RETRATO DE MULHER: Leia o perfil - 'Lilian Moser: história de uma historiadora'

Conheça a história de uma professora empenhada em desenvolver a educação rondoniense

RETRATO DE MULHER: Leia o perfil - 'Lilian Moser: história de uma historiadora'

Foto: Reprodução do acervo da entrevistada / Retrato de Mulher

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Lilian Moser, nascida em 3 de julho de 1954, na pacata cidade de Blumenau, interior de Santa Catarina, filha de um operário esquerdista e de uma dona de casa, caçula de seis filhos, logo em sua infância, teve um desafio simples, porém delicado para a sua sobrevivência: aprender uma nova língua, diferente daquela que conhecia, que viria a ser o nosso português,já que seus familiares tinham como língua materna o alemão.
 
Sua transição de criança para adolescente foi algo comum para a época. Mas logo teve que lidar com uma vida dupla entre a escola e a ajuda ao pai e aos irmãos nas atividades da roça. Para aquele tempo, Lilian já deveria ter saído da escola, pois sabia o famoso essencial para uma mulher: ler e escrever, com a conclusão da 4ª série do ensino primário. Além dos saberes básicos, esperava-se que a mulher aprendesse a fazer bordados e a cuidar da casa, preparando-se para ser uma bela dona de casa.
 
 
O olhar da sociedade via com resistência as meninas que escolheram estudar em vez de aprender as atividades necessárias para serem boas esposas, casarem-se e terem vários filhos. Lilian logo se viu em um conflito, no qual teve que lidar com o seu pai em relação ao seu progresso na escola. Com o apoio da mãe, conseguiu progredir nos estudos e terminar a escola. Esse foi o seu ponto de partida para o sucesso. Ela terminou a escola e, quando saiu, já estava habilitada para ser professora.
 
Lilian não deu tempo para o descanso. Logo foi ser professora catequista em um convento da cidade, mas, como a jovem forte que sempre foi, negou-se a usar as roupas tradicionais. Neste lugar, descobriu a sua maior ferramenta de vida: adquirir novos saberes por meio das pessoas, desde uma criança até um analfabeto, sem nenhuma distinção.
 
A vida logo lhe mostraria que o estado de Santa Catarina seria a sua terra natal, mas o estado de Rondônia seria o seu precursor na vida. Em 21 de janeiro de 1980, Lilian chegou à cidade de Ariquemes para trabalhar como professora na recém-aberta Casa das Freiras, que desenvolvia atividades filantrópicas e havia sido aberta recentemente no município. Com isso, fez passagens por outros municípios, como Guajará-Mirim e Porto Velho.
 
Nessas passagens, viu sertanejos fugindo da seca, agricultores pobres com esperança de mudar de vida por meio da distribuição de terras. Seus olhos avistaram o castigo da fome em adultos e crianças, além da perda de um teto, uma realidade diferente daquela a que estava habituada.
 
Nesse contexto tão adverso, Lilian adentrou em um grupo de missionários que buscava amenizar, por meio do acolhimento, as lutas dos imigrantes recém-chegados e dos habitantes que já estavam aqui, lutando por terras que hoje são bairros da cidade de Porto Velho.
 
 
Sua solidariedade com as pessoas é algo imbatível. Seu olhar e seus ouvidos atentos serviriam, mais tarde, para melhorar o seu currículo acadêmico.
 
Nesse retrato, Lilian aparece atrás de uma casinha que servia para cultos, aulas e reuniões com os moradores e, logo depois, reúne-se com eles para ouvir seus diálogos. Nessa época, os missionários tinham a função de conquistar fiéis para a Igreja Católica, mas Lilian, como boa ouvinte que é, preferia emprestar seus ouvidos aos que não tinham nem ouvidos nem voz.
 
Em suas palavras, naquele tempo tão difícil, marcado pelos impactos da pobreza na cidade e pela falta de expectativas de melhorias, Lilian sentia-se bem, pois se identificava com a cultura local. Mesmo tendo saído de sua terra natal para ensinar, aprendeu mais com as pessoas do que ensinou.
 
Em 1992, Lilian formou-se em História e, nos anos posteriores, agiu como um pássaro que constrói um ninho em uma árvore, buscando alimentos em outras árvores, mas que, ao entardecer, volta para o seu lar. Lilian voou para outras árvores, além da cidade de Porto Velho, em busca de novos saberes e, ao entardecer, voltou para o seu ninho, Rondônia, trazendo frutos ricos em conhecimento, disponíveis para outros pássaros pequenos.
 
Em sua trajetória, conquistou o mestrado em História pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1995, e o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável, pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, em 2006. Atualmente, é professora titular da Universidade Federal de Rondônia. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Regional e História do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: história, cultura, memória, migração, religião e gênero.
 
 
Mais do que um momento de aula, o retrato se tornou uma memória
 
Embora a universidade seja o seu lar atual, Lilian deu aulas em escolas de bairros, onde expressa que se sentia à vontade e confortável para distribuir o seu conhecimento, sempre
atenta para colher os saberes das pessoas ao seu redor.
 
Mesmo tendo uma formação acadêmica invejável, sua realização profissional é ver o aluno mudar de vida através dos estudos, seus olhos falam por si só a ponto de brilharem, sua voz embargada mostra que sucesso como historiadora é também formar novos historiadores.
 
Mas como toda mulher, Lilian também enfrentou a rotina cansativa de ser mulher, dividindo-se entre a carreira profissional, a maternidade e a vida conjugal, nunca deixando de lado o seu amor pelos estudos. E, no auge dos seus 70 anos de idade, Lilian segue sendo uma adolescente, curiosa e disposta a buscar novos fatos das histórias não contadas e dos elementos que ainda não foram descobertos.
 
Sempre atenta às dificuldades dos seus alunos, Lilian é o modelo de que ser professora é ensinar, mas também aprender ensinando. Mesmo tão angelical e transmissora de tranquilidade, por sua voz serena, às vezes precisa endurecer o tom de voz para espantar a preguiça e o desinteresse de seus alunos.
 
E, assim, Lilian segue com o seu pioneirismo. Até quando fala em aposentadoria, ela admite que essa será a fase em que poderá se dedicar a novos estudos e pesquisas, deixando claro que a aposentadoria não vai interromper a sua trajetória no mundo da História.
 

 

 
Crônica escrita a partir de relatos de registros fotográficos de Lilian Maria Moser, 70 anos, professora universitária, em entrevista concedida em 23 de maio de 2026
 
Leonardo é aluno do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
 
As fotografias fazem parte do acervo pessoal da entrevistada.
 
Direito ao esquecimento
Geovani Berno - 20/10/2026 13:39
A professora Lilian é uma criatura incrível, que nos ensina com doçura e encanta, nos fazendo apaixonar pelo conhecimento. Parabéns aos acadêmicos da Unir por esta valorização a grande mestra!

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