O “poder público” que identificamos com a palavra “governo” tem sua razão primeira na ajuda que presta à vida do cidadão. Quando atrapalha, comete um sacrilégio.
Exatamente entre o sacro e o profano da administração pública se chocam as opiniões do presidente Lula e de sua ministra Marina Silva.
Lula exige celeridade do Ibama na análise do licenciamento de usinas hidrelétricas, das quais o país depende para crescer, já a ministra interpreta as investidas de seu chefe como tentativa de “submeter o Ibama a interesses econômicos”. Até aí, a ministra está certa. Existem sim interesses econômicos (legítimos) de proporcionar energia a indústrias, atividades agrícolas, comerciais, prestadoras de serviços e até ao cidadão que precisa acionar geladeira e lâmpadas de casa. Tudo isso é interesse econômico e, notadamente, “social”.
Não é mistério, atividades econômicas se escoram na lucratividade, um mal que garante sua sustentabilidade. Ninguém construiria uma usina hidrelétrica que não proporcionasse retorno econômico, nem a estatal Eletrobrás, nem a hiperlucrativa Petrobras investiriam nela. O BNDES ou o Banco do Brasil, outros recordistas de lucratividade, não a financiariam. Também a viabilidade econômica é condição imposta pelo Ibama para licenciar a atividade produtiva. A ministra não sabe? A “insustentabilidade” deixaria a esmo o passivo que a sociedade ou mais precisamente o governo seriam obrigados a encampar.
Pirotecnia política à parte, dizer “interesse econômico” é o mesmo que dizer “interesse social”. A ministra tropeça aí e na miopia de seus conhecimentos. Continua no seringal ou na bancada de oposição, refratária às dinâmicas contemporâneas que pesam sobre as costas do presidente Lula criticado por crescimentos pífios e haitianos.
Todos entendem que devemos, mais do que nunca, defender a natureza e ainda as melhores formas de preservação de nossas matas, a sustentabilidade do sistema, a recuperação da qualidade atmosférica, a procura de energia não poluente, mas sem gerar conflitos desnecessários na obscuridade de um apagão.
A ciência oferece, especialmente no Brasil, soluções inteligentes que a ministra, descendo da torre-de-marfim, acharia com facilidade e deveria propor. Mas não o faz. E quais são suas propostas?
Evidentemente não é de crítica que funciona um governo ou de pleonasmos: “não se submeterá (o Ibama) a interesse econômico” e analisará “com toda isenção”. E quem é que desconfia disso? Mas a solução, cobrada por todos, quando é que sai? O sim ou o não ao licenciamento quando virá?
Se os projetos são errados, inviáveis, criminosos, que sejam barrados e ponto final. Que se libere o mundo para caçar outra via que não seja a construção de usinas hidrelétricas.
E atenção, o que quer o presidente Lula (e ela não entende) é que um bonde hidrelétrico não pode ficar parado mais do que o necessário. O bonde é aguardado, lá adiante, por uma infinidade de usuários - pobres inocentes que reclamam emprego, confortos e, ainda, estão expostos ao risco de outros apagões.
A confusão que reina em Marina Silva é característica da inversão de papeis, intoxicada de oposicionismo e chavões, impróprios ao seu cargo. Esquece que “ministra existe para (ad)ministrar”, “encontrar soluções”, “executar”, “gerar certezas”, “dar agilidade”, “ser útil”, “abrir caminhos” ao país. A medida certa não pode chegar no momento errado ou assoberbada de despesas que serão acrescidas na conta dos “pobres”.
Marina Silva entra na moldura de quem não tem planos, projetos, não sabe ao certo o que diz nem onde quer chegar. Bate no cravo, na ferradura e na cabeça do animal. E isso já custou nos últimos cinco anos o maior desmatamento de toda a história do Estado do Acre, terra dela, e da Amazônia em geral, patrimônio de toda a humanidade. Mas ainda continua com uma boa imagem. Incrível, mas compreensível num governo que peca por indefinições, demoras e burocracia (e sabe lotear os cargos).
Nesse (meio)ambiente ela se aclimatou como cactos no deserto.