Dia 02 de abril participei, a convite dos moradores do km 5 da EFMM de uma reunião dos moradores do Triângulo desalojados de suas casas pelo banzeiro do rio Madeira. A reunião a princípio não se destinava aos moradores da EFMM, que ainda têm dificuldades em ter reconhecido pela UHE Santo Antônio os fortes impactos que sofreram em suas casas e suas vidas após a abertura da comportas e o verdadeiro tsunami provocado pelo rio nas barrancas que se estendem da região da extinta cachoeira de Santo Antônio e as área que chegam até os mirantes em Porto Velho.
Aqui vão algumas considerações sobre o que presenciei. Em primeiro lugar vi a aflição de pessoas que sempre viveram naquela região e ali construíram suas vidas, criaram suas famílias e viveram da terra, do rio e de seus recursos generosos. De um momento para o outro tudo isso mudou. Sem cerimônia alguma, sem aviso algum, funcionários do consórcio passaram a percorrer as propriedades como se elas não tivessem donos. Marcaram e demarcaram os terrenos sem maiores explicações e a obra da Usina Hidrelétrica foi levada a diante.
A precária estrada que conduz à igreja e a cachoeira de Santo Antônio ganhou um arremedo de ciclovia e centenas de ônibus, caminhões e todo tipo de veículos do Consórcio fizeram daquela pista um inferno para os transeuntes que ali vivem. Só a trepidação dos mesmos já se configuraria em um grave transtorno. Mas a coisa foi muito mais além, com relatos de moradores que são atirados da estrada por motoristas dos ônibus ou caminhões das empreiteiras. O perigo existente não é mesmo difícil de ser percebido, basta ver o calamitoso estado da estrada e da própria ciclovia, caracteristicamente sem cuidados e manutenção.
A seguir vieram as explosões, sentidas por moradores e suas casas. Paredes rachadas, poços de água e fossas afetados e em desmoronamento, fundações de residências abaladas. As queixas começaram a se avolumar e uma moradora de um dos pequenos sítios do Km 5 da EFMM ouviu do agente responsável pelas negociações entre a comunidade e o Consórcio Santo Antônio a seguinte afirmação “minha senhora, agora até se um cachorro quebrar a perna na Bolívia, a culpa é da Santo Antônio” e com isso ele se escusou de levar adiante as queixas sobre a responsabilidade do Consórcio à cerca do que estava ocorrendo na vida e nas propriedades dos residentes locais.
Quando tudo parecia já estar “no fundo do poço”: casas rachadas, paredes desmoronando, poços e cisternas destruídos, fossas arrebentadas e estrada caótica, eis que se abrem as duas primeiras comportas da barragem e o volume e força da água liberada provoca um monumental banzeiro no rio, devastando como um tsunami todas as barrancas locais. Alguns sítios foram completamente destruídos, outros perderam áreas enormes. Todo o bosque e pomar que caracterizam aquela área foram devastados e levados pela fúria renovada do Madeira, que NUNCA havia provocado tais estragos. Em apenas um período de enchente moderada e chuvas bem comportadas o rio, que não atingiu níveis impressionantes de cheia, levou terras, árvores, matas, pomares, plantações, monumentos históricos, além de arrebentar a antiga lixeira municipal, implantada numa área de igapó e carregou parte do chorume do lixo para o seu leito.
Muito mais do que isso, o rio arrastou em sua fúria casas diversas e, como disse o técnico da Santo Antônio, aproximadamente 600 pessoas tiveram que deixar suas casas em condições precárias e adversas e ser abrigados em hotéis, de qualidade muitas vezes ruim, porque o rio e a ausência de ações preventivas levou-lhes a moradia, parte da dignidade cidadã e muito de sua esperança de vida, construída às margens do Madeira que até então era uma espécie de “rio amigo”.
A vida dessas pessoas passou a ser um verdadeiro calvário. Cada um a seu modo vivenciou e vivencia sofrimentos profundos, tendo suas propriedades destruídas, suas vidas arrasadas e sua subsistência ameaçada. Ouvi, na reunião da noite de 02 de abril, no Forasteiros, relatos dramáticos e impressionantes de pessoas que perderam tudo, exceto a garra e vontade de lutar. Uma senhora falava sobre sua vida construída às margens do rio, no Triângulo, sempre desassistido pelos poderes públicos, mas até então bastando a si próprio: “ A gente viveu aqui em paz, criando os nossos filhos e construindo as nossas vidas. De repente chega essa usina e de um minuto pro outro tira tudo da gente. Deixa a gente sem nada”.
A revolta e indignação dos moradores atingidos pela barragem só não era maior do que o técnico e frio discurso do funcionário do Consórcio, que munido de terminologias científicas e de posicionamentos vagos, remotos e sem precisão, cumpria o dever de ofício de ouvir parte das queixas, marcando o tempo e a hora para que aquela “sessão de contrariedades” acabasse logo. Assim que ele começou sua fala foi interrompido pelos moradores da EFMM, que sem ser convidados queriam ouvir da empresa responsável explicações sobre as medidas reparadoras e compensatórias de que eles agora são merecedores. Num claro tom de alheamento o funcionário falou: “ vamos fazer o seguinte, vocês têm três minutos pra fazer barulho e depois eu volto a falar”. Era como se os protestos e a indignação ecoassem ao vento, batendo em ouvidos surdos e sem provocar qualquer reação de empatia diante da tragédia de famílias que tiveram suas vidas descarriladas nas imediações dos trilhos da EFMM e das barrancas devastadas do rio Madeira.
Notável a fala do advogado da comunidade, Dr. Cristian, essa sim esclarecedora e pautada em uma demonstração didática dos direitos e dos deveres de cada um, atingidos pela barragem e Consórcio Santo Antônio. Notável ainda os questionamentos dos moradores, contundente no quesito da fúria do rio que levou tudo á sua frente e que obrigou o Consórcio a promover, às pressas a construção de uma verdadeira barragem de contenção de pedras às margens atingidas pelo banzeiro. Como ressaltou o mesmo funcionário, a obra de construção dessa muralha de pedras ficou pronta em tempo recorde, mas chegou tarde demais para muita gente que perdeu tudo. Chegou tarde para o magnífico bosque do antigo Seringal da Candelária, palco e teatro principal da ocupação pioneira de nossa cidade. Chegou tarde para monumentos como o destruído “Marco Rondon”, que nunca mais será RESTAURADO, pois seu resgate foi pela metade e no máximo ele poderá ser refeito á imagem e semelhança do original.
Esse é o calvário de cada um dos moradores daquela área devastada pela monumental demonstração de força e vigor do rio Madeira e isso me fez lembrar de um antigo outdoor fincado no cruzamento da Avenida Alexandre Guimarães com a Rogério Weber. A placa apresentava uma foto espetacular do rio Madeira em um momento grandioso de por de sol; e nela se lia “ONDE VOCÊ VÊ UM GRANDE RIO, NÓS VEMOS UM GRANDE EMPREENDIMENTO”. E foi apenas isso, um grande empreendimento sobre um grande rio.
Nessa Sexta Feira da Paixão de 06 de abri 2012, fico aqui pensando nos sofrimentos de Cristo no Calvário e nos ensinamentos contidos nos sermões do jesuíta Padre Antônio Viera, que conclamava o povo, notadamente os pobres e os escravos a viver felizes e certos de sua salvação as agruras dos calvários de cada um.
MARCO ANTÔNIO DOMINGUES TEIXEIRA é professor da UNIR, mestre em História pela UFPE e Doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental, pelo NAEA/UFPA. Escreveu os livros: Quilombolas de Jesus, em parceria com Gustavo Gurgel e, Beiradão das Visagens um estudo sobre o medo, a morte e os casos fantásticos nos vales do Madeira, Mamoré e Guaporé.