Dois monstros sagrados e suas obras-primas - por Humberto Oliveira

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Escrever sobre Francis Ford Coppola e Martin Scorsese é mesmo pisar em terreno sagrado. Tudo já foi dito, mas alguns filmes exigem que a gente tente dizer de novo. Os quatro que você citou não são só cinema. São cicatrizes na cultura.
 
Italo-americano de Detroit, Coppola virou sinônimo de risco. Nos anos 70 ele fez o estúdio refém da própria ambição e ganhou. Três vezes. O Poderoso Chefão, A Conversação e Apocalypse Now saíram no mesmo período e redefiniram o que um diretor podia fazer em Hollywood. 
 
Ganhou cinco Oscars, duas Palmas de Ouro em Cannes, e o Leão de Ouro pelo conjunto da obra. Coppola filma como quem conduz uma ópera: tudo é grande, trágico, inevitável.
 
Nova-iorquino de Little Italy, Scorsese é a fúria católica filmada em 24 quadros por segundo. Ninguém retrata culpa, violência e redenção como ele. Parceria com De Niro e DiCaprio, montagem frenética da Thelma Schoonmaker, trilha sonora que é personagem. Tem um Oscar de Melhor Diretor por Os Infiltrados, Palma de Ouro por Taxi Driver, e um Leão de Ouro honorário. Se Coppola é ópera, Scorsese é rock com confessionário.
 
 
Francis Ford Coppola nos bastidores de O Poderoso Chefão
 
O Poderoso Chefão (1972) é o clássico instantâneo de Coppola - seguido de perto por O Poderoso Chefão parte 2 (1974) - que fez história por ser a primeira continuação a conquistou o Oscar de Melhor Filme. No total foram seis das 11 indicações. É a máfia filmada como tragédia shakespeariana. Michael Corleone começa querendo distância da família e termina sozinho no escuro, mais frio que o pai. A trilogia mostra muito bem a ascensão e queda de Michael. 
 
Marlon Brando como Vito Corleone ganhou o Oscar de melhor ator e recusou a estatueta. Al Pacino virou estrela ali, no silêncio antes do tiro no restaurante. James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton. E Robert De Niro como o jovem Vito em Parte II, que lhe deu o primeiro Oscar, de Ator Coadjuvante.
 
O longa-metragem ganhou três Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Brando - merecia muitos mais. Cinco Globos de Ouro. Está em toda lista de "melhor filme de todos os tempos".
 
Cada cena tem peso de história. A fotografia do Gordon Willis, aquele dourado escuro, parece pintura. Coppola pegou um romance pulp e transformou em mito americano.
 
 
Coppola nos bastidores caóticos de Apocalypse Now
 
Em 1979, Coppola realiza Apocalypse Now (1979). A guerra como alucinação nesta adaptação de Coração das Trevas para o Vietnã já era loucura. Filmar nas Filipinas com tufão, Marlon Brando obeso e Martin Sheen tendo infarto parecia suicídio. Virou obra-prima.
 
Martin Sheen carrega o filme com o cansaço nos olhos. Marlon Brando como Kurtz: 15 minutos em cena que assombram até hoje. Robert Duvall e o "Eu amo o cheiro de napalm pela manhã" que virou bordão. Dennis Hopper, completamente chapado em cena e fora dela.
 
Apocalypse Now levou Ouro em Cannes, dividida. Dois Oscars: Fotografia e Som e três Globos de Ouro.
 
É o caos mais bonito já filmado. As portas do helicóptero abrindo com The End do The Doors, a valquíria de Wagner no ataque. Coppola filmou a própria insanidade. O documentário O Apocalypse de um Cineasta, da Eleanor Coppola, mostra: o filme quase matou ele. Valeu cada surto.
 
 
Martin Scorsese e Robert De Niro nos bastidores de Taxi Driver
 
O que dizer de Taxi Driver (1976), de Scorsese? Aqui a solidão tem um nome: Travis Bickle, vivido intensamente por Robert De Niro dirigindo seu taxi amarelo pela Nova York podre dos anos 70 pelos olhos de um insone que decide "limpar" a cidade. É desconfortável, sujo, hipnótico.
 
Robert De Niro entrou no método de vez. Tirou licença de taxista, rodou 12h por dia em NY. O "Você está falando comigo?" foi improviso e referenciado em vários outros filmes, entre eles, De volta para o futuro. Jodie Foster com 12 anos, indicada ao Oscar como a prostituta Iris. Harvey Keitel, Cybill Shepherd também marcantes. 
 
Taxi Driver ganhou Palma de Ouro em Cannes. Quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para De Niro. Perdeu tudo, o que hoje parece piada.
 
Inesquecível e visceral, o longa conta a trilha do mestre Bernard Herrmann, que é puro suspense psicológico. Scorsese te tranca na cabeça do Travis e joga a chave fora. Quando acaba, você precisa de banho. É um filme que dói.
 
 
Scorsese e De Niro nas filmagens de Touro Indomável
 
Touro Indomável (1980) é mais um Scorsese insuperável. O melhor dos anos 80, filmado em preto e branco. A vida de Jake La Motta, um campeão que apanhava da vida fora do ringue tanto quanto dentro. Não é sobre boxe. É sobre um homem em guerra com ele mesmo.
 
De Niro ganhou 27kg para as cenas do La Motta gordo. Levou o merecido Oscar de Melhor Ator e mereceu cada grama. Joe Pesci estreia aqui como Joey, o irmão. Cathy Moriarty, indicada ao Oscar no primeiro filme da carreira. O filme também ganhou o Oscar de Melhor Montagem para Thelma Schoonmaker. Ao todo foram oito indicações incluindo Filme e Diretor. Ganhou o prêmio da crítica de NY e LA como melhor filme do ano.
 
A luta contra Sugar Ray Robinson filmada com sangue, suor e flash de câmera é poesia brutal. Scorsese transformou violência em balé. De Niro não interpreta La Motta, ele é La Motta. Aquela cena final no espelho: "Eu poderia ter sido alguém,"... devasta.
 
Coppola e Scorsese são opostos que se completam. Coppola filma a queda de impérios, de famílias, de homens que queriam ser deuses. Scorsese filma a queda do homem comum, consumido por culpa, raiva e desejo de redenção.
 
Poderoso Chefão e Apocalypse Now são delírios grandiosos sobre poder e loucura. Taxi Driver e Touro Indomável são mergulhos claustrofóbicos na mente de homens quebrados. Quatro deles têm De Niro em estado de graça.
 
Impossível dizer algo novo sobre eles? Talvez. Mas rever esses filmes é sempre descobrir que eles tinham mais uma camada. São desses que envelhecem melhor que a gente. São cinema eterno.
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