“Eu preciso do palco”: há 23 anos, Valdete Sousa mantém vivo o sonho do Teatro Wankabuki em Vilhena
Fundadora do Teatro Wankabuki relembra uma trajetória marcada por improvisos, superação e formação de novos artistas; em entrevista ao Rondônia ao Vivo, ela critica a falta de valorização da cultura e defende financiamento contínuo para manter projetos artísticos.
Há sonhos que começam quase por acaso, mas se tornam parte inseparável da vida. Em Vilhena, a história do Teatro Wankabuki é um exemplo dessa persistência. Criado em 2003, a partir de encontros no ambiente universitário, o grupo atravessou dificuldades financeiras, mudanças de espaço, perda de integrantes e desafios para conquistar público. Mais de duas décadas depois, segue com espetáculos, oficinas, formação de novos artistas e iniciativas culturais.
Em entrevista ao Rondônia ao Vivo, a atriz, diretora e fundadora Valdete Sousa relembrou os primeiros passos do Teatro Wankabuki e falou sobre os obstáculos para manter o teatro ativo no interior de Rondônia. Ao longo da conversa, uma frase resume a relação dela com a arte: “Eu preciso do palco”.
Valdete chegou a Vilhena em 2003, depois de começar a fazer teatro ainda adolescente, aos 14 anos, em Ji-Paraná. A intenção inicial era encontrar um grupo independente no qual pudesse continuar atuando. Como não encontrou a estrutura que procurava, aproximou-se de estudantes da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e passou a participar de um projeto de extensão coordenado pelo professor Oswaldo Gomes.
O trabalho começou com experimentações e montagens ligadas à literatura. Uma das primeiras produções foi Morte e Vida Severina, adaptação do texto de João Cabral de Melo Neto feita pelo dramaturgo Luiz Antônio, de Porto Velho. O espetáculo estreou em 2004, com apresentações concentradas principalmente no ambiente universitário.
Naquele período, o grupo contava com poucos recursos. Cenários e figurinos eram produzidos com materiais baratos e reciclados, como garrafas PET, papel, EVA e TNT. O espaço disponibilizado pela universidade era um dos principais apoios para os ensaios e apresentações.
A reutilização de materiais, inicialmente uma necessidade financeira, acabou incorporada à linguagem artística do Teatro Wankabuki e continua presente em suas produções.
De um projeto universitário a um grupo independente
A saída da universidade, em 2007, marcou uma mudança importante. Com o encerramento do vínculo de parte dos integrantes com a instituição, o grupo perdeu o espaço onde ensaiava e se apresentava. Foi necessário buscar outros caminhos, incluindo experiências em ruas e praças.
Valdete também se afastou temporariamente do teatro naquele período, mas retornou no ano seguinte. Em 2009, o grupo estreou o espetáculo infantil Perdidos na Floresta, que abriu portas para novas oportunidades, inclusive contratações pelo Sesc.
A formalização da organização ocorreu em 2010, quando o grupo passou a contar com personalidade jurídica. A mudança permitiu buscar contratações e participar de oportunidades que exigiam documentação formal.
Outro marco veio em 2011, com a aprovação de um projeto para o Invadindo a Praça. A iniciativa levou apresentações a 11 praças e ruas de Vilhena, aproximando o teatro de públicos que nem sempre frequentavam espaços culturais convencionais.
A experiência também ajudou Valdete a compreender melhor os mecanismos de financiamento cultural. A partir daí, passou a estudar editais e a elaborar projetos para viabilizar novas atividades.
Entre os trabalhos que mais marcaram sua trajetória pessoal está o espetáculo À Margem, montado em 2018. A produção aborda a história da própria família da artista, incluindo a trajetória de sua mãe e a migração do Nordeste para Rondônia. O projeto deu origem a outros desdobramentos, como o documentário A Margem da História, Mães, Avós e Nós, que circulou em festivais e recebeu premiações.
Formação ainda é um dos maiores desafios
Para Valdete, uma das principais dificuldades de fazer teatro em Rondônia é o acesso à formação artística. Segundo ela, a necessidade de buscar conhecimento fora do estado influenciou a criação da Escola Livre de Teatro Wankabuki.
Ao longo dos anos, a artista participou de oficinas em Porto Velho, Brasília e outras localidades, além de aproveitar oportunidades de formação on-line. Ela defende que o trabalho teatral exige estudo, preparação e conhecimento técnico, mesmo quando envolve pessoas sem experiência anterior.
“Não existe fazer arte sem ter conhecimento sobre arte”, afirmou.
A Escola Livre foi estruturada a partir de anos de oficinas e experiências formativas. Em 2023, Valdete reuniu esse trabalho em um projeto apresentado ao Ministério da Cultura, que foi selecionado no programa Olhos d’Água.
A escola oferece atividades de iniciação e continuidade, incluindo ateliês de criação e oficinas com diferentes linguagens, como dramaturgia, dança, circo, teatro de rua e aspectos técnicos da produção teatral. As turmas também desenvolvem apresentações de conclusão.
A proposta não se limita a preparar atores. O objetivo é permitir que os participantes conheçam diferentes áreas do teatro, desde a interpretação até a direção, cenografia, figurino, iluminação e sonoplastia.
Valdete conta que antigos alunos seguiram estudando artes em outras cidades e que participantes das atividades também passaram a integrar produções audiovisuais em Rondônia.
“As pessoas dizem que teatro é coisa de vagabundo”
Apesar da trajetória construída, a fundadora afirma que o preconceito contra a arte ainda é uma realidade. Segundo ela, alguns alunos ouvem de familiares que o teatro não oferece futuro e que deveriam dedicar seu tempo a outras atividades.
Valdete contesta essa visão e afirma que a arte pode contribuir para a autoestima, a convivência e o desenvolvimento pessoal. Ela relata ter acompanhado pessoas que encontraram nas aulas e nas atividades teatrais um espaço de acolhimento em momentos difíceis.
A artista também destaca o desafio de conquistar público em uma cidade extensa, onde muitas pessoas ainda desconhecem a existência do Teatro Wankabuki e de seu espaço cultural. Embora a iniciativa tenha mais de 20 anos de história, o local fixo para receber alunos, ensaios e apresentações existe há cerca de três anos, segundo ela.
“A gente está nessa tentativa há muitos anos. Escutamos desaforos, pessoas dizendo que teatro é coisa de vagabundo, besteira. Mas fazemos o que acreditamos”, disse.
Para Valdete, o contato direto com o espetáculo pode transformar a experiência do público. Ela defende que as pessoas precisam ter a oportunidade de conhecer a produção artística para compreender o que ela representa.
As atividades oferecidas no espaço são gratuitas quando financiadas por projetos e editais. A artista ressalta, porém, que isso não significa que o trabalho seja feito sem remuneração: os recursos obtidos são usados para pagar os profissionais e viabilizar as ações.
A dificuldade de manter as portas abertas
A falta de financiamento contínuo é outro problema apontado pela fundadora. O Teatro Wankabuki depende de editais e subsídios para manter as atividades, adquirir equipamentos, pagar aluguel, energia elétrica, internet e outras despesas.
Valdete explica que a aprovação de um projeto para determinado ano não garante recursos para o período seguinte. Por isso, a equipe precisa estar constantemente elaborando propostas e buscando novas fontes de financiamento.
Ela também critica a burocracia para acessar recursos públicos, especialmente quando é necessário reunir grande quantidade de documentos para concorrer a editais de valores limitados.
Na avaliação da artista, o trabalho administrativo acaba consumindo tempo que poderia ser dedicado à criação e à formação. Sem uma política de financiamento mais estável, manter um espaço cultural aberto e oferecer atividades gratuitas à comunidade torna-se um desafio permanente.
Festival para dar visibilidade à produção amazônica
A inquietação com a falta de espaço para os artistas da região também esteve na origem do Festival Amazônico de Teatro, iniciativa que se tornou uma das marcas da trajetória do Teatro Wankabuki.
Valdete conta que a ideia surgiu ao perceber que festivais realizados na região Norte nem sempre davam espaço suficiente às produções amazônicas. A proposta foi criar um evento dedicado a valorizar trabalhos da Amazônia Legal e aproximar artistas de diferentes estados.
A primeira edição ocorreu em 2015, inicialmente com o nome Festival Amazônico de Monólogos e Breves Cenas. Com recursos limitados, o evento começou de forma modesta, reunindo principalmente produções de Rondônia e Mato Grosso.
No ano seguinte, o projeto recebeu um aporte maior por meio de um edital da Caixa Econômica Federal, permitindo ampliar a programação e trazer artistas de outros estados. O festival também passou a ocupar diferentes espaços da cidade, incluindo áreas abertas ao público.
Para Valdete, a iniciativa ajuda a mostrar que a produção artística da Amazônia tem identidade própria e merece espaço para circular, ser conhecida e alcançar novos públicos.
O Teatro Wankabuki também participa de conselhos, conferências e outras instâncias de discussão sobre políticas culturais, levando demandas de Vilhena e do interior de Rondônia.
Um espaço de convivência e novos sonhos
A conquista de um espaço próprio para as atividades representa outro avanço. Além dos ensaios e das aulas, o local recebe apresentações, sessões de cinema, encontros e atividades voltadas a estudantes de diferentes idades.
Valdete considera importante que Vilhena tenha espaços culturais permanentes, nos quais a população possa assistir a espetáculos, participar de oficinas e conviver com artistas. Ela diferencia esse tipo de ambiente de uma estrutura administrativa, defendendo a necessidade de locais voltados à criação e ao encontro da comunidade.
Ao olhar para os mais de 20 anos de trajetória, a fundadora reconhece que não imaginava que o Teatro Wankabuki chegaria tão longe. A iniciativa nasceu da vontade de continuar fazendo teatro, sem grandes recursos ou planos de longo prazo, e foi se consolidando à medida que novas pessoas, projetos e oportunidades surgiram.
Hoje, além de manter suas próprias produções, o Teatro Wankabuki busca formar novos artistas e contribuir para que outras iniciativas culturais surjam em Vilhena.
A história ainda é marcada por incertezas financeiras e pela luta por reconhecimento, mas Valdete segue defendendo a importância da arte na vida das pessoas. Para ela, o teatro não é um luxo nem uma atividade sem propósito: é uma forma de expressão, aprendizado, encontro e transformação.
Depois de tantos anos de trabalho, a disposição de continuar em cena permanece. E, como resume a própria Valdete, há algo nessa relação com o teatro que não se encerra com as dificuldades: “Eu preciso do palco”.