"Em Busca de Uma Filha" (Into The Fire - The Lost Daughter) Essa é uma minissérie documen-tal do gênero true crime, com dois episódios, que está disponível no catálogo da Netflix desde 2024 e é um dos dramas mais surreais que eu já assisti. Confesso que me pegou muito a forma como a narrativa dos fatos apresenta as viradas do caso desse desaparecimento, que se desco-bre ser um dos crimes mais cruéis já cometidos por um homem.
Produzido pela atriz Charlize Theron, que ficou comovida com a abnegação de uma senhora, mãe, Cathy Terkanian, que mobilizou a polícia e toda uma comunidade para descobrir o paradeiro de sua única filha, que, no início dos anos 70, foi obrigada a dar para adoção quando tinha pouco mais de 17 anos, por pressão de sua família, que afirmava que ela não tinha condições de criar um be-bê.
O primeiro episódio começa em 2010, quando Cathy recebeu uma carta que falava sobre o desa-parecimento dessa filha com quem ela não tinha mais contato, Aundria, a quem havia entregue para adoção e havia feito um juramento, na ocasião, de que iria procurá-la quando ela completasse 15 anos.
Não deu certo, então ela contratou um detetive amador e, junto com a polícia, iniciou uma busca pela filha, que foi dada como desaparecida oficialmente no dia 11 de março de 1989, quando tinha 14 anos, na pequena e pacata cidade de Hamilton, no estado de Michigan. Por dez anos, Cathy tentou de todas as formas chegar até essa filha.
Vamos acompanhar, então, como foi o processo de adoção da bebê, que foi adotada por uma pa-rente distante e que a batizou com o nome de Alexis Badger, quando a menina tinha dois anos de idade.
Movida pela necessidade de entender o que aconteceu, Cathy contratou um detetive amador e uniu-se às autoridades locais numa busca que durou uma década.
Aundria, que originalmente se chamava Alexis Badger, foi adotada pela família Bowman aos dois anos, após ser entregue para adoção por Cathy ainda bebê. Nos primeiros momentos, o processo de adoção foi considerado correto, pois era uma família considerada cristã, de bons antecedentes, e o pai era um oficial da Marinha, Dennis Bowman, bastante conhecido na cidade.
No entanto, essa história ganha contornos sombrios quando acompanhamos que o ambiente fami-liar em que Aundria vivia com os pais não era perfeito longe disso. Quando antigas amigas da escola são entrevistadas, elas apresentam um cenário de horror e abusos sofridos pela menina, que chegou a denunciar o padrasto na escola, ao afirmar ter sofrido abusos sexuais.
Isso em 2020, quando Cathy levantou fortes suspeitas de que sua filha não desapareceu, mas foi morta por Dennis, que teria ocultado o corpo, sem deixar vestígios. Não é spoiler, pois isso é reve-lado ainda no primeiro episódio e, a partir desse momento, as investigações do caso são retoma-das, e o processo de descoberta da vida pregressa do pai adotivo da menina revela um histórico nefasto de crimes e abusos cometidos contra outras mulheres.
Mesmo com esse comportamento criminoso e tendo cumprido sentenças prisionais, a mãe adotiva de Aundria era passiva e aceitava os delitos do marido em silêncio até mesmo quando desco-briu os abusos cometidos contra Aundria. Dennis passou incólume até ser preso por um crime cometido em meados dos anos 70, quando a esposa de um oficial foi morta em uma residência da Marinha.
Antes disso, Cathy suspeita que uma área abandonada em um terreno, nos fundos do quintal da família Bowman, tem uma marca estranha, onde ela acredita que sua filha possa estar enterrada. Porém, ela não é levada a sério pela polícia, que precisa de mais elementos para poder fazer uma análise criteriosa do caso.
Esse embate investigativo e a resistência de Dennis trazem uma série de reviravoltas ao caso e transformam a vida de Cathy e até mesmo a da comunidade daquela cidade. O segundo episódio é um retrato cru e evidente sobre a falta de limites de um homem que escondeu seu passado e criou uma persona cristã envolta em mentiras e hipocrisia para esconder um monstro.
Vou evitar spoilers de como é o andamento da investigação, os interrogatórios e a mobilização em torno da revelação da verdade sobre o desaparecimento de Aundria, envolvendo um dos crimes mais bárbaros já cometidos. A trama tem uma resolução, um final que coloca uma pedra sobre o caso, mas deixa sequelas que marcam não só a figura da mãe abnegada, mas também quem as-siste. Mostra como a esposa de Dennis é uma mulher alienada, que vive em um mundo paralelo doentio baseado nos ditos “preceitos familiares” em que acredita o que inclui amar um homem do perfil de Dennis.
O documentário foi dirigido e produzido por Ryan White, conta com imagens reais cedidas pela polícia e pela própria Cathy, quando iniciou sua própria investigação na cidade de Hamilton. Seus depoimentos são emocionantes e mostram a revolta em torno do que sua filha passou. Para piorar, há ainda a dor por não ter sido uma mãe presente e por ter abdicado de criá-la por conta da pres-são da família por isso, identificamos e compreendemos seu desespero em muitos momentos.