O que cativa um cinéfilo ao assistir a um filme, seja em DVD ou no cinema, e o faz querer revê-lo? Uma história bem contada? Interpretações marcantes? Uma direção criativa e um roteiro bem estruturado?
São muitos os fatores. Mas quando um longa-metragem reúne todas essas qualidades — como Operação França e Viver e Morrer em Los Angeles, ambos de William Friedkin, Louca Obsessão, de Rob Reiner, e Os Suspeitos, de Bryan Singer — a vontade de rever cada um desses trabalhos é imediata.
Paul Sheldon é um escritor de sucesso. Ficou rico com os livros da personagem Misery, mas almeja reconhecimento, não como autor de uma série interminável de histórias folhetinescas. Sua maior fã é Annie Wilkes, uma enfermeira reclusa que tem todos os livros da série. Um dia, no meio de uma tempestade de neve, Sheldon sofre um acidente de carro e Wilkes, por coincidência, o salva.
Curiosamente, a ideia para o livro surgiu depois que Stephen King foi atropelado durante uma caminhada e ficou meses imobilizado numa cama de hospital. Só um escritor muito criativo tiraria uma história do próprio acidente. Assim nasceu Misery.
Este é, em linhas gerais, o enredo de Louca Obsessão, dirigido por Rob Reiner, com excelente roteiro do veterano William Goldman, premiado duas vezes com o Oscar de melhor roteiro: em 1970 por Butch Cassidy and the Sundance Kid e em 1977 por Todos os Homens do Presidente. Nos papéis principais, James Caan e Kathy Bates, premiada com o Oscar de melhor atriz por sua interpretação.
Louca Obsessão é um dos melhores filmes baseados numa obra do mestre do terror Stephen King. Ele expõe o pior pesadelo de um escritor: ficar à mercê de uma fã que se considera a número um. Paul Sheldon vive momentos de terror ao descobrir que sua salvadora não é muito saudável da cabeça, principalmente quando ela descobre, ao comprar o mais recente livro da série, que a personagem principal morre no final.
Excelente direção de Reiner, que soube trabalhar muito bem o roteiro de Goldman. A adaptação respeita a obra de King, principalmente por utilizar o melhor que ela oferece. O suspense prende a atenção do espectador, sobretudo nos momentos mais tensos e violentos do longa. Caan e Bates entregam performances impecáveis.
O elenco coadjuvante também brilha. A presença da veterana Lauren Bacall dá ainda mais qualidade ao filme. Vale destacar também Frances Sternhagen, como a esposa bisbilhoteira do xerife vivido por Richard Farnsworth. Outro ponto alto é a bela fotografia de Barry Sonnenfeld, que mais tarde se tornaria diretor de filmes como Homens de Preto 1, 2 e 3 e O Nome do Jogo.
Este longa entra na seleta lista das melhores adaptações de King: Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre e O Nevoeiro, todos dirigidos por Frank Darabont; Carrie, a Estranha, de Brian De Palma; O Aprendiz, de Bryan Singer; O Iluminado, de Stanley Kubrick; e Conta Comigo, também de Rob Reiner.
Antes de Bryan Singer perder o rumo dirigindo superproduções repletas de efeitos especiais, com exceção de Operação Valquíria e O Aprendiz, e de o roteirista Christopher McQuarrie se tornar o escritor de estimação do astro Tom Cruise, cineasta e roteirista fizeram juntos um dos melhores suspenses dos últimos 30 anos, com o mais surpreendente dos finais.
Trata-se do enigmático Os Suspeitos, estrelado por Gabriel Byrne, Kevin Spacey — que levou o Oscar de melhor ator coadjuvante —, Kevin Pollak, Stephen Baldwin e Benicio Del Toro. Eles interpretam ladrões que, por conta de uma armação, acabam presos acusados do roubo de um caminhão cheio de armas. Mais tarde, o grupo descobre que o armamento pertence a um chefão implacável chamado Keyser Söze.
O enredo muito bem armado por McQuarrie envolve o público numa história de intriga e violência que culmina numa revelação final que pega os espectadores desprevenidos. Rever Os Suspeitos é sempre um prazer renovado, ainda mais quando lembramos que nenhuma outra produção recente conseguiu tal proeza de superar as expectativas. Talvez só O Sexto Sentido.
Os Suspeitos é um filme inteligente e divertido onde nada é o que parece. Não apela para violência explícita. A direção de Singer, em sua aclamada estreia dirigindo um longa-metragem, é inspirada e o elenco está em estado de graça. O roteiro de Christopher McQuarrie é um banquete, uma iguaria do gênero, uma legítima pérola do cinema contemporâneo.
Quatorze anos separam Operação França (1971), ganhador de cinco Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor e Ator para Gene Hackman, de Viver e Morrer em Los Angeles (1985), ambos dirigidos pelo cineasta William Friedkin, de O Exorcista.
Operação França conta a história de Jimmy "Popeye" Doyle e seu parceiro Buddy "Cloudy" Russo, dois detetives durões da cidade de Nova York que descobrem uma rede de tráfico de heroína originada na França. Essa história tem ecos no excelente Gângster Americano, de Ridley Scott.
Quando ficam sabendo que o cabeça da organização, Alain Charnier, vivido por Fernando Rey, está na cidade, nada os deterá até que o prendam. Então, o instável Doyle fica completamente obcecado em capturar o chefão, causando uma série de perseguições intensas e memoráveis, incluindo a icônica sequência sob o trem elevado.
Quatro anos depois, em 1975, veio a sequência Operação França II, desta vez dirigida por John Frankenheimer, de Sete Dias de Maio e Ronin. William Friedkin não retornou, pois não quis repetir a fórmula e estava envolvido em outros projetos. Gene Hackman reprisou o papel de Popeye Doyle, agora enviado a Marselha para caçar Alain Charnier, que escapou no final do primeiro filme.
A recepção foi morna comparada ao original. Operação França II tem 67% de aprovação no Rotten Tomatoes e foi elogiado pela atuação obsessiva de Hackman e pela sequência de tortura a que Doyle é submetido, mas criticado pelo ritmo mais lento e pela falta da energia bruta do primeiro.
Ainda assim, rendeu a Hackman uma indicação ao BAFTA de Melhor Ator e é cultuado hoje como um thriller policial seco e violento, típico dos anos 70. A bilheteria foi sólida, com US$ 12,3 milhões nos EUA, mas longe dos US$ 75 milhões do original, um dos maiores sucessos da década.
Na trama de Viver e Morrer em Los Angeles - outra incursão de Friedkin ao gênero, quando seu parceiro de longa data é assassinado, o impulsivo agente do Serviço Secreto Richard Chance, interpretado por William Petersen (CSI), jura vingança e sai em busca do falsário Eric Masters, vivido por Willem Dafoe.
Junto com seu novo colega de trabalho, John Vukovich, Chance traça um plano para prender o bandido que acaba resultando na morte acidental de um oficial. O desejo por justiça do policial vira obsessão, levando Vukovich a questionar seus métodos pouco convencionais e cada vez mais perigosos.