, lideranças e conhecedores da língua e da cultura Amondawa.
A proposta é ampliar a autonomia das comunidades para produzir materiais didáticos, culturais e científicos em seus próprios idiomas, fortalecendo também a educação escolar indígena.
De Rondônia para a Amazônia
Embora tenha sido criada em Rondônia, a plataforma possui uma abrangência que ultrapassa os limites do estado.
O objetivo declarado do projeto é oferecer um ambiente digital voltado às línguas indígenas da Amazônia, permitindo que diferentes povos utilizem a estrutura para organizar e publicar seus próprios dicionários.
O lançamento oficial ocorreu em 25 de junho de 2026, no Campus da Unir em Ji-Paraná, durante a programação do XII Seminário de Educação Intercultural.
A plataforma também disponibiliza uma relação pública dos dicionários já publicados, permitindo consultar os projetos lexicográficos diretamente pela internet.
Uma disputa contra o desaparecimento linguístico
O alcance da iniciativa vai além da tecnologia. A língua é um dos principais instrumentos de transmissão de conhecimentos entre gerações.
Quando uma língua deixa de ser falada, parte de um sistema próprio de interpretar o mundo, nomear elementos da natureza, transmitir histórias e organizar relações sociais também pode desaparecer.
Pesquisa publicada pela FAPESP aponta que o Brasil possui mais de 200 línguas, incluindo indígenas, de sinais e afro-brasileiras, e ressalta a necessidade de políticas públicas para garantir direitos linguísticos e fortalecer idiomas ameaçados.
Nesse cenário, o DicWeb Indígena representa uma tentativa de colocar a tecnologia a serviço de uma demanda definida pelas próprias comunidades: registrar suas línguas, ampliar seu uso na educação e garantir que palavras e conhecimentos possam continuar circulando entre as novas gerações.
Mais do que transformar palavras em arquivos digitais, a iniciativa da Unir procura transformar o ambiente digital em espaço de memória, educação, pesquisa e afirmação das línguas indígenas da Amazônia.