ESPECIAL - Renato Russo – 10 anos sem o poeta daquela canção de memória - Por Marcos Souza

Ele escrevia desavergonhadamente muito bem sobre o amor, a coisa mais brega e linda do mundo. Renato Russo não tinha pudor em ser óbvio e universal sobre a passionalidade das relações humanas, compunha sobre o seu mundo particular e atingia à massa juveni

ESPECIAL - Renato Russo – 10 anos sem o poeta daquela canção de memória - Por Marcos Souza

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*Ele escrevia desavergonhadamente muito bem sobre o amor, a coisa mais brega e linda do mundo. Renato Russo não tinha pudor em ser óbvio e universal sobre a passionalidade das relações humanas, compunha sobre o seu mundo particular e atingia à massa juvenil por ser básico. Renato Manfredini Júnior morreu no dia 11 de outubro de 1996, em conseqüência da Aids, ele era soropositivo desde 1990. *Como líder da banda brasiliense Legião Urbana, Renato cruzou a mítica cena punk de Brasília no início dos anos 80, quando estava no famigerado grupo Aborto Elétrico, banda crucial para estabelecer um parâmetro de criação do rock nacional pós-punk, que influenciaria gerações futuras dentro do Brasil. Renato, assim como outro grande compositor e cantor do rock nacional, Cazuza – morto também pela Aids -, foi eleito por toda uma geração como o seu porta-voz. *Do canto intenso e gritado, do sussurro grave e entregue, ele fazia por merecer suas influências musicais, hora dedicado aos “trinados” de Morrissey com The Smiths, hora passando pela balada cortante com influência de Joy Division - Renato imitava bem o jeito de dançar de Ian Curtis, quando estava no palco -, ou remetendo ao clamor deprê de um Nick Drake ou ainda o mítico Neil Young. *Era um cara culto, um ensandecido devorador de livros, notável para os fãs que não relutaram em absorver as erudições do cantor e compositor, que desde o quarto disco da Legião – “As Quatro Estações” (1988), tornaram comuns as citações literárias em suas letras, por vezes amalgamando trechos inteiros, como ocorreu na canção “Monte Castelo” (do disco “As Quatro Estações”), adaptado do “Soneto 11”, de Luís Camões, e de uma citação bíblica contida em I Coríntios, 13. Basta lembrar desses versos: “Ainda que eu falasse a língua dos homens./ E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria./ É só o amor, é só o amor./ Que conhece o que é verdade./ O amor é bom, não quer o mal./ Não sente inveja ou se envaidece./ O amor é o fogo que arde sem se ver./ É ferida que dói e não se sente./ É um contentamento descontente./ É dor que desatina sem doer (...)”. *Comentar a importância de Renato Russo na música brasileira é querer polemizar em alguns aspectos. Muitos o consideram um gênio, não chego a esse exagero, mas eu sempre acreditei que o “pra sempre” não existe, porém, Renato tinha um sensor de emoções em expansão, vivendo no limite possível da razão e do coração, muitas vezes percorrendo caminhos perigosos. Era alcoólatra confesso, teve o seu envolvimento com drogas ilícitas, em uma bombástica entrevista na revista musical Bizz, cedida ao jornalista José Augusto Lemos em 1990, “saiu do armário”, revelando que era homossexual. E, claro, isso jamais influenciou negativamente os seus ouvintes. *Para os fãs a homossexualidade de Renato já era notada antes de sua declaração, pois algumas letras não deixavam dúvidas, basta citar músicas como: “Feedback song for a dying friend” – cujos versos iniciais dizem: “ Soothe the young man’s sweating forehead/ Touch the naked stem held hidden there/ Safe in such dark hayseed wired nest/ Then his light brown eyes are quick/ Once touch is what he thought was grip (...)” - Tradução: Alisa a testa suada do rapaz/ Toca o talo nú ali escondido/ Protegido nesse ninho farpado sombrio da semente/ Então seus olhos castanhos ficam vivos/ Antes afago pensava que era domínio (...)” e “Maurício” - “(...) Já não sei dizer o que aconteceu/ Se tudo que sonhei foi mesmo um sonho meu/ Se meu desejo então já se realizou/ O que fazer depois/ Pra onde é que eu vou?/ Eu vi você voltar pra mim.”, e que estão no disco “As Quatro Estações”. *Alguns críticos musicais respeitam a importância da figura de Renato Russo, principalmente como letrista, o primeiro disco da Legião é uma seleção de clássicos que servem de referência à inúmeros artistas da MPB, como Caetano Veloso, Marina Lima, Ana Carolina, a saudosa Cássia Eller, Simone, Adriana Calcanhoto, entre tantos que regravaram músicas como “Ainda é Cedo”, “Será, “Por enquanto” e “Geração Coca-Cola”. “Faroeste Caboclo” foi um dos momentos altos da banda, faixa que integra o terceiro disco, e que era pra ter feito parte do segundo disco da banda, intitulado “Dois” (1987). “Faroeste...” abriu um precedente notável no cancioneiro popular - sim, era rock, mas tinha uma pegada do “Repente” nordestino e a poesia dos cordéis -, além da quilométrica letra narrando a saga de um tal João de Santo Cristo, a música tinha incríveis oito minutos e se tornou um grande sucesso nas rádios e TV, quebrando muitas vezes a programação dessas mídias. *Renato era uma figura emblemática, sofria com a idolatria dos fãs, pois temia a responsabilidade de ter que carregar a alcunha de “porta-voz de uma geração”, e havia perdido o prazer em fazer shows ao vivo, mesmo porque tinha que enfrentar os percalços das turnês, quando tinha recaída quanto ao seu problema com bebida. Mas era também o ponto culminante da sua interação com o seu público, onde ele expressava como ninguém a intensidade de muitas das canções da Legião. *O compositor quando quis se expressar saindo do formato banda de rock, apresentou dois discos solos desconcertantes, um todo com repertório em língua inglesa: “The Stonewall Celebration Concert - Renato Russo”, de 1994, e outro em língua italiana: “Equilíbrio Distante”, de 1995. Os dois trabalhos eram frutos do momento em que Renato passava em sua vida, com referência de ídolos e citações de trilha sonora (como Beatles, Nick Drake e filmes como “Pinóquio” – com a música “When you wish upon a star”, e “A Cor Púrpura”, com a bela canção “Miss Celie’s Blues”) e paixão pela música romântica contemporânea italiana. *Mesmo depois da Legião Urbana ter acabado, logo após a morte de Renato Russo, o número de fãs aumenta, e de um culto passou a ser considerado um “universo pop” em freqüente expansão. Mesmo trabalhos póstumos, considerados “caça-níqueis”, como “Mais do Mesmo” (1998), reunindo sobras de gravações, e o “Acústico MTV” (1999), considerado até por Renato Russo quando vivo, como um dos seus piores momentos, ou a coletânea dupla “Como é que se diz eu te amo” (2001), servem para alimentar a sanha dos fãs antigos e novos do cantor e compositor. *Se falaram em muitas homenagens que o Rock brasileiro perdeu com a morte de Renato Russo, pode-se dizer também que o Brasil perdeu um tanto maior na arte. Como pássaro ele voou para longe, bem longe, mas esqueceu de avisar que deixou pedaços de seu coração em muitas das canções que sempre motivaram amigos a se reencontrarem em volta da fogueira e lembrar com saudade de um dos seus maiores poetas. * “(...) Por mais que o destino *mudasse algumas coisas *Eu nunca desisti sempre insisti... *Eu fui tão simples com vocês ... *Fui ...eu fui .... *- *Não importa o que diz a lápide *Para sempre ficarão as promessas *os abraços apertados ...as saudades e os nossos beijos ...que nunca foram dados ... *Os nossos dias serão PARA SEMPRE...” *
Renato Russo – 27/03/1960 + 11/10/1996
*- Marcos Souza é um dos editores do site *Confira matéria veiculada no Jornal Nacional no dia em que se anunciou a morte de Renato Russo *- *- *Confira matéria veiculada no Fantástico em 1996 na mesma semana que morreu Renato Russo *-
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