O Senado Federal aprovou recentemente a implantação de uma prova de ordem para a medicina, em resposta à crescente preocupação com a baixa qualidade da formação de profissionais de saúde no Brasil. A medida chega em um momento em que o país enfrenta uma crise silenciosa na educação médica, com impactos diretos na segurança do paciente e na saúde pública.
Nas últimas duas décadas, o número de faculdades de medicina no Brasil cresceu de forma acelerada, mas, segundo críticos, a expansão não foi acompanhada por avanços proporcionais na qualidade do ensino. O resultado, afirmam especialistas, é a formação de profissionais com capacitação insuficiente, contribuindo para erros evitáveis e riscos desnecessários aos pacientes.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 10% dos pacientes hospitalizados sofrem algum tipo de dano durante o atendimento, e cerca de 3 milhões de mortes por ano poderiam ser evitadas com práticas médicas mais seguras. Esses números, amplamente divulgados em estudos internacionais, são frequentemente citados por defensores da prova como sinal da urgência em elevar os padrões de formação no Brasil.
A nova prova de ordem para médicos, similar ao exame exigido em outras profissões regulamentadas, tem o objetivo de criar uma barra de qualidade mínima para o exercício da medicina no país. Parlamentares que apoiaram a iniciativa argumentam que o exame ajudará a filtrar candidatos, reforçar a credibilidade da profissão e, sobretudo, proteger a população contra práticas inseguras.
Críticos da expansão desenfreada de cursos alertam que a simples multiplicação de instituições de ensino superior nem sempre vem acompanhada de estrutura adequada, corpo docente qualificado e supervisão real das atividades práticas — elementos essenciais para uma formação médica sólida.
Especialistas em saúde pública defendem que a prova de ordem seja apenas uma parte de um conjunto de ações mais amplo, que inclua fortalecimento de programas de residência médica, revisão de currículos, maior investimento em avaliação e fiscalização e garantias de que a prática supervisionada ocorra de forma efetiva.
Para a sociedade civil e profissionais da saúde, a discussão vai além de requisitos burocráticos: é uma questão de segurança e de vidas humanas. Cada diagnóstico perdido, cada conduta equivocada e cada atendimento sem supervisão adequada não representam apenas falhas educacionais, mas custos elevados em sofrimento e recursos no sistema de saúde.
O debate agora se volta para a implementação da prova de ordem e seus desdobramentos práticos — como será a organização do exame, os critérios de aprovação e o papel das instituições de ensino e conselhos profissionais na adaptação a esse novo marco regulatório.