O disco pode ser ouvido na íntegra no Spotify
Foto: Divulgação
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Na década de 80 vivi intensamente minha adolescência musical, quando, devido à minha natureza rebelde, mas extremamente introspectiva, eu tinha um mundo particular para escrever muito tinha e tenho até hoje uma imaginação muito fértil — e amar, desdobrando delírios juvenis sobre melodias musicais que integram meu prazer sonoro com a poesia visual de alguns momentos vividos nesse período tão singular.
Nada para mim foi mais lindo, apaixonante, delicado e libertador do que descobrir o rock alternativo britânico entre 1985 e 1989, graças a uma revista que explodiu a minha cabeça nesse período a Bizz , que era uma publicação nos moldes da revista americana Rolling Stone, por exemplo, com reportagens sobre bandas brasileiras e gringas muitas das quais eu nunca tinha ouvido falar, mas que me interessavam pela história e pelas indicações musicais.
A revista Bizz, da Editora Abril, foi publicada pela primeira vez em 1985 com o número Zero que tinha na capa Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones. Depois, logo chegou a famosa número 01, cuja capa era uma foto histórica de Bruce Springsteen, que nessa época vinha numa onda de sucesso estrondoso por conta do disco “Born in the USA”, lançado naquele ano e que promoveu uma das maiores turnês da história. Havia uma reportagem longa falando do fenômeno em que se tornou Springsteen, mas o que de fato me interessou nessa revista foi uma matéria de uma página sobre uma banda da cidade industrial de Manchester (UK), chamada The Smiths. Ela era assinada pelo grande jornalista José Augusto Lemos que já tinha morado em Londres e já era, nesse período, um renomado jornalista e crítico musical.

José Augusto descrevia a banda como uma das melhores coisas que Manchester havia parido no rock alternativo desde a aparição do Joy Division consequentemente do New Order também , falando da singularidade original e criativa de sua dupla de criação: Johnny Marr, o guitarrista e compositor de praticamente todas as músicas da banda, e o vocalista e letrista Stephen Morrissey, fanático pelo escritor Oscar Wilde, fã da banda proto-punk novaiorquina dos anos 70 New York Dolls, e que tinha a “cozinha” rítmica formada pelo baixo de Andy Rourke e a bateria de Mike Joyce como a melhor já surgida no rock alternativo britânico desde quando a banda de Liverpool Echo & The Bunnymen estreou, em 1981, com o álbum “Crocodiles”. O que era muita, muita coisa.
Um texto informativo impecável do jornalista, falando da explosão dos The Smiths com dois álbuns impecáveis: o de estreia, que levava apenas o nome da banda (1984), e uma coletânea de singles, lados B de compactos e gravações ao vivo em rádio, o ótimo “Hatful of Hollow” (1984). Mas ele dava ênfase ao disco que vinha destruindo a parada britânica e fazendo os críticos caírem de joelhos, o segundo de estúdio, “Meat Is Murder” (1985). Um raio X sintético, porém perfeito.
Ali fiquei conhecendo, através das palavras elogiosas, o que era a banda The Smiths. Interessei-me e, na mesma semana, quando fui à loja de discos do Tito, a Discolândia, achei somente a coletânea “Hatful of Hollow”. Na outra semana chegou “Meat Is Murder”. Primeiro vem a estranheza com a voz lírica, os trejeitos incomuns dos trinados vocais de Morrissey; porém, os arranjos musicais das canções, sob a responsabilidade de Johnny Marr, eram notáveis: arpejos, riffs e solos de guitarra com uma base muito sólida do baixo de Rourke e a bateria um tom acima de Mike Joyce. Que banda!
Todo esse preâmbulo introdutório para falar que, quando a WEA (Warner) resolveu lançar todo o material da banda de Manchester no Brasil, não poupou esforços, lançando até mesmo EPs — que eram discos que deveriam ser de 10 ou 7 polegadas, menores no tamanho, mas acabaram sendo lançados como 12 polegadas, embora só tivessem duas faixas. E, em 1986, em vista do sucesso que a banda vinha tendo no país, puxada pelo single “The Boy with the Thorn in His Side”, que estourou nas pistas de dança e pubs alternativos do Sudeste e Sul, foi lançada a obra-prima dos caras, “The Queen Is Dead” (1986), o álbum que me cativou desde a primeira audição, quando o escutei no meu quarto e transformei três de suas músicas em hinos para a minha vida toda.

Com um trecho da música “There Is a Light That Never Goes Out” justamente a que encerra o disco no lado B , que tinha versos fortes; para um adolescente de 17 anos, era algo surreal e marcante:
“Me leve para sair esta noite
Oh, me leve para qualquer lugar
Eu não me importo, não me importo, não me importo
Apenas dirigindo no seu carro
Eu nunca mais quero ir para casa
Porque não tenho mais uma casa
Eu não tenho mais”
As outras duas músicas são: “I Know It’s Over”, uma balada visceral de quase seis minutos e que tem uma orquestração sublime em crescendo, onde Morrissey praticamente se esvai como pétalas de rosas caindo num abismo; e a porrada quase punk de “Bigmouth Strikes Again”, com Johnny Marr e o baterista Mike Joyce encapetados em solos distintos num arranjo urgente. Aconselho ouvir a versão dessa música no disco ao vivo deles, “Rank”; é quase um hard rock destruidor.
O disco “The Queen Is Dead” foi o terceiro de estúdio da banda britânica e foi lançado no Reino Unido no dia 16 de junho de 1986. Então, esta semana o álbum completou 40 anos de seu lançamento. Banda fixa da gravadora Rough Trade, que ganhou notoriedade por ter sido quem lançou e produziu seus discos.
Revistas especializadas da Inglaterra, como a Melody Maker, por exemplo, colocaram o disco como o melhor da década de 80, batendo clássicos do Joy Division, The Jesus and Mary Chain, Echo & The Bunnymen e The Clash. Já a revista NME (New Musical Express), em 2013, classificou “The Queen Is Dead” como o melhor disco de todos os tempos.
Na capa do disco, num tom esverdeado, aparece a foto do ator francês Alain Delon no filme de estilo noir “L’Insoumis”, que no Brasil recebeu o título de “Terei o Direito de Matar” (1964), dirigido por Alain Cavalier.
Johnny Marr e Morrissey assinam a produção do disco, tendo a parceria do engenheiro de som Stephen Street — que trabalhou com eles antes em “Meat Is Murder” — e que se tornou uma lenda no meio musical do chamado Britpop, produzindo depois bandas como Blur e The Cranberries.
“The Queen Is Dead” tem algumas curiosidades em torno de sua feitura e como retrato de uma época em que já apontava certo desgaste entre os integrantes da banda, principalmente Morrissey e o baixista Andy Rourke, que vinha passando por uma crise devido ao vício em heroína. Durante a gravação do disco, o vocalista simplesmente avisou, por meio de um cartão-postal, que o baixista não fazia mais parte da banda. Em seu lugar entrou Craig Gannon, que atuou como músico de apoio. No entanto, devido à amizade e aos laços que tinha com o guitarrista Marr, Rourke acabou retornando, porém sob a condição de tratar o vício. O que fez.
Mas, se por um lado havia a genialidade musical de Marr em compor de forma rápida, tendo como influência bandas como The Velvet Underground, The Stooges e até David Bowie como referência criativa, era notório também que ele tinha de lidar com o ego inflado e excêntrico de Morrissey, que, além de ter o dom da escrita, possuía o toque certo para acertar as métricas das letras que escrevia em comum acordo com os arranjos que Marr fazia. Era uma dupla de gênios fortes, mas imprescindível na criação do chamado “som The Smiths”.
O álbum ganhou um relançamento de luxo em vinil em junho de 2017, quando completava 31 anos de lançamento, trazendo o acréscimo de mais três músicas: “Oscillate Wildly”, “Money Changes Everything” e “The Draize Train”, que na época foram descartadas do disco original, pois serviram como lados B dos singles. A gravadora Warner, no mesmo ano, disponibilizou o mesmo material, só que remasterizado, com novas versões de “There Is a Light That Never Goes Out” e “Rubber Ring”, além de incluir um show da banda gravado em 1986.
O disco é um clássico absoluto do chamado indie britânico que estourou nos anos 80 e trouxe grupos essenciais para a história da música, que iniciaram no pós-punk e desenvolveram seu próprio estilo. The Smiths deixou marcas indeléveis por meio de sua influência musical, proporcionando que outras bandas viessem em sua esteira e reverenciassem as músicas criadas por eles.
Eles lançaram seu último disco de estúdio em 1987, o ótimo “Strangeways, Here We Come”. Em 1988, a gravadora Rough Trade lançou o único álbum ao vivo da banda, gravado em 1986, o impactante “Rank”. Depois a banda acabou de vez, com Morrissey seguindo uma carreira solo de sucesso e Johnny Marr trabalhando com outros músicos e produzindo outras bandas, chegando a atuar em dupla com Bernard Sumner, guitarrista e vocalista do New Order, no projeto “Electronic”, que lançou três discos.
Porém, ao reouvir, 40 anos depois, esse disco incrível, “The Queen Is Dead”, percebe-se como o tempo pode ser generoso com algumas músicas e como um legado nunca pode ser destruído ou ignorado diante da magnitude da poesia e da urgência infinita das canções que fizeram parte desse trabalho.
O disco pode ser ouvido na íntegra no Spotify.
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