Depois de resistir a alguns convites feitos ao longo dos anos por Paulo Andreoli, cá estou iniciando mais uma etapa da vida. Tentarei, através destas crônicas, contar um pouco do cotidiano, das lembranças, das pessoas e das pequenas histórias que, muitas vezes, passam despercebidas.
Ainda me lembro do olhar desconfiado de Paulo Andreoli.
Era o primeiro dia de aula da disciplina Semiótica, ministrada à primeira turma de Jornalismo de Rondônia. Eu chegava para apresentar aos alunos uma matéria de nome estranho para a maioria deles.
Imagino que Paulo tenha pensado algo parecido com: “O que será essa tal de semiótica? E o que essa mulher tem para dizer sobre isso?”
Mal sabia ele que, anos antes, eu já conhecera seu pai, Francisco Andreoli. Reconheci imediatamente a semelhança: o sobrenome, os olhos azuis firmes e atentos, a expressão observadora.
Logo nos tornamos amigos.
No decorrer do curso, Paulo, como bom empreendedor, resolveu inovar. Fundou um jornal eletrônico. Naquele momento era apenas uma experiência, uma aposta em um formato que ainda dava os primeiros passos. Com o passar dos anos, aquela iniciativa cresceu, ganhou credibilidade, conquistou leitores e transformou-se no Rondoniaovivo, hoje um dos mais importantes portais de notícias do estado.
O tempo passou.
Já se vão mais de duas décadas desde a formatura daquela primeira turma. É bonito observar os caminhos que cada um percorreu. Alguns permaneceram no jornalismo. Outros seguiram rumos diferentes. Mas todos, à sua maneira, encontraram o próprio lugar ao sol.
Tenho saudades daqueles dias.
Ainda me vejo subindo as escadas da faculdade carregando uma pasta pesada, cheia de livros, anotações e papéis coisas de professor.
Era uma turma numerosa e criativa. Com o passar dos meses, entre signos, significados e significantes, tudo passou a ser analisado em sala de aula.
A moça que carregava uma bolsa Louis Vuitton.
O rapaz que vendia queijo.
O servidor do Tribunal de Contas.
O salto alto de uma colega.
Os cabelos encaracolados de outra.
Os sapatos excessivamente lustrosos de um aluno.
O sorriso metálico de quem usava um aparelho ortodôntico enorme.
Até a pasta gigante da professora acabava se transformando em objeto de análise.
As aulas eram assim. Em meio às reflexões semióticas, aprendíamos a observar o mundo com mais atenção. E talvez também a compreender melhor uns aos outros.
Era o ano de 2003.
Pela janela da sala de aula, a menos de trezentos metros dali, começava a escuridão da floresta amazônica. A luz elétrica iluminava os rostos curiosos dos estudantes, enquanto a mata permanecia silenciosa, guardando seus próprios mistérios.
Havia algo de encantador naquele contraste.
Dentro da sala, discutíamos signos, sentidos e significados.
Lá fora, a floresta observava.
Silenciosa, foi testemunha daqueles dias. Assistiu aos sonhos, às dúvidas, às descobertas e aos primeiros passos de uma geração de jornalistas. Continua lá até hoje, guardando histórias que talvez só ela seja capaz de recordar.
Hoje retorno a estas páginas.
Não como professora, nem como dirigente, nem como jornalista à procura da notícia urgente.
Retorno como alguém que continua acreditando que as histórias importam.
Ao longo da vida, vi notícias nascerem pela manhã e serem esquecidas ao anoitecer. Mas também vi pequenas histórias permanecerem vivas por décadas, guardadas na memória das pessoas como quem guarda um retrato antigo dentro de uma gaveta.
Talvez seja justamente delas que eu queira falar.
Das coisas simples. Das pessoas comuns. Das alegrias discretas e das dores silenciosas. Dos encontros, das perdas, das lembranças e dos caminhos que a vida insiste em nos apresentar.
A partir de agora, todas as semanas, se Deus permitir, estarei por aqui compartilhando um pouco dessas histórias.
Algumas aconteceram diante dos meus olhos.
Outras foram contadas por quem as viveu.
E há aquelas que permanecem em silêncio, aguardando apenas o momento certo para serem lembradas.
Talvez todas elas estivessem ali desde o início, escondidas atrás da janela, observando a passagem do tempo ao lado da floresta.
Agora, finalmente, chegou a hora de contá-las.
Sara Xavier Duque Estrada de Oliveira