Não foi acidente, mas um crime. Um acidente intencional e com consequências devastadoras
Foto: Divulgação
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O documentário “Colisão: Acidente ou Homicídio” (The Crash/2026), que estreou na semana passada no catálogo da Netflix, é o atual sucesso do momento na plataforma de streaming. Tenso, inacreditável e assustador em sua conclusão. Muito bem realizado pelo diretor e especialista Gareth Johnson ele tem um outro documentário, em minissérie, que co-dirigiu ao lado de Sam Benstead, muito bom por sinal e que está disponível também na Netflix: “O Mestre da Enganação”.
A fórmula de “Colisão” é o impacto visual logo no início, mostrando as consequências do que parece ser um acidente automobilístico em uma das avenidas da cidade de Strongsville, em Ohio. No início da manhã de 31 de julho de 2022, a polícia vai atender a um chamado de emergência e, ao chegar ao local, se depara com uma visão de puro horror.
Vamos ver essa sequência inicial através de uma das câmeras corporais da polícia.
A confusão no local do acidente, com os policiais verificando o que houve, já é assustadora pelos diálogos trocados, enquanto vemos o estado do carro, praticamente dividido ao meio e amassado. Ninguém sobreviveria a uma batida dessas, que deixa o registro de ter ocorrido em alta velocidade. O carro, um Toyota, cruzou a pista e ficou quase destroçado após atingir em cheio um muro de tijolos.
Logo percebem que, pelo impacto, o veículo estava em alta velocidade.
O diálogo entre os policiais, quando se deparam com o acidente:
“As vítimas. São muito jovens.”
“Oh, não! Eu conheço um deles. É do time de futebol juvenil da cidade.”
Um dos policiais olha o velocímetro do carro, travado quando bateu: 160 km/h. Ou seja, o carro estourou em uma parede a essa incrível velocidade. E, dos três jovens que estavam no veículo, dois morreram: Davion Flanagam, de 19 anos, o jogador, e Dominic Russo, de 20 anos, que era namorado da única vítima que escapou com vida, Mackenzie Shirilla, uma moça magra, de apenas 17 anos, e que estava na direção.
O que houve para um acidente trágico dessa natureza ocorrer assim? Falha nos freios do veículo? A motorista dormiu ao volante e, quando percebeu, era tarde demais?
O que houve?
Mackenzie fraturou a perna, teve sérias escoriações pelo corpo e na cabeça e ficou internada em estado estável em um hospital da cidade. Já Davion e Dominic foram entregues às famílias para serem sepultados.
E é nesse momento que vamos acompanhar com atenção o perfil de Mackenzie e do seu namorado Dominic, e como a relação dos dois, que estavam juntos havia dois anos, se tornou a base para explicar o acidente fatal.
Vamos conhecer os amigos e colegas do casal, que contam com algum entusiasmo sobre a relação dos dois, a amizade de Dominic com Davion, as festas de que participavam, o encerramento do último ano escolar, mas sempre mostrando que eram jovens vivendo de forma intensa a sua juventude, como era comum.
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As famílias também pais e mães dos jovens contam as características deles, a relação entre eles e como a perda dos dois rapazes afetou a vida de todos. Mackenzie é acolhida pelos pais e, principalmente, pela família de Dominic, que chega a levá-la ao túmulo dele quando ela recebe alta do hospital e fica em choque ao saber de sua morte.
Porém, o caso se torna suspeito quando entra a promotoria da cidade para fazer uma investigação do acidente, que, aparentemente, parece ter sido provocado por uma falha mecânica no carro. Mas o promotor junta o laudo do veículo, consegue imagens das câmeras de segurança das casas próximas ao acidente e descobre que tanto Mackenzie quanto Dominic eram usuários de maconha é encontrada uma pequena porção na bolsa da garota quando ocorreu a batida. Mas exames apontam que o consumo dela foi baixo, sem possibilidade de afetar seus reflexos. Para piorar, nas imagens e na pista não há sinais de frenagem ou qualquer redução de velocidade. Pelo contrário: em uma curva antes do impacto, o veículo registra uma aceleração.
Não foi acidente, mas um crime. Um acidente intencional e com consequências devastadoras.
O diretor Gareth então vai tecendo uma teia de revelações a partir do acesso ao celular da jovem motorista, da investigação sobre o seu perfil nas redes sociais, e vamos ver que ela é uma pessoa intensamente dinâmica na internet, buscando engajamento em tudo o que faz. O seu relacionamento com Dominic é profundo, pois ele se tornou independente apesar da pouca idade: tinha um imóvel, morava sozinho e fazia investimentos em criptomoedas, ganhando um bom dinheiro, com apoio total da família.

Era o namorado perfeito para Mackenzie, pois ele queria curtir a vida, participava de festas e tinha o amigo Davion apoiando seus melhores momentos. Ele era amigo do casal, chegando a dormir na casa onde os dois moravam.
Jovem e bem-sucedido, Dominic fazia com que ela tomasse posse de algumas de suas coisas como se fossem dela também, querendo mostrar aos amigos que era uma garota com futuro garantido em seu relacionamento e que tinha tanto poder quanto ele nas decisões da própria vida, mesmo sendo uma adolescente de 17 anos.
Quando então, através de áudios de conversas dela com Dominic, vídeos e até mesmo depoimentos, o perfil da moça sofredora que perdeu o namorado em um acidente trágico começa a revelar uma pessoa possessiva, raivosa e dissimulada. Vamos compreender que o relacionamento tinha instabilidade a ponto do rapaz não querer mais a presença de Shirilla na sua casa.
Com a divulgação do laudo e do parecer do veículo, que não apresenta nenhum problema mecânico, além da ausência de frenagem, Mackenzie passa a ser vista como uma potencial criminosa e o acidente como algo premeditado.

Esse foi um dos casos mais polêmicos apresentados pela mídia na época nos EUA, pois haviam provas contundentes de culpa, mas também colegas, parentes e amigos que iam contra a denúncia da promotoria da cidade, que a acusou de duplo homicídio pela morte dos dois rapazes e pelo acidente intencional que provocou a colisão.
O julgamento de uma jovem de 17 anos, criada como uma “princesa” pela família e tratada pelos colegas de escola como uma pessoa de alta relevância, causou um impacto chocante entre estudantes e pais. Alguns desses pais enxergavam nela uma potencial assassina pelas revelações da promotoria que vinham à tona na mídia.
As famílias das vítimas ficaram revoltadas com a proteção em torno da jovem, que aparentava uma inocência induzida pelas circunstâncias. A equipe do documentário conseguiu autorização e registrou uma entrevista dela após o julgamento, em que faz relatos quase robóticos, sob orientação do advogado, como forma de tentar sensibilizar as pessoas pela sua condição.
Assista. É um documentário muito bem realizado, com detalhes surpreendentes, e o caso se tornou notório por envolver o julgamento de uma ré adolescente que pode ser condenada à prisão perpétua, com possibilidade de liberdade condicional somente após 15 anos.
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