O cristianismo seletivo: quando a solidariedade depende do voto - Por Mario Quevedo

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Na Bíblia, Jesus não ensinou que a ajuda aos pobres deveria depender de suas escolhas políticas. Não disse que os famintos mereciam alimento apenas se votassem no candidato certo, nem que os necessitados deveriam ser abandonados por discordarem de quem tem mais dinheiro.
 
Em Mateus 19:21, orientou o jovem rico a vender seus bens e repartir o dinheiro com os pobres. Em Mateus 25:35-40, ensinou que acolher quem tem fome, sede ou está desamparado é uma forma de acolher o próprio Cristo. E, em Lucas 12:33, voltou a falar sobre repartir os bens e ajudar os necessitados.
 
Mas, no Brasil, ganha espaço um tipo de cristianismo seletivo, no qual a solidariedade parece ter condições políticas. Diante da pobreza, alguns recorrem à caridade e à fraternidade quando lhes convém, mas, quando descobrem que uma pessoa pobre vota no PT, passam a dizer que ela não merece ajuda, que deve sofrer as consequências de sua escolha ou que não deveria receber qualquer benefício.
 
Desde quando o voto de alguém determina se essa pessoa merece comer, ter dignidade ou receber ajuda?
 
É possível discordar do PT, criticar políticas públicas, questionar programas sociais e defender outras ideias econômicas. Isso faz parte da democracia. O problema começa quando a divergência política se transforma em justificativa para negar a humanidade do outro.
 
A contradição é difícil de ignorar: se a mensagem de Cristo é invocada para defender valores morais, por que seus ensinamentos sobre os pobres são relativizados quando o necessitado pertence ao campo político adversário?
 
A caridade cristã não deveria funcionar como recompensa por afinidade ideológica. O Evangelho não apresenta uma tabela de merecimento baseada no voto, no partido ou na posição social de quem precisa de ajuda.
 
O pobre não deixa de ser pobre, nem de merecer dignidade, porque votou em um candidato de quem você discorda. E a fome não se torna menos urgente porque quem a sente fez uma escolha política diferente da sua.
 
A fé pode conviver com diferentes posições políticas. Sendo assim as pessoas estão seguindo os ensinamentos de Cristo ou escolhendo apenas os trechos que combinam com suas convicções?
 
Porque, se a solidariedade só vale para quem pensa como nós, talvez o que esteja sendo praticado não seja a caridade ensinada por Jesus, mas uma versão conveniente da fé — seletiva na compaixão e generosa apenas com os seus.
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