'A MORTE NÃO ESPERA HORÁRIO': Ademilson de Gouveia, com 32 anos no setor funerário, critica poder público

Há mais de 32 anos atuando no setor funerário, ele acumula histórias marcantes, transformações profundas no segmento e uma visão crítica sobre o tratamento dado ao setor pelos gestores públicos

'A MORTE NÃO ESPERA HORÁRIO':  Ademilson de Gouveia, com 32 anos no setor funerário, critica poder público

Foto: Reprodução

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Poucas pessoas em Vilhena conhecem tão de perto a dor, o luto e os bastidores das despedidas quanto Ademilson de Gouveia Silva, mais conhecido como Nino, fundador da Funerária São Mateus. Há mais de 32 anos atuando no setor funerário, ele acumula histórias marcantes, transformações profundas no segmento e uma visão crítica sobre o tratamento dado ao setor pelos gestores públicos.
 
A trajetória começou de forma inesperada e dolorosa. Antes de ingressar no ramo funerário, Nino trabalhava em fazendas durante o período de colonização de Rondônia, enfrentando condições extremamente precárias. A perda de dois irmãos em acidentes de trabalho mudou completamente o rumo de sua vida.
 
Foi justamente após enfrentar dificuldades para pagar o funeral de um dos irmãos que surgiu a oportunidade de trabalhar em uma funerária.
 
“Entrei no serviço funerário porque tive dificuldade para pagar o funeral do meu irmão. Acabei quitando parte da dívida trabalhando. Nunca imaginei que passaria a vida inteira nessa profissão”, relembra.
 
Da precariedade à profissionalização
 
Quando começou, o setor funerário em Vilhena era completamente diferente da realidade atual.
 
Segundo Nino, os serviços eram realizados sem estrutura adequada, sem equipamentos modernos e sem técnicas especializadas para conservação e preparação dos corpos.
 
“Era praticamente pegar o corpo, colocar no caixão e levar para o cemitério. Trabalhávamos em cima de uma mesa de madeira. Não existia praticamente nada do que existe hoje.”
 
As dificuldades eram tantas que ele chegou a morar dentro das instalações da funerária.
 
“Eu era recém-casado. Morava numa casa de madeira ao lado do necrotério. Do quarto dava para ver os corpos sendo preparados. Minha esposa tinha apenas 17 anos quando passamos por isso.”
 
Décadas depois, ele vê uma transformação radical no setor.
 
“Hoje é como sair de uma carroça e entrar em um avião. Temos laboratórios, equipamentos modernos e profissionais especializados. Evoluímos muito.”
 
Corumbiara, chacinas e tragédias marcaram sua trajetória
 
Ao longo da carreira, Nino não trabalhou apenas em funerais.
 
Durante anos também atuou como motorista de ambulância, numa época em que os mesmos veículos utilizados para remoções funerárias eram empregados no transporte de pacientes.
 
Essa realidade o colocou em alguns dos episódios mais violentos da história recente de Rondônia.
 
Entre eles, o conflito de Corumbiara, em 1995.
 
“Foi o maior desafio da minha vida. Vi pessoas baleadas que eu não podia socorrer. Vi situações que jamais esqueci.”
 
Ele também participou de operações durante conflitos agrários na região de Vilhena e acompanhou de perto inúmeros acidentes, homicídios e tragédias.
 
O sofrimento que nunca desaparece
 
Apesar de mais de três décadas convivendo diariamente com a morte, Nino afirma que nunca conseguiu se acostumar completamente com o sofrimento das famílias.
 
Curiosamente, ele diz que o momento mais difícil não é recolher corpos em estado avançado de decomposição nem atender cenas violentas.
 
“O mais difícil é quando você precisa abrir uma urna para o reconhecimento de um ente querido. É ali que você vê a dor humana em sua forma mais intensa.”
 
Ele admite que, até hoje, evita permanecer nos velórios.
 
“Eu consigo buscar o corpo, preparar tudo, organizar o funeral. Mas tenho dificuldade de ficar no velório. Quando chega aquele momento em que não posso mais ajudar, aquilo mexe muito comigo.”
 
Uma profissão sem horário e sem vida social
 
Outro aspecto pouco conhecido da atividade, segundo ele, é a dedicação integral exigida pelo setor.
 
“O telefone toca de madrugada, nos feriados, no aniversário dos filhos, no Natal. A morte não escolhe horário.”
 
Nino afirma que praticamente abriu mão da vida social durante décadas.
 
“A maioria das pessoas nunca me viu sentado numa lanchonete tomando uma Coca-Cola. Em mais de 30 anos, consigo contar nos dedos quantas vezes tive esse momento.”
 
Críticas ao poder público
 
Além dos desafios naturais da profissão, Nino faz duras críticas ao que considera falta de apoio e excesso de burocracia por parte do poder público.
 
Segundo ele, o setor funerário convive há anos com insegurança jurídica, mudanças constantes de regras e dificuldades impostas por administrações municipais.
 
“O serviço funerário não tem uma legislação federal específica. Ficamos dependentes de leis municipais que mudam o tempo todo. Dormimos com uma regra e acordamos com outra.”
 
Ele também afirma que o setor frequentemente enfrenta decisões administrativas que, em sua avaliação, dificultam o funcionamento das empresas funerárias.
 
“Quem deveria ajudar muitas vezes acaba atrapalhando. Existem situações em que somos obrigados a lidar com burocracias que não melhoram o serviço para a população.”
 
O debate sobre o cemitério municipal
 
Entre os temas que mais preocupam o empresário está a situação do cemitério municipal de Vilhena.
 
Na avaliação de Nino, o debate sobre a capacidade de sepultamentos precisa ser tratado com planejamento de longo prazo.
 
Ele entende que ainda existem alternativas para otimizar espaços já existentes, mas defende que o município avance na discussão sobre novas áreas para sepultamento.
 
“O cemitério público continua sendo uma necessidade social importante. Muitas famílias dependem dele.”
 
Cemitérios-parque são avanço, mas não substituem o público
 
A chegada dos cemitérios-parque privados à cidade é vista por Nino como um avanço para o setor.
 
Segundo ele, os novos empreendimentos oferecem uma alternativa moderna e podem contribuir para melhorar a estrutura funerária disponível no município.
 
No entanto, ele faz uma ressalva.
 
“Os cemitérios-parque vão ajudar muito, mas não substituem o cemitério público. Os dois modelos precisam coexistir.”
 
Para ele, enquanto os empreendimentos privados oferecem uma opção diferenciada para quem deseja esse modelo, o cemitério público continua sendo fundamental para atender famílias de menor poder aquisitivo.
 
Tecnologia mudou a forma de trabalhar
 
A modernização também chegou ao setor funerário.
 
Hoje, segundo Nino, muitos procedimentos podem ser resolvidos remotamente, inclusive translados interestaduais.
 
Durante a pandemia da Covid-19, a tecnologia permitiu que a equipe coordenasse simultaneamente operações em diversas regiões do país.
 
“Recebíamos demandas de vários estados ao mesmo tempo e conseguíamos organizar tudo de forma integrada. Isso era impensável anos atrás.”
 
O que a morte ensinou sobre a vida
 
Depois de uma vida inteira convivendo com despedidas, tragédias e histórias humanas das mais diversas, Nino diz que aprendeu uma lição simples, mas profunda: valorizar o presente.
 
“A vida é maravilhosa e precisa ser vivida intensamente. A morte é inevitável, mas não deve ser encarada apenas com medo.”
 
Cristão, ele acredita que a convivência diária com a finitude fortaleceu sua fé e sua compreensão sobre a existência.
 
“Aprendi que precisamos cuidar da família, tratar as pessoas com humanidade e viver cada dia da melhor forma possível. A morte chega para todos. O importante é estar em paz quando ela chegar.”
 
Aos 32 anos de profissão, Ademilson de Gouveia Silva continua sendo uma das figuras mais conhecidas do setor funerário em Vilhena. Entre críticas ao poder público, avanços tecnológicos e milhares de histórias acompanhadas ao longo das décadas, ele segue desempenhando uma função que poucos escolhem exercer: ajudar famílias a enfrentar o momento mais difícil da vida.
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