CINEAMAZÔNIA: (Contra)arquivos resgatam memória de Rondônia sob a ótica dos vencidos

Em painel acompanhado pelo Rondoniaovivo, pesquisadores da Unir discutem a preservação do acervo do século 20 e o legado de Sílvio Tendler, que defendia a memória como bússola para o futuro

CINEAMAZÔNIA: (Contra)arquivos resgatam memória de Rondônia sob a ótica dos vencidos

Foto: Os pesquisadores pretendem restaurar filmes em uma segunda etapa da pesquisa / Rondoniaovivo

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No auditório da Unir-Centro, o Encontro (Contra)Arquivos Fílmicos de Rondônia marcou o encerramento do projeto de pesquisa Imagens de Rondônia no século 20: mapeamento, história e análise, desenvolvido pelos professores Juliano Araújo (Unir) e Naara Fontinele (Unir/Upjv). O evento, que integra a programação oficial da 19ª edição do Cineamazônia – Festival de Cinema Ambiental, foi acompanhado pelo Rondoniaovivo ontem. A noite de debates antecedeu a exibição do documentário clássico Rondônia, viagem à Terra Prometida (1986), em homenagem ao cineasta Sílvio Tendler.
 
 
 
 
 
 
A memória como bússola, não como âncora
 
A tese de que a história oficial de Rondônia silenciou as populações tradicionais e as consequências do desenvolvimentismo civil-militar deu o tom das discussões. A exibição de Viagem à Terra Prometida resgata a reflexão deixada por Sílvio Tendler, gravada em entrevista antes de seu falecimento, sobre o papel do documentário em momentos de crise social.
 
Para Tendler, o resgate das imagens do passado é um instrumento ativo de sobrevivência e orientação: "Em momento de crise a gente se refugia na memória olhando para o futuro." O diretor defendia que o passado não deve atuar como um fator de paralisia social, mas sim como propulsor de novos caminhos: "Que a memória nos sirva de bússola para navegar e não como âncora que vai nos prender, nos amarrar num lugar. Vamos navegar pautados pela memória e pelo futuro."
 
Conspiração fílmica e desordem militar em Rondônia
 
O projeto de pesquisa da Unir, apoiado pelo CNPq, catalogou e analisou produções cinematográficas do século passado que retrataram a Amazônia Ocidental. Segundo o professor Juliano Araújo, a pesquisa buscou traçar uma "espécie de constelação fílmica" a partir do mapeamento de imagens produzidas, em grande parte, por cineastas passantes.
 
O pesquisador relembrou que a história do cinema local deve ir além do circuito comercial para documentar a dor das comunidades devastadas pelas grandes obras na região.
 
Imagens contra a violência imperial e a retomada pedagógica
 
A pesquisadora Naara Fontinele destacou que os arquivos audiovisuais, quando compreendidos como documentos históricos, operam uma ruptura contra as propagandas desenvolvimentistas que promoveram o apagamento de indígenas e ribeirinhos da historiografia local.
 
 
FOTO: Além do filme de Tendler, os pesquisadores exibiram trechos de outras obras feitas em Rondônia / Rondonioavivo
 
Apoiando-se nas teses de "história potencial" da teórica visual Ariella Aïsha Azoulay, Fontinele provocou a plateia a se envolver com as imagens: "Esses filmes fazem com que a gente se envolva com as consequências da violência imperial, como se ela estivesse ocorrendo aqui e agora."
 
A pesquisadora evidenciou que há um interesse muito particular no aproveitamento didático e social desse patrimônio. Juliano Araújo ressaltou essa vertente prática em sua fala, pontuando que há uma demanda significativa na retomada do material e na realização de exibição sob uma perspectiva didática. A proposta é transformar os rolos de filme e registros recuperados em ferramentas de debate crítico diretamente nas salas de aula e espaços comunitários.
 
Preservação
 
Rondônia não possui um acervo público estruturado, físico ou digital, para a preservação de sua história audiovisual. A busca por cópias e a restauração de películas obriga os pesquisadores a visitarem instituições distantes, como as Cinematecas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Três dos filmes identificados pela pesquisa, por exemplo, não puderam ser exibidos no festival porque existem apenas em película física e aguardam recursos para digitalização.
 
É importante notar, neste contexto, a omissão do poder público estadual, que não tem se movimentado para a organização ou financiamento de uma estrutura de salvaguarda de acervo. Atualmente, os realizadores locais encontram-se desamparados, recorrendo ao armazenamento individual de suas obras em HDs externos domésticos.
 
 
FOTO: Filmes premiados produzidos em Rondônia, a exemplo de 'Ela Mora Logo Ali', podem se perder se não forem conservados corretamente / Reprodução
 
Naara Fontinele e Juliano Araújo destacaram a extrema vulnerabilidade desse método, lembrando que a vida útil média desse tipo de dispositivo digital é de apenas cinco a oito anos.
 
Sem uma política pública ativa para garantir que os editais de fomento, como as leis de incentivo, reservem percentuais obrigatórios para a preservação e não apenas para o custeio de novas produções, a memória recente de Rondônia corre o risco de desaparecer no vácuo tecnológico.
 
"É de fato importante a gente conseguir ter um acervo aqui em Rondônia para poder trazer esses filmes para cá, ter digitalizado," cobrou a equipe técnica da Unir, apontando que a preservação da identidade regional exige ações urgentes que retirem a salvaguarda histórica da invisibilidade governamental.
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