Um dos papéis mais marcantes do lendário ator Kirk Douglas é o personagem Coronel Dax, naquele que é, para mim, um dos cinco melhores filmes de guerra já realizados na história do cinema. Um trabalho espetacular do genial diretor Stanley Kubrick, que criou uma obra visual absurda e muito avançada para o período em que foi produzida. O filme “Glória Feita de Sangue” (Paths of Glory) foi lançado em 1957 e já tem a marca de Kubrick graças ao seu perfeccionismo em trabalhar com imagens detalhadas, criando sequências inimagináveis e que enfatizam ainda mais a dramaticidade proposta por sua história, num espetáculo visual que só ele sabe como fazer, de uma forma estilizada que virou sua marca na sétima arte.
O filme já se encontra disponível no catálogo do serviço de streaming da Netflix e pode ser encontrado também no catálogo do Prime Video. O destaque para a Netflix é porque é muito raro a empresa lançar clássicos de grande porte como esse na sua plataforma, ainda mais um filme em preto e branco que tem um reconhecimento crítico de muito prestígio.
.jpg)
“Glória Feita de Sangue” foi um dos primeiros filmes antibelicistas da história do cinema. Com roteiro de Kubrick, Calder Willingham e Jim Thompson, é baseado no romance de Humphrey Cobb, um crítico voraz das guerras, que criou uma história destacando os militares, principalmente os de alta patente, como homens mesquinhos, perdedores e covardes, sem lhes dar o tratamento tradicional de heróis honrados ou patriotas ilibados. Pelo fato de o drama se passar na Primeira Guerra Mundial, o tema se torna ainda mais característico por envolver Alemanha e França num momento de transição de poder nacional entre os dois países, que brigavam por territórios.
Aqui, na trama, em 1916, vamos ver a história pelo ponto de vista dos franceses, quando Paul Mireau (George Macready, numa interpretação impressionante), um general francês orgulhoso, em reunião com outro general signatário do mais alto comando, propõe um ataque suicida a uma determinada região onde estão localizadas as trincheiras. Em comum acordo, decidem pelo ataque como forma de desestabilizar os soldados alemães. Porém, quando Mireau vai repassar as ordens ao pelotão e à artilharia da área, liderados pelo Coronel Dax (Douglas), encontra certa resistência pela ação, que vai exigir um grande sacrifício de homens frente à força bélica alemã.
Em meio ao ataque, as perdas são inevitáveis, e soldados da artilharia, ao perceberem que muitos estão morrendo devido ao revide severo dos alemães — melhores preparados na área em vista do massacre que estão promovendo — acabam não saindo das trincheiras, permanecendo acuados. O general Mireau, percebendo isso, ordena e exige que os soldados avancem e saiam das trincheiras, mesmo que isso cause mais perdas. Mas não é obedecido nesse pedido absurdo, o que causa uma derrota às tropas francesas.
Possuído pela ira de não ter as suas ordens executadas, ele resolve se vingar do pelotão de Dax, solicitando um julgamento imediato e a execução de todo o regimento, chamando todos de covardes pela quebra da sua estratégia militar suicida. O militar quer levar 100 soldados, até ser convencido a reduzir o número para três irem à Corte Marcial e ali decidir o destino do que ele chama de “traidores”.
Nesse ponto entra a força do Coronel Dax, inconformado com a injusta acusação imposta ao seu pelotão, que teve uma perda significativa na batalha por culpa da ordem de Mireau, decide assumir a defesa dos três soldados no julgamento.
O julgamento demonstra, então, a estupidez severa dos homens responsáveis por comandar as ações durante a guerra, como também a manipulação do poder e como a força mesquinha de um único homem é capaz de provocar a própria derrota interna de um exército que quer liderar. Dax vai demonstrar que é justamente essa atitude impoluta de um general que pode desestabilizar, de fato, uma guerra que não terá vencedores, mas muitas mortes e injustiças.
Tecnicamente, o filme tem um apuro cinematográfico muito avançado para a época pelas tomadas de câmera e cenas dirigidas por Kubrick; o olhar dele em dar um ponto de fuga claro à perspectiva de um cenário ou ainda conduzir um plano-sequência sem cortes dentro das trincheiras é uma apoteose. As cenas de batalha, com os soldados correndo entre as trincheiras à noite, são espetaculares. Impossível não perceber que ele tenha influenciado praticamente todos os filmes de guerra que vieram depois.
A fotografia em preto e branco de Georg Krause é excepcional, com uso de luz e um trabalho valioso na marcação da câmera dentro das trincheiras e na sequência do julgamento em um grande salão. Outro destaque é a trilha musical do maestro Gerald Fried, perfeita.
“Glória Feita de Sangue” foi nomeado como Melhor Filme no Prêmio BAFTA de 1958. Kubrick foi diplomado com mérito pelo Sindicato dos Jornalistas Críticos de Cinema da Itália e recebeu o Prêmio Fita de Prata de Melhor Diretor de Filme Estrangeiro.
Um digno trabalho que se pode chamar, de fato, de FILMAÇO.