A gigante do saneamento básico Aegea, que atua em 890 cidades atendendo 39 milhões de pessoas, pagou cerca de R$ 30 milhões em propina, além de um carro de luxo da marca BMW, ao atual deputado federal Juarez Costa (Republicanos-MT). A empresa atua em municípios rondonienses e tem interesse na privatização da CAERD.
As confissões foram feitas por cinco executivos da empresa em acordos de colaboração premiada firmados entre 2020 e 2021 e homologados em 2025 pelo ministro Raul Araújo, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Os pagamentos ilícitos ocorreram para facilitar os negócios da companhia durante o período em que Costa comandava a prefeitura de Sinop, no Mato Grosso, entre 2009 e 2016. Ao todo, os delatores confessaram o pagamento de R$ 63 milhões em vantagens indevidas entre 2010 e 2018, espalhados por 20 municípios de seis estados brasileiros.
Segundo o ex-presidente da Aegea, Hamilton Amadeo, os R$ 30 milhões foram repassados ao longos anos para quitar dívidas de campanha do político. Como parte do acerto, Juarez Costa solicitou diretamente ao presidente da companhia a compra de uma BMW em 2014.
O ex-diretor financeiro Flávio Crivellari detalhou que o veículo custou R$ 330 mil à época (cerca de R$ 625 mil em valores corrigidos) e foi adquirido e transferido por meio de um consultor terceirizado chamado Eduardo Valdívia. Em troca da propina, o então prefeito alterou regras e criou leis para beneficiar a concessionária.
Dinheiro na praia e notas frias
A engenharia financeira para lavar o dinheiro do suborno envolvia táticas elaboradas. Um dos ex-executivos relatou que R$ 1,2 milhão foi entregue em espécie a Juarez Costa em Balneário Camboriú, em Santa Catarina. O responsável viajava até a cidade litorânea e combinava a entrega do dinheiro vivo em uma esquina da Avenida Brasil.
Para gerar o caixa paralelo, a Aegea remunerava a RJD Construtora por serviços com um superfaturamento de 20%, repassando a diferença para bancar despesas pessoais do então prefeito, incluindo a compra de imóveis na cidade catarinense.
Outro duto de propina funcionava através de postos de combustível em Sinop indicados pelo próprio político: as compras de combustíveis eram fictícias e os repasses, que ultrapassaram R$ 3 milhões, eram operados pela Foccos Engenharia, empresa de Eduardo Valdívia.
Silêncio e "empobrecimento"
Procurado pela reportagem do portal Metrópoles, o deputado Juarez Costa manteve o silêncio e não comentou as acusações. Curiosamente, nas declarações entregues à Justiça Eleitoral nas eleições de 2020 e 2022, o parlamentar alegou ter empobrecido, informando que seu patrimônio caiu para R$ 2,2 milhões e que não possuía nenhum carro — ele nunca declarou a BMW à Justiça.
A Aegea, que possui a Itaúsa (holding controladora do Itaú Unibanco) como dona de cerca de 13% de seu capital social, declarou em comunicado ao mercado financeiro que as práticas criminosas ficaram no passado.
Segundo o diretor financeiro da companhia, a assinatura do termo de acordo teve o objetivo de concluir os eventos e fortalecer o "compromisso com a ética, assegurando assim sua cultura de integridade corporativa".
Rondônia
A atuação da Aegea em Rondônia teve início em 2015, com foco na prestação de serviços de saneamento básico, o que engloba o fornecimento de água tratada e o esgotamento sanitário.
Atualmente, a companhia atende a cerca de 350 mil habitantes no estado, sendo a concessionária responsável por operar o sistema em cinco importantes municípios rondonienses: Ariquemes, Buritis, Jaru, Pimenta Bueno e Rolim de Moura.