O título da crítica tem um ‘quê’ de contraditório — “besta” e “maravilhoso” — pelo simples motivo de que esse filme, “De Repente 30” (13 Going on 30/2004), não tem nada de extraordinário que já não tenha sido visto e até melhor — como o filme que iniciou essa febre em Hollywood, de crianças que, de um dia para o outro, surgem como adultas, no caso de “Quero Ser Grande” (Big/1987), com Tom Hanks —, mas aqui há um clichê romântico de comédia de costumes muito bem-feito e um poder de cativação acima da média. Com um roteiro redondinho (escrito pela dupla, um casal, Josh Goldsmith e Cathy Yuspa) — claro, é preciso acreditar na premissa do salto temporal através de uma mágica simples.
Mas o que há de mais charmoso ou notório que torna essa comédia romântica tão agradável de ver e reassistir nas reprises de uma “Sessão da Tarde”, por exemplo? Além do roteiro bem-feito, há um elenco muito acima da média, e a atriz Jennifer Garner, que na época estava no auge por conta da série “Alias”, na qual fazia uma agente secreta de alto nível de uma agência governamental obscura, tem um ótimo timing para comédia. O diretor do filme, Gary Winick, soube aproveitar muito bem a sua desenvoltura e talento.
Jenna Rink (Christa B. Allen) é uma pré-adolescente descontente com sua própria idade, pois as colegas de escola mais populares não lhe dão atenção; ela quase não tem seios em comparação com as outras meninas da mesma idade, seus pais ficam sempre lhe cobrando e, para piorar, o garoto por quem está apaixonada nem sabe que ela existe. Jenna só tem um amigo, o gordinho Matt Flamhaff (Sean Marquette), seu vizinho desde criança.
Quando ela resolve dar uma festa no porão de casa para as meninas mais populares, que prometem levar o garoto de quem ela gosta, Jenna acaba se enrolando, e o que era para ser um grande momento acaba virando um desastre, levando-a a se frustrar e desejar ter 30 anos, ser adulta, pois isso parece melhor para a sua vida. O pedido se torna realidade por uma questão de mágica e, no dia seguinte, ela acorda em um futuro alternativo, onde agora Jenna (vivida por Jennifer Garner) é editora-chefe de uma revista de moda e comportamento, rica, e tem um caso com um modelo que não conhece.
O roteiro vai um pouco além de mostrar uma garota de 13 anos que um dia deseja ser uma mulher mais velha. No dia seguinte, após o desejo ser realizado, vamos ver que isso traz consequências para sua forma adulta, porém com a cabeça de uma pré-adolescente que precisa se adaptar — sem perder a inocência diante de algumas provações da sua vida pessoal e no trabalho.
O roteiro toca em pontos que discutem a autoconfiança e o empoderamento feminino, mas concilia isso com sequências bem dosadas de drama pessoal, principalmente ao reencontrar o seu melhor amigo, Matt (vivido na forma adulta por Mark Ruffalo, muito bom, por sinal), hoje um homem que passou por uma grande provação quando foi apaixonado por ela na época da escola e precisa compreender essa mulher que um dia o rejeitou e hoje se aproxima como se fosse outra pessoa — melhor, mais humana.
Esses meandros desse microuniverso que o filme apresenta da nova vida de Jenna trazem um respiro na forma como ela lida com os seus problemas, sem perder a ternura de que a mente daquela mulher é a de uma garota; então, algumas de suas ações são pueris, espontâneas e geralmente muito, muito bem-humoradas. Como a sequência da festa em que ela faz todo mundo dançar “Thriller”, de Michael Jackson, ou as reuniões editoriais com o seu peculiar chefe gay, Richard (vivido pelo ótimo Andy Serkis, que fez o Gollum, de “O Senhor dos Anéis”).
Porém, um dos pontos cruciais para os românticos é quando ela reconhece em Matt, seu ex-melhor amigo de infância, o grande amor de sua vida. Mas vai descobrindo que o ignorou por anos, rompeu com ele ainda na escola quando foi aceita pelas colegas “patricinhas”. Descobre que esse “eu” de 30 anos, antes de ser incorporado por essa menina de 13 anos, era o de uma mulher arrogante, presunçosa e até traiçoeira.
Matt traz o rompante de suavidade daquela relação que ela sonha para a sua vida, quando percebe que ele é atencioso e tem um jeito de observar a vida como ela também deseja. Mas Matt é noivo, prestes a se casar, e isso faz com que ela perceba algo que pode destruir a sua autoestima e finalmente enxergar que a mulher que imaginava ser perfeita aos 30 anos, na verdade, era alguém que nunca deveria ter sido ou que ela não reconhece como o seu “eu” verdadeiro.
O que fazer? Como agir?
Se ainda não assistiu, assista. É uma grata surpresa. Sem exigir rompantes de filmes que mudaram ou transformaram a sétima arte, mas como um filme escapista e que pode te fazer sorrir, “De Repente 30” é um clássico moderno entre os melhores filmes bobos e maravilhosos que o cinema já fez.
Está disponível no catálogo do serviço de streaming da Netflix.