Nesta terça-feira (14), Silvania Lemos entrou em contato com o
Rondoniaovivo para denunciar o Hospital de Base e sua equipe por transfobia e suposta negligência médica.
“A equipe da cirurgia plástica está tratando minha filha com transfobia. (...) Querem dar alta para uma paciente com uma necrose profunda para fazer curativo em casa”, contou a mãe de Alyssa Lemos, uma jovem trans de 21 anos internada por complicações por aplicação de silicone industrial.
Alyssa está internada desde o dia 12 de julho. Desde então, ela foi da U.T.I. para o setor de cirurgia plástica. A reportagem obteve acesso parcial ao prontuário da moça, onde lê-se: “Sepse cutânea grave - já com sinais de infecção controlada (...) Por ora não há plano de cirurgia dada anemia e leito da ferida”. A complicação obrigou uso de bolsa de colostomia. Silvania conta que foi obrigada a comprar a bolsa e outros insumos médicos por conta própria.
"Me pediram a bolsa de colostomia, esparadrapo, micropore. Isso tudo eu tive que comprar e levar pro hospital", relatou a mãe. "Enquanto tá saindo roubo e o governador viajando, o hospital precisa de insumos", criticou. Ela apresentou um cupom fiscal de R$ 379,42 e disse que este foi apenas um dos gastos desde o início da internação.
"Eles nunca pedem por escrito - pedem para comprar verbalmente para não gerar provas que faltam insumos", conta Silvania - Reprodução de acervo pessoal
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Rondoniaovivo ouviu Alyssa, que reclamou do atendimento do hospital e fez graves acusações contra a equipe médica do Hospital de Base. “Me ajuda. O médico não quer prescrever remédio para dores para mim. Eu estou com muitas dores”, relata a jovem. A suposta transfobia volta a ser abordada.
“Estão me perseguindo, me coagindo, pedindo para eu ir para casa receber alta e eu não tenho condições. Minha perna queima e dói muito”, continua.
A mãe de Alyssa conta que não foi oferecido tratamento psicológico ou assistência de saúde mental para a jovem, embora o registro médico narre que o motivo da internação da moça é reincidente. De dentro do leito, a paciente enviou áudios reforçando o terror psicológico. “Não tenho condições físicas ou psicológicas. É toda hora com transfobia e eu tô muito mal com isso. Uma médica disse que eu ia morrer em cima do leito, falou que eu nunca mais ia conseguir andar. Me tratou muito mal mesmo e me mostrou o dedo [cotoco]”, lamentou.
IMAGEM FORTE
De acordo com estudo da UFRGS, cerca de 42% das travestis e mulheres trans que utilizam o silicone relatam complicações, mas menos da metade (46%) procura serviços formais de saúde para tratá-las por medo de sofrerem ainda mais preconceito - Reprodução de acervo pessoal
Mesmo com uma grande ferida aberta infeccionada e em carne viva, o remédio prescrito para Alyssa até a manhã desta quarta-feira (15), de acordo com a mãe da paciente, é apenas dipirona a cada seis horas. De acordo com duas médicas consultadas por
Rondoniaovivo, o protocolo é - no mínimo - insuficiente.
“Dipirona, primariamente, é para controle de temperatura. Nesse caso é necessário um analgésico mais forte”, pontuou a generalista Kaline Campos.
Contradições e outro lado
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) foi procurada pela reportagem para explicar a denúncia de transfobia, a recusa de analgésicos potentes e o colapso estrutural que obrigou a família a custear o tratamento. A nota oficial enviada pelo Governo, no entanto, diverge das provas documentais apresentadas.
Apesar do cupom fiscal de quase R$ 400 pago pela mãe e do próprio prontuário de Alyssa atestar textualmente que o curativo foi "realizado sem material adequado", a Sesau alegou que o hospital "mantém fluxo regular de abastecimento". A pasta justificou apenas que situações envolvendo materiais específicos "são avaliadas individualmente".
A resposta oficial também contrasta com o desespero da jovem no leito. Enquanto a paciente chora afirmando que "queima e dói muito" e médicas independentes apontam a insuficiência da dipirona, a Sesau limitou-se a dizer que as decisões da equipe, incluindo a contestada alta médica, são tomadas "exclusivamente com base em critérios técnicos, clínicos e multiprofissionais".
Por fim, o Estado ignorou completamente a acusação de que a equipe médica estaria praticando transfobia, hostilidade e terror psicológico contra a jovem. A secretaria não respondeu se a médica acusada pelas intimidações será afastada, informando apenas que a direção do Hospital de Base "determinou a apuração administrativa dos fatos relatados" e que “não compactua com quaisquer formas de discriminação”.